Um começo tenso

1181 Palavras
No dia seguinte, desceu do carro em frente aos escritórios centrais da empresa pela primeira vez. O imponente edifício de vidro e aço ergue-se diante de mim, frio e desanimador, exatamente como imaginei que seria meu primeiro dia como CEO. As semanas de tensão na mansão com Alex tornaram o simples fato de respirar o mesmo ar que ele insuportável, mas hoje não tenho escolha. Devo enfrentar uma diretoria cheia de desconhecidos, todos esperando que eu fracasse, assim como sempre fazem as pessoas que olham para os recém-chegados com desconfiança. E Alex estará lá, observando cada movimento, pronto para me repreender por qualquer erro. Antes de entrar, respiro fundo. Os meus saltos ressoam no chão de mármore enquanto atravesso o saguão com passo firme, tentando projetar a segurança que, na verdade, estou muito longe de sentir. A recepcionista me guia até o elevador, e a viagem até o andar superior parece eterna. Quando as portas se abrem, o ar frio do escritório me recebe com um choque de realidade. A sala de reuniões já está cheia. Os olhares se cravam em mim ao entrar, avaliando-me, alguns com interesse, outros com desdém. Alex está no fundo da mesa, revisando papéis, mas levanta os olhos ao notar a minha chegada. Os seus olhos me percorrem brevemente, mas ele não me dirige nenhuma palavra. Ainda estamos presos nessa dança de hostilidade, onde cada interação parece carregada de reprovações não ditas. — Bem-vinda, Sofia. Diz o presidente da junta, um homem mais velho com cabelo grisalho e uma expressão solene. — Estamos aqui para formalizar a sua posição como acionista e CEO, conforme disposto por Fernando no seu testamento. Sei que este é um novo desafio para você, mas estamos aqui para apoiá-la. Sento-me, tentando manter a calma. No entanto, antes que eu pudesse agradecer as palavras, uma voz aguda e sarcástica irrompe na sala. — Apoiá-la? Sério que vamos fingir que essa garota tem alguma ideia do que está fazendo aqui? Clara, a irmã de Fernando, está sentada na cabeceira da mesa, me olhando com um sorriso venenoso. Os seus olhos brilham com malícia, como se estivesse esperando este momento para lançar-se ao ataque. Porque me parece que Fernando deixou o legado da nossa família nas mãos de uma caçadora de fortunas. O silêncio na sala é ensurdecedor. As palavras de Clara atingem como um chicote, mas eu me mantenho firme, embora as minhas mãos tremam levemente sob a mesa. — Não vim aqui para discutir a sua opinião sobre mim, Clara. Respondo, com voz controlada. — Vim porque é meu dever assumir este cargo, como Fernando dispôs. Clara solta uma gargalhada amarga. — Seu dever? Não me faça rir. Todos sabemos por que você está aqui, Sofia. Você se casou com o Alex pelo dinheiro do meu irmão. Isso é tudo. Você nem sequer tem a decência de disfarçar. Aperto os dentes. Não é a primeira vez que ouço essas acusações, mas desta vez dói mais, talvez porque sei que todos naquela sala estão esperando a minha resposta. Alex não disse uma palavra, nem sequer levantou os olhos dos papéis, e isso me queima mais do que as próprias palavras de Clara. — Fernando decidiu que eu estivesse aqui porque confiava em mim, não porque tivesse outra intenção. Respondo com firmeza, embora sinta um nó na garganta. — E quer você goste ou não, estou aqui para fazer o meu trabalho. Clara inclina-se para a frente, apreciando o espetáculo. — Não se engane, querida. Todos aqui sabemos que você não passa de uma oportunista. E duvido muito que você consiga levar esta empresa sem destruí-la. Mas claro, esse é o seu plano, não é? Esgotar todos os recursos e depois desaparecer com o dinheiro da família. A raiva borbulha dentro de mim, mas antes que eu possa responder, uma voz inesperada interrompe a troca. — Já chega, Clara. A sala inteira fica em silêncio ao ouvir as palavras de Alex e eu o olho, surpresa. Não esperava que ele dissesse nada, muito menos que interviesse daquela maneira. Alex levanta a cabeça, os seus olhos escuros fixos na tia, com uma firmeza que não havia demonstrado antes. — Defendendo-a? Clara olha para ele com incredulidade, como se não pudesse acreditar no que acabara de ouvir. — Depois de tudo o que ela fez? Alex inclina-se para a frente, apoiando as mãos na mesa. — Isso não é uma discussão familiar. Estamos aqui para falar de negócios, não para fazer acusações pessoais. Sofía tem o mesmo direito que qualquer pessoa nesta sala de estar aqui. Quer você queira ou não, ela é a CEO desta empresa e, a partir de agora, trabalharemos juntos para tirar isso adiante. O silêncio que se segue é quase doloroso. Clara parece prestes a explodir, mas Alex não lhe dá espaço para responder. Sinto uma estranha mistura de alívio e desconcerto. Alex saiu na minha defesa, algo que eu nunca teria esperado. Mas nos seus olhos ainda resta um traço da frustração e do rancor que nos separou todo esse tempo. Clara lança um olhar furioso para Alex, depois recosta-se na cadeira, cruzando os braços com desdém. — Isso não acabou, Alex. Ela adverte, antes de se virar para mim. — Aproveite enquanto puder. Veremos quanto tempo você dura aqui. O ambiente esfria ainda mais quando Clara sai da sala, deixando uma sensação de tensão suspensa no ar. Os me*mbros da diretoria trocam olhares desconfortáveis, sem saber muito bem como proceder. — Bom. Diz o presidente, aclarando a garganta. — Se não houver mais nada a discutir por hoje, podemos dar por encerrada a reunião. Sofia, Alex, nos vemos amanhã para começar com os trâmites. Pouco a pouco, a sala vai esvaziando. Sigo sentada, ainda assimilando o que acabou de acontecer. Alex não disse mais nada. Ele ficou de pé perto da porta, esperando por mim. Quando os últimos membros da diretoria saem, ele se aproxima de mim. — Não precisava da sua ajuda. Digo, num tom mais defensivo do que pretendia. Alex me olha, seus olhos são indecifráveis. — Não fiz isso por você. Ele responde com frieza. — Fiz isso porque Clara estava fora de lugar. Se você realmente quer estar aqui, vai ter que se acostumar a se defender sozinha. O silêncio que se segue é tenso, mas desta vez diferente. Há algo no olhar de Alex que mudou, algo que não consigo identificar totalmente, mas que me causa uma sensação de inquietação. Sei que este é apenas o começo do que será uma batalha constante entre nós, mas pela primeira vez em muito tempo, há uma faísca de respeito mútuo. — Farei isso. Respondo finalmente, com voz firme. Alex assente levemente, mas não diz mais nada antes de sair da sala, deixando-me sozinha com os meus pensamentos. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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