Nós partimos ao amanhecer.
Sem avisos. Sem despedidas. Só três malas, um carro blindado e o silêncio pesado de quem sabe que está fugindo — não de inimigos, mas do próprio destino.
Dante dirigia. Eu segurava Sofia no banco de trás, os olhos dela ainda inchados do choro noturno. Ela não perguntou para onde íamos. Só apertou minha mão e cochilou, exausta.
— É seguro? — perguntei, baixinho.
— Nada é seguro — ele respondeu, sem tirar os olhos da estrada. — Mas lá, ninguém sabe que existimos.
A casa ficava escondida entre pinheiros altos, no meio de uma propriedade cercada por quilômetros de floresta. Nenhum vizinho. Nenhum sinal de celular. Só o vento nas árvores e o cheiro de terra molhada.
Era pequena. Simples. Nada de mármore, vidros blindados ou seguranças armados. Só madeira envelhecida, uma lareira de pedra e janelas que abriam para o lago.
— Aqui era da minha avó — Dante disse, descarregando as malas. — Ela dizia que o mundo só faz sentido longe dele.
Sofia correu para dentro, os passos ecoando no assoalho de madeira. Por um momento, pareceu uma criança normal. Livre.
Não havia empregados. Nenhuma Marta para servir o jantar.
Fui eu quem preparou o almoço: sopa simples, pão caseiro, frutas do pomar. Dante me observou da porta da cozinha, os braços cruzados, como se não reconhecesse aquela mulher que cortava legumes em vez de carregar armas.
— Você cozinha?
— Desde que tinha doze anos. Depois do acidente, alguém tinha que cuidar da Lúcia.
— Ela gosta daqui?
— Ela nunca saiu da cidade. Mas adoraria este lugar. — Hesitei. — Posso ligar para ela? Só para dizer que estou bem?
Dante assentiu.
— Cinco minutos. Use o satélite no escritório. E nada de detalhes.
Liguei. A voz de Lúcia estava fraca, mas feliz.
— Lena! Onde você está?
— Num retiro. Trabalho extra com a menina. Tudo bem por aí?
— Sim. Os médicos estão contentes. E… há seguranças novos no corredor. Disseram que é por ordem do seu chefe.
Meu sangue gelou.
— Ele é cuidadoso.
— Ele te trata bem?
— Sim, Lu. Muito bem.
Desliguei antes que ela percebesse o tremor na minha voz.
À tarde, Sofia brincou na margem do lago, jogando pedras na água. Dante sentou-se na varanda, limpando uma pistola com movimentos precisos.
— Você acha que Moretti sabe onde estamos? — perguntei, sentando-me ao seu lado.
— Não. Mas ele sabe que desaparecemos. E isso o deixa nervoso. Homens nervosos cometem erros.
— E se ele for atrás da Lúcia?
— Já coloquei homens extras no hospital. Ninguém entra sem autorização. Nem parentes. Nem médicos falsos.
— Você pensou em tudo.
— Não. — Ele me olhou, os olhos azuis cansados. — Esqueci de pensar que um dia teria medo de perder alguém. Isso muda tudo.
Naquela noite, choveu.
O som da chuva no telhado era quase hipnótico. Sofia adormeceu cedo, exausta da viagem. Eu a cobri, beijei sua testa, e voltei para a sala.
Dante estava diante da lareira, o fogo lançando sombras dançantes em seu rosto.
— Venha cá — ele disse, sem se virar.
Obeyeci.
Parou atrás de mim, as mãos grandes pousando nos meus ombros.
— Você está tensa.
— Estou sempre tensa.
— Hoje não precisa estar.
Virou-me suavemente, os olhos fixos nos meus. Não havia desejo. Só cansaço. E algo mais profundo: confiança.
— Por que me trouxe aqui? — perguntei. — Poderia ter deixado Sofia comigo e ido sozinho.
— Porque você é parte disso. — A voz dele era rouca. — Não sou bom com palavras, Elena. Mas depois do parque… eu soube. Se algo acontecesse com você, eu não sobreviveria.
Meu coração parou.
— Não diga isso.
— É verdade. — Ele inclinou a cabeça, o polegar roçando minha bochecha. — Você me fez lembrar que ainda posso ser humano. Não quero esquecer de novo.
Mais tarde, enquanto ele dormia no sofá, fiquei acordada, olhando pela janela.
A lua iluminava o lago, transformando a água em prata líquida. Era lindo. Pacífico.
Mas eu sabia: a paz era uma ilusão.
Moretti não desistiria. E Dante, por mais que fingisse o contrário, não podia viver escondido para sempre.
Ele era um rei. E reis não governam do exílio.
Na manhã seguinte, ensinei Sofia a fazer barquinhos de papel.
— Assim, os segredos vão embora com a correnteza — expliquei.
Ela dobrou o papel com cuidado, os dedos pequenos concentrados.
— Qual é o seu segredo, Lena?
— Que tenho medo de que isso acabe.
— O quê?
— Isso. — Apontei para os três: ela, eu, Dante na varanda, tomando café. — De sermos… família.
Ela sorriu, colocando o barquinho na água.
— Não vai acabar. Papai disse que você fica.
— Ele disse isso?
— Sim. Ontem, quando você dormia. Ele falou: “Ela é minha. Pra sempre.”
Meu peito apertou.
À tarde, Dante me chamou para o campo atrás da casa.
— Hoje, você aprende a caçar.
— Caçar?
— Com arco. Silencioso. Eficiente.
Passamos horas. Ele corrigia minha postura, ajustava meus dedos no arco, elogiava cada flecha que se aproximava do alvo.
— Você aprende rápido.
— Tenho bons professores.
Ele sorriu — um sorriso raro, verdadeiro.
— Minha avó dizia que a floresta revela quem você realmente é. Aqui, não há máscaras. Só instinto.
— E o que ela revelou sobre você?
— Que ainda sei proteger. Mesmo depois de tanto destruir.
Naquela noite, jantamos peixe grelhado e pão quente. Sofia contou histórias inventadas sobre sereias no lago. Dante riu — um som tão raro que quase chorei.
Depois, enquanto lavávamos os pratos, ele parou atrás de mim novamente.
— Quando voltarmos… vai ser pior.
— Eu sei.
— Moretti vai tentar te separar de mim. Vai oferecer dinheiro, segurança, liberdade. Vai dizer que sou um monstro.
— E o que eu digo?
— Diga que prefere o monstro que a protege a anjos que só observam.
Virei-me, encarando-o.
— Eu já escolhi, Dante.
— Mesmo sabendo que meu mundo é feito de sangue?
— Especialmente por isso. Porque você escolheu me deixar entrar nele.
Antes de dormir, encontrei um envelope sobre meu travesseiro.
Dentro, uma chave e um bilhete:
“Se algo acontecer comigo, leve Sofia para o norte. Há uma conta em seu nome. Um novo nome. Uma nova vida. Mas só use se eu não voltar. — D.”
Segurei a chave com força.
Sabia que ele não estava me dando uma saída.
Estava me dando confiança absoluta.
Na varanda, ele me esperava.
— Você leu.
— Sim.
— Vai usar?
— Nunca.
Porque naquela casa de madeira, entre pinheiros e silêncio, eu entendi:
Eu não queria fugir.
Eu queria ficar.
E lutar.