O Atentado

1137 Palavras
A manhã começou comum demais para ser verdade. Sofia usava um vestido amarelo, os cachos presos com uma fita nova. Ria enquanto eu a ajudava a calçar os sapatos — um som raro, precioso, como sinos em meio ao silêncio da mansão. — Hoje vamos ao parque? — ela perguntou, os olhos brilhando. — Seu pai disse que sim. Só por uma hora. Dante tinha concordado na noite anterior, relutante. “O parque é vulnerável”, dissera. Mas Sofia insistira, e ele, surpreendentemente, cedera. “Porque ela sorriu”, ele murmurara depois, quase para si mesmo. Marco nos esperava na garagem com o sedã blindado. Mesmo assim, Dante fez questão de inspecionar o carro pessoalmente — debaixo do capô, nos bancos, no porta-malas. Nada. — Mantenham as janelas fechadas — ordenou, segurando minha mão por um segundo a mais do que o necessário. — E se algo parecer errado, você dirige. Entendeu? — Sim. — Não hesite. Atire primeiro. Pergunte depois. Ele me entregou uma pistola escondida na bolsa de Sofia. Pequena, leve, mortal. — Por precaução. O parque era lindo. Árvores altas, crianças correndo, mães conversando em bancos. Sofia correu para o balanço, os pés descalços na grama. Por um momento, esqueci a mansão, os tiros, os olhos frios de Moretti. Esqueci que vivíamos em guerra. Até ouvir o primeiro tiro. Não foi alto. Foi abafado — um thwip suave, como um estalo de dedo. Mas o vidro da janela do carro explodiu em mil fragmentos. — SOFIA! — gritei, correndo. Ela congelou, os olhos arregalados. Outro tiro. Desta vez, o banco do balanço voou para trás. Marco já estava atirando de volta, usando o carro como cobertura. Gritei para Sofia se jogar no chão. Ela obedeceu, rastejando até mim. — Corre! — Marco gritou. — Eu seguro eles! Peguei Sofia no colo e corri para o carro. As balas assobiavam no ar, arrancando cascas das árvores, perfurando o chão. Meu coração batia tão forte que m*l sentia as pernas. Coloquei Sofia no banco de trás, tranquei as portas. Ela tremia, mas não chorava. Apenas me olhava, confiante. — Você vai me salvar, Lena? — Sempre. Liguei o carro. O motor roncou. Engatei a ré e saí em disparada, pneus guinchando na terra molhada. No retrovisor, vi dois homens mascarados saindo dos arbustos. Um deles levantou um rifle. — Agacha! — gritei para Sofia. Ela se encolheu no chão do carro. O vidro traseiro estilhaçou. Mas o carro era blindado. O tiro não perfurou. Segui em frente, acelerando, o coração martelando. Sabia que não podia ir para casa — era o lugar mais óbvio. Então virei à esquerda, entrando num bairro residencial que Dante me ensinara a usar como rota de fuga. Três quadras. Quatro. Cinco. Nenhum sinal de perseguição. Respirei fundo. Talvez tivéssemos escapado. Foi então que ouvi o barulho. Um clique suave vindo do banco de trás. Olhei pelo retrovisor. Sofia segurava a pistola que Dante tinha escondido na bolsa dela. Os olhos grandes, fixos na estrada. — Você sabe usar isso? — perguntei, a voz trêmula. — Papai me mostrou. — A voz dela era calma. Assustadoramente calma. — Disse que, se alguém tentasse me levar, eu deveria apertar aqui. Meu sangue gelou. — Guarde. Agora não é hora. Ela obedeceu, guardando a arma no bolso do vestido. Vinte minutos depois, cheguei a um armazém abandonado nos arredores da cidade — um dos "esconderijos limpos" que Dante mencionara durante o treinamento. Tranquei todas as portas, verifiquei cada canto. Ninguém nos seguira. Sofia finalmente chorou. Silenciosamente, os ombros sacudindo. Abraçei-a, sentindo o cheiro de grama e medo no cabelo dela. — Está tudo bem, pequena. Estamos seguras. — Por que querem me matar? — Porque seu pai é poderoso. E você é o que ele mais ama. — E você? — Eu também te amo. Por isso vou te proteger. Meu celular vibrou. Era Dante. — Vocês estão vivas? — Sim. — Onde? Contei. Ele ficou em silêncio por um longo momento. — Moretti mandou três homens. Dois estão mortos. O terceiro… está falando. — Por quê? Por que agora? — Porque ele viu você no parque. Viu que Sofia sorri com você. E entendeu: você é o ponto fraco dela. E o ponto forte dela. — O que vamos fazer? — Vamos terminar isso. — A voz dele era gelo puro. — Mas antes, eu preciso saber uma coisa. — O quê? — Você hesitou? — Não. — Atiraria se tivesse que? — Sim. Outro silêncio. — Bem-vinda ao clã, Elena. Duas horas depois, Dante chegou com quatro homens armados. Ele correu até Sofia, ajoelhando-se, segurando o rosto dela com as mãos trêmulas. — Você está machucada? — Não, papai. Ele a abraçou com força, como se temesse que ela desaparecesse. Depois, se virou para mim. — Você salvou minha filha. De novo. — É meu trabalho. — Não. — Ele se aproximou, a voz baixa, só para mim. — É seu coração. Naquela noite, de volta à mansão, tudo parecia igual. Mas não era. Marta serviu sopa quente. Sofia dormiu sem pesadelos. E Dante, pela primeira vez, não ficou vigiando do corredor. Entrou no quarto dela. Sentou-se na beirada da cama. Ficou lá até ela adormecer. Eu o observei da porta, em silêncio. Quando ele saiu, parou diante de mim. — Obrigado. — Não precisa agradecer. — Preciso. Porque hoje, você não foi babá. Foi família. Houve um silêncio carregado. — Moretti vai tentar de novo — eu disse. — Sim. Mas agora ele sabe: tocar em você é o mesmo que declarar guerra total. — E se eu for o alvo? — Então ele descobrirá que há coisas piores do que perder um império. — Dante inclinou a cabeça, os olhos azuis fixos nos meus. — Perder você. Mais tarde, encontrei a pistola de Sofia sobre a mesa do meu quarto. Ao lado, um bilhete: “Guarde. A próxima vez será pior. — D.” Peguei a arma. Carreguei. Sabia que não era mais questão de se haveria outro ataque. Era quando. E eu estaria pronta. Não como babá. Como rainha daquela casa de sangue e promessas. Na varanda, ouvi passos. Dante se aproximou, trazendo dois copos de uísque. — Beba. Você merece. Destra vez, não recusei. O líquido queimou, mas o calor era bem-vindo. — Por que me escolheu? — perguntei. — Entre tantas, por que eu? Ele olhou para a cidade lá embaixo, luzes piscando como olhos vigilantes. — Porque você não veio por dinheiro. Nem por poder. Você veio por necessidade. E ainda assim, escolheu proteger. Isso é raro. Isso é… sagrado. — Não sou santa. — Não. Você é melhor. É real. Ficamos em silêncio, bebendo, observando a noite engolir Chicago. Sabíamos que a paz era frágil. Mas, pela primeira vez, não estávamos sozinhos nela.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR