A manhã começou comum demais para ser verdade.
Sofia usava um vestido amarelo, os cachos presos com uma fita nova. Ria enquanto eu a ajudava a calçar os sapatos — um som raro, precioso, como sinos em meio ao silêncio da mansão.
— Hoje vamos ao parque? — ela perguntou, os olhos brilhando.
— Seu pai disse que sim. Só por uma hora.
Dante tinha concordado na noite anterior, relutante. “O parque é vulnerável”, dissera. Mas Sofia insistira, e ele, surpreendentemente, cedera. “Porque ela sorriu”, ele murmurara depois, quase para si mesmo.
Marco nos esperava na garagem com o sedã blindado. Mesmo assim, Dante fez questão de inspecionar o carro pessoalmente — debaixo do capô, nos bancos, no porta-malas. Nada.
— Mantenham as janelas fechadas — ordenou, segurando minha mão por um segundo a mais do que o necessário. — E se algo parecer errado, você dirige. Entendeu?
— Sim.
— Não hesite. Atire primeiro. Pergunte depois.
Ele me entregou uma pistola escondida na bolsa de Sofia. Pequena, leve, mortal.
— Por precaução.
O parque era lindo.
Árvores altas, crianças correndo, mães conversando em bancos. Sofia correu para o balanço, os pés descalços na grama. Por um momento, esqueci a mansão, os tiros, os olhos frios de Moretti. Esqueci que vivíamos em guerra.
Até ouvir o primeiro tiro.
Não foi alto. Foi abafado — um thwip suave, como um estalo de dedo. Mas o vidro da janela do carro explodiu em mil fragmentos.
— SOFIA! — gritei, correndo.
Ela congelou, os olhos arregalados. Outro tiro. Desta vez, o banco do balanço voou para trás.
Marco já estava atirando de volta, usando o carro como cobertura. Gritei para Sofia se jogar no chão. Ela obedeceu, rastejando até mim.
— Corre! — Marco gritou. — Eu seguro eles!
Peguei Sofia no colo e corri para o carro. As balas assobiavam no ar, arrancando cascas das árvores, perfurando o chão. Meu coração batia tão forte que m*l sentia as pernas.
Coloquei Sofia no banco de trás, tranquei as portas. Ela tremia, mas não chorava. Apenas me olhava, confiante.
— Você vai me salvar, Lena?
— Sempre.
Liguei o carro. O motor roncou. Engatei a ré e saí em disparada, pneus guinchando na terra molhada.
No retrovisor, vi dois homens mascarados saindo dos arbustos. Um deles levantou um rifle.
— Agacha! — gritei para Sofia.
Ela se encolheu no chão do carro.
O vidro traseiro estilhaçou.
Mas o carro era blindado. O tiro não perfurou.
Segui em frente, acelerando, o coração martelando. Sabia que não podia ir para casa — era o lugar mais óbvio. Então virei à esquerda, entrando num bairro residencial que Dante me ensinara a usar como rota de fuga.
Três quadras. Quatro. Cinco.
Nenhum sinal de perseguição.
Respirei fundo. Talvez tivéssemos escapado.
Foi então que ouvi o barulho.
Um clique suave vindo do banco de trás.
Olhei pelo retrovisor.
Sofia segurava a pistola que Dante tinha escondido na bolsa dela. Os olhos grandes, fixos na estrada.
— Você sabe usar isso? — perguntei, a voz trêmula.
— Papai me mostrou. — A voz dela era calma. Assustadoramente calma. — Disse que, se alguém tentasse me levar, eu deveria apertar aqui.
Meu sangue gelou.
— Guarde. Agora não é hora.
Ela obedeceu, guardando a arma no bolso do vestido.
Vinte minutos depois, cheguei a um armazém abandonado nos arredores da cidade — um dos "esconderijos limpos" que Dante mencionara durante o treinamento.
Tranquei todas as portas, verifiquei cada canto. Ninguém nos seguira.
Sofia finalmente chorou. Silenciosamente, os ombros sacudindo. Abraçei-a, sentindo o cheiro de grama e medo no cabelo dela.
— Está tudo bem, pequena. Estamos seguras.
— Por que querem me matar?
— Porque seu pai é poderoso. E você é o que ele mais ama.
— E você?
— Eu também te amo. Por isso vou te proteger.
Meu celular vibrou. Era Dante.
— Vocês estão vivas?
— Sim.
— Onde?
Contei. Ele ficou em silêncio por um longo momento.
— Moretti mandou três homens. Dois estão mortos. O terceiro… está falando.
— Por quê? Por que agora?
— Porque ele viu você no parque. Viu que Sofia sorri com você. E entendeu: você é o ponto fraco dela. E o ponto forte dela.
— O que vamos fazer?
— Vamos terminar isso. — A voz dele era gelo puro. — Mas antes, eu preciso saber uma coisa.
— O quê?
— Você hesitou?
— Não.
— Atiraria se tivesse que?
— Sim.
Outro silêncio.
— Bem-vinda ao clã, Elena.
Duas horas depois, Dante chegou com quatro homens armados.
Ele correu até Sofia, ajoelhando-se, segurando o rosto dela com as mãos trêmulas.
— Você está machucada?
— Não, papai.
Ele a abraçou com força, como se temesse que ela desaparecesse. Depois, se virou para mim.
— Você salvou minha filha. De novo.
— É meu trabalho.
— Não. — Ele se aproximou, a voz baixa, só para mim. — É seu coração.
Naquela noite, de volta à mansão, tudo parecia igual.
Mas não era.
Marta serviu sopa quente. Sofia dormiu sem pesadelos. E Dante, pela primeira vez, não ficou vigiando do corredor.
Entrou no quarto dela. Sentou-se na beirada da cama. Ficou lá até ela adormecer.
Eu o observei da porta, em silêncio.
Quando ele saiu, parou diante de mim.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer.
— Preciso. Porque hoje, você não foi babá. Foi família.
Houve um silêncio carregado.
— Moretti vai tentar de novo — eu disse.
— Sim. Mas agora ele sabe: tocar em você é o mesmo que declarar guerra total.
— E se eu for o alvo?
— Então ele descobrirá que há coisas piores do que perder um império. — Dante inclinou a cabeça, os olhos azuis fixos nos meus. — Perder você.
Mais tarde, encontrei a pistola de Sofia sobre a mesa do meu quarto.
Ao lado, um bilhete:
“Guarde. A próxima vez será pior. — D.”
Peguei a arma. Carreguei.
Sabia que não era mais questão de se haveria outro ataque.
Era quando.
E eu estaria pronta.
Não como babá.
Como rainha daquela casa de sangue e promessas.
Na varanda, ouvi passos. Dante se aproximou, trazendo dois copos de uísque.
— Beba. Você merece.
Destra vez, não recusei.
O líquido queimou, mas o calor era bem-vindo.
— Por que me escolheu? — perguntei. — Entre tantas, por que eu?
Ele olhou para a cidade lá embaixo, luzes piscando como olhos vigilantes.
— Porque você não veio por dinheiro. Nem por poder. Você veio por necessidade. E ainda assim, escolheu proteger. Isso é raro. Isso é… sagrado.
— Não sou santa.
— Não. Você é melhor. É real.
Ficamos em silêncio, bebendo, observando a noite engolir Chicago.
Sabíamos que a paz era frágil.
Mas, pela primeira vez, não estávamos sozinhos nela.