Conta

1854 Palavras
Lorenzo narrando. Acordo cedo nesta manhã, mais cedo do que de costume. Talvez seja o calor. Ou talvez seja a inquietação que essa menina anda causando em mim sem perceber. Ou… talvez eu esteja começando a gostar de acordar e encontrar a casa em ordem, como se alguém tivesse passado horas ali, caprichando em cada detalhe só pra me agradar. E é isso o que ela faz. Todos os dias. Levanto e caminho pela casa em silêncio, observando tudo. O cheiro do café já se espalha no ar, fresco, recém-passado. O chão está limpo, os móveis brilhando. Chego na cozinha a procurando e vejo as roupas estendidas do lado de fora. Meus jeans encardidos de barro, de ontem, estão pendurados no varal, parecendo novos. Quase pergunto que bruxaria ela fez pra deixar daquele jeito. Mas não é bruxaria. É ela. Angel. Eu ando mais uma vez pela casa, a encontrando na sala de jantar me pergunto como eu não a vi antes, me recosto no batente de da porta e a observa, concentrada no que faz, está de costas, ajeitando a mesa do café. O vestido simples, o cabelo preso daquele jeito bagunçado que dá vontade de soltar e ver cair nas costas dela, fica mais bonito assim, o pescoço fino exposto, vulnerável… Me dá vontade de chegar por trás e passar a mão. Mas não faço. Ela percebe minha presença e se vira. Tem aquele sorriso pequeno de sempre. Respeitoso demais… até pra mim que só penso coisa errada perto dela. — Bom dia, padrinho — ela fala baixo, puxando a cadeira pra mim, esse termo fica até indecente em seus lábios. — Bom dia — respondo, sentando. Ela se aproxima com a caneca de café cheia. Quando me entrega, seguro a mão dela sem pensar. É só pra pegar a xícara. Ou é o que minha cabeça tenta me convencer. Meus dedos tocam os dela e vejo… o esmalte descascado, só uns restos de cor nas unhas curtas. — O que aconteceu com isso? — pergunto, girando a mão dela devagar, olhando demais. Ela abaixa a cabeça, corando na hora. — Me desculpa, padrinho. É que… sai quando eu esfrego as coisas. Não tem como evitar… Suspiro fundo. Não gosto de vê-la se desculpando por tudo, como se tivesse culpa até de respirar. Mas entendo. Foi ensinada a ser assim. — Depois a gente compra aquele trem que as mulheres usam pra tirar isso — digo, largando a mão dela com cuidado. — Não precisa, padrinho. Dá trabalho… e não tem importância. Eu tiro com sabão, quando tiver tempo, raspo. Ela ajeita a saia e dá um passo pra trás, como se precisasse se recompor. Já espero pela recusa, porque ela sempre recusa tudo. Mas hoje… hoje meu limite é mais curto. — Senta aí e toma café comigo, Angel. — sou direto, sem interpretação para que ela recuse. Ela hesita. Como sempre. — Não, padrinho… o senhor precisa comer, e eu tenho o que fazer… Reviro os olhos, seguro o impulso de bater na mesa. Respiro fundo e falo de novo, com firmeza: — Eu mandei você sentar. Ela congela. Por um segundo, não sei se vai obedecer ou sair correndo. Mas a paciência me foge, e minha voz sai mais pesada, como um trovão naquela sala silenciosa. — Angel. Senta. Agora. Ela se encolhe um pouco, mas obedece. Caminha até a cadeira à minha frente e se senta devagar, como se pedisse desculpas com o corpo inteiro. Aquilo me irrita mais do que deveria. Mas ela só entende ordens. Pego o segundo prato que ela deixa e a sirvo. Coloco pão, passo manteiga, encho a xícara dela de café. Ela só observa, espantada. Talvez nunca ninguém tenha feito isso por ela. Talvez ninguém tenha olhado para ela como alguém. — Come — digo, mais baixo. — E me escuta. Ela segura o pão com as duas mãos, como se fosse frágil demais pra apertar. Morde devagar, ainda me olhando com aqueles olhos grandes. Claros demais, bonitos demais para estar perto de mim. — Preciso dos seus documentos — começo. — carteira de trabalho, identidade. E também precisa abrir uma conta no banco. Ela mastiga devagar. Parece que as palavras que falo são em outra língua. — Conta? Banco? Eu nunca… nunca fiz nada disso, padrinho. — É, imaginei. — Passo a mão pela barba, já crescendo de novo. — Vou chamar meu irmão. Ele vai com você na cidade pra resolver isso, ele vai saber o que fazer. Ela assente, mas não me convence. O medo de sair do sítio quase grita nela. — Tenho que pagar o seu salário, te registrar. — continuo mas ela não entende. — Pela sua função aqui. — Dinheiro? — Sim, assim você compra o que quiser, guarda para fazer algo. Ela arregala os olhos, espantada de verdade. — Mas… padrinho… eu tô aqui pra servir o senhor. Não precisa me pagar, você já gasta comigo em água, comida, me comprou roupa, produtos de beleza, não quero te explorar. — Angel, você trabalha para mim, não sou seu senhor. — É sim, você que manda em mim, e eu te sirvo. — p***a. Dou um sorriso torto. — Serve a mim? Ótimo. E eu tô mandando você aceitar o que eu tô oferecendo. Vai receber, sim. Ela mastiga mais uma mordida do pão. Os olhos marejam. Não sei se é emoção ou medo. Talvez os dois. Mas ela obedece. E é isso que me importa, eu odeio que eu goste dessa obediência dela, odeio por saber que aquelas malditas freiras a tratavam m*l e por isso ela é assim. [...] Depois do café, levanto da mesa e fico alguns segundos observando Angel recolher os pratos. O jeito como ela faz tudo com calma, com cuidado… como se cada ato fosse uma oração. Por algum motivo, aquilo me aperta o peito, eu estou incomodado com algo além de mim. — Angel — chamo, e ela para na hora, erguendo os olhos pra mim. — Sim, padrinho? Cruzo os braços. Não vou ficar explicando muito. Não tem porquê também. — Vai lá no quarto. Coloca um biquíni por baixo da roupa e me encontra aqui fora em dez minutos. Ela pisca algumas vezes, confusa. — Biquíni, padrinho? — É. Biquíni. Aquele que comprei junto com as outras roupas. Você tem um. E rápido, que eu não tenho o dia todo. Ela fica vermelha, mas assente. Não questiona mais. É assim que eu gosto. Enquanto ela desaparece pelo corredor, vou até o varal, recolho meu chapéu e o coloco, pego uma blusa pendurada e coloco sem a fechar, enquanto procuro algo de calçar e coloco apressado eu penso no que estou fazendo da minha vida. Só pode ser o d***o em mim com esses pensamentos, como que posso recusar e me afastar da menina para o bem dela quando a mando colocar um bíquini? Minutos depois, ela aparece de novo. Vestido simples, sandália baixa, o cabelo ainda meio preso. Mas sei que tá com o biquíni por baixo. A ideia me faz morder a parte de dentro da bochecha. — Vamos — falo curto. Ela caminha ao meu lado até o estábulo. Hesitante no começo, mas acostumando ao ritmo dos passos. Quando paramos diante do cavalo, ela se encolhe um pouco. Talvez pelo tamanho dele. Ou talvez porque sabe que não vou deixar ela só observar. Ajeito o arreio do cavalo o equipando com tudo que vamos precisar. Se vou fazer isso, melhor fazer direito. Melhor… não pensar no que tô sentindo. — Esse aqui é o Thor — digo, passando a mão pela crina do animal. — Vai ser ele que vai nos levar hoje, um dos meus melhores. Ela arregala os olhos. — Eu? Montar? Não… eu nunca… — Não perguntei se você sabe — corto. A impaciência é minha. Mas tento me redimir quando vejo a forma como ela abaixa a cabeça, aceitando a bronca como se fosse merecida. — Eu vou ensinar. Dou um passo pra frente, pegando a mão dela com firmeza. Levo até o focinho do cavalo. As pontas dos dedos dela encostam na pele quente do animal e ela o acaricia com uma delicadeza absurda. Como se Thor fosse feito de vidro fino. Ela sorri, pequeno, quase sem querer, mas o sorriso ilumina tudo. Eu sinto isso. Como um clarão no meio do meu peito, me desarmando inteiro sem eu perceber. Engulo em seco e aperto de leve a cintura dela. Não dá pra perder mais tempo com poesia. — Sobe no estribo — digo, e minha voz sai mais baixa agora. Ela hesita, mas obedece. Devagar, puxa o vestido pelas coxas, tentando manter tudo no lugar. Eu me obrigo a olhar pro outro lado. Mas meu corpo reage do mesmo jeito. Sinto a tensão subindo enquanto ela põe o pé no estribo. E quando vejo que ela vai perder o equilíbrio, passo as mãos na cintura fina e seguro firme, guiando ela até a sela. Ela fica lá, sentada, meio dura, como se não soubesse se devia respirar. Chego perto demais montando logo atrás, meu peito encosta nas costas dela e sinto. Sinto a pele quente por baixo do tecido simples. O cheiro doce do sabonete barato que ela usa. O cabelo dela encostando na minha mandíbula. E fico cego por um segundo. — Relaxa — falo rouco, com a boca perto demais do ouvido dela, mais para mim do que para ela.. Guio as mãos pequenas até as rédeas. Os dedos dela são leves, como se não tivessem força pra segurar nada… mas seguram. E eu fecho os olhos rápido, tentando controlar o que não tem controle. Ela mexe o quadril devagar, se ajeitando na sela, e eu sinto. Meu quadril encosta na b***a dela, e a ereção pulsa com força dentro da calça jeans apertada. Solto um palavrão baixo. — p***a… Ela para. Sei que sentiu. O corpo dela fica rígido, sem saber se foge ou congela. Mas é tarde demais. Aperto mais a cintura dela e rosno: — Não se mexe — aviso, com raiva que não é dela, mas que cai pesada na voz. — Fica quietinha, Angel. Senão vai piorar. Ela obedece. Como sempre. O corpo inteiro tremendo nas minhas mãos. Eu respiro fundo e me afasto um pouco, tentando não ferrar ainda mais as coisas. Mas não adianta muito. — Vamos indo — aviso, pegando as rédeas do cavalo e puxando com ela montada à minha frente. Ela não pergunta pra onde vamos. Nem precisa. Ela só segura onde mandei, como se fosse a única coisa no mundo que soubesse fazer. Seguimos em silêncio. O cavalo avança devagar pelo caminho de terra, depois pelo pasto, até pegar a trilha escondida no meio das árvores. O mato alto fecha o caminho em alguns pontos, mas o Thor sabe pra onde ir. E eu também. A cada passo, sinto Angel relaxar só um pouco. Ou talvez só aceite que tá indo pra algum lugar sem saber qual. Mas comigo. E eu sei o que isso significa. E espero, de verdade, que ela goste da surpresa.
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