POV Sofia
Há dias que sinto que cheguei ao fundo do poço e que não tenho forças para me levantar. Quando finalmente consegui assimilar o que aconteceu com o testamento e esse casamento tão irreal. Aquela ideia descabida do Fernando de unir duas pessoas que se detestam. Chegou a ligação. Aquela ligação que despedaçou em pedaços o pouco que restava do meu coração após a morte dele.
Cada dia me sinto mais vazia. Só como, só durmo, perdi peso... e ainda não consigo entender como conseguiram me encontrar. Como souberam onde eu estava? Como conseguiram meu número de telefone? Eles. Minha família. As mesmas pessoas que mais me fizeram m*al neste mundo voltaram por mais. E agora, ao saber que sou uma viúva multimilionária, imagino o que desejam.
São as mesmas pessoas que arruinaram a minha vida, que aos dezoito anos me obrigaram a cometer as baixezas mais atrozes e inimagináveis: desde vender o meu corpo por dinheiro até... fazer o meu filho desaparecer. Aquele dia a minha alma ficou quebrada para sempre. Fui para a cidade e conheci Fernando, mas a dor pela perda do meu filho é uma ferida que nada nem ninguém jamais poderá fechar.
Sinto-me frágil, desprotegida, presa desse passado que volta a atormentar-me. Eles não vão parar até que eu lhes entregue uma soma milionária em troca do silêncio deles. Fernando sabia disso. Ele conhecia a minha história. Com certeza ele mandou me investigar antes de nos casarmos e descobriu tudo: meu nome verdadeiro, minha verdadeira identidade.
Se ele estivesse vivo, me protegeria. Mas Alex... Alex só me odeia. Tenho certeza de que, se soubesse o tipo de mulher sombria e manchada que sou, não moveria um dedo para me ajudar. Ao contrário, ele ficaria do seu lado. Alex não deve saber do meu segredo. Devo recuperar forças e conseguir esse dinheiro para que nunca mais me incomodem.
Passaram-se mais de três meses desde a morte de Fernando e ainda dói como se fosse ontem.
— Sinto a sua falta, meu amor... preciso de você mais do que nunca. Sussurrei entre lágrimas, em frente às suas roseiras.
De repente, passos e uma voz fria interrompem a minha triste confissão:
— Sofia, o advogado voltou e está nos esperando na sala. Diz Alex, com tanta frieza que me gela o sangue. Ele nem se importa ao ver as minhas lágrimas.
— Está bem, Alex, esperem alguns minutos. Já vou com vocês. Respondo, levantando-me. Passo ao seu lado, mas ele me pega pelo braço com um movimento brusco e me força a olhar para ele.
— O que está acontecendo com você? Ele pergunta, sem desviar os olhos dos meus. — Você nunca vai parar de chorar? Você sente tanta falta do meu pai? Já tem o dinheiro dele. Gaste-o no que quiser, mas pare de vagar pela casa como um fantasma. Não suporto te ver assim.
— Alex... vá para o infe*rno. Exclamei com toda a raiva que ferve dentro de mim. Me solto e me tranco no banheiro para lavar o rosto e me recompor antes de ver o advogado.
O meu coração bate descontroladamente. Milhares de pensamentos me atormentam, tentando adivinhar quais novas disposições Fernando terá deixado.
Minutos depois, desço as escadas. O advogado nos espera na sala e nos observa com uma mistura de surpresa e desconforto. Ele custa a acreditar que, apesar das brigas constantes, este casamento ainda esteja de pé.
Ele nos leva ao salão principal, palco de incontáveis batalhas verbais entre Alex e eu. Ele serve-se um uísque sem sequer olhar para mim, enquanto eu me sento em frente ao magistrado.
— Senhorita Sofia, senhor Alex. Ele saúda com formalidade. — Conforme disposto pelo senhor Fernando, hoje devo ler para vocês uma nova parte do testamento que permaneceu lacrada.
Alex permanece rígido, com a mandíbula cerrada e o olhar fixo no advogado, desejando terminar o mais rápido possível.
O homem abre um envelope lacrado e começa a ler:
— "Aos meus queridos Alex e Sofia: se vocês estão ouvindo estas palavras, significa que superaram os primeiros meses do casamento. Sei que não tem sido fácil, mas confio que estão encontrando o caminho... ou que o farão em breve. Como parte do meu legado, é meu desejo que ambos assumam a responsabilidade total das empresas familiares. A partir de hoje, vocês deverão trabalhar juntos na gestão diária dos negócios, comparecer aos escritórios todos os dias e compartilhar as decisões importantes. Só assim poderão ter acesso ao restante dos bens que lhes deixei. Sem exceções.''
Falta-me o ar por um instante. Trabalhar com o Alex? Todos os dias? Só podemos nos suportar sob o mesmo teto, e agora Fernando pretende que colaboremos na direção das empresas.
Alex aperta os punhos, os seus nós dos dedos brancos de fúria.
— Isso é uma piada, não é? A sua voz baixa treme de raiva contida. Fernando deve estar rindo de onde estiver. Eu sabia que isso seria um desastre.
— Asseguro-lhe que não é. Replica o advogado. — Tudo foi cuidadosamente disposto. Ele tinha um plano, embora eu não saiba qual era seu objetivo final.
Sinto incredulidade, frustração, raiva. Fernando nos deixou a prova mais cru*el: unir-nos no único terreno onde o choque será inevitável: A empresa.
— Isso é absurdo. Murmuro, cruzando os braços. — Não consigo ficar num escritório com o Alex sem que acabemos gritando.
O advogado permanece impassível.
— Entendo o quão difícil isso é, mas vocês não têm outra opção se desejam cumprir o testamento.
Alex levanta-se bruscamente, lançando um olhar de desprezo primeiro ao advogado e depois a mim, culpando-me por tudo, como sempre.
— Não vou perder mais tempo com isso. Ele cospe, antes de sair da sala com a porta batendo com força.
O estrondo retumba nos meus ouvidos. Sinto um nó na garganta. Sei que o que vem será um verdadeiro infe*rno... e não sei como vou sobreviver a isso.