POV Alex
Ainda não consigo acreditar que meu pai tenha feito algo tão absurdo. Tudo isso parece uma loucura com a única intenção de não deixar sua querida esposa sem dinheiro. Sempre soube que existiam mulheres interesseiras e inescrupulosas, mas jamais imaginei que Sofia Gutiérrez pudesse ser desse tipo. Conheci-a há dois anos, na mesma noite que meu pai, num evento do grupo Montenegro. Naquele momento, ela não era mais do que uma garçonete servindo mesas, mas sua beleza deixou mais de um deslumbrado. Havia mulheres incrivelmente belas, vestidas de grife, e mesmo assim Sofia atraiu todos os olhares. Não só por seu rosto bonito, mas por seus olhos verdes, por seu corpo e pela maneira de andar e tratar os presentes, com uma doçura e amabilidade que já não se vê. Mas ninguém teria acreditado que tudo era uma fachada: uma fachada para esconder a verdadeira Sofia Gutiérrez, aquela mulher materialista que não se importou em se deitar com um homem de sessenta anos para, agora, lutar por herdar o dinheiro dele... mas eu não vou permitir. Juro, por Deus, como me chamo Alexander Montenegro, que ela vai sair daqui. Antes que o prazo de um ano se complete, Sofia irá embora sem um tostão, para a rua de onde nunca deveria ter saído. Eu juro.
Exalo e tomo um gole de vinho de uma vez, sentado na cadeira de couro do meu pai, no próprio escritório dele. Deixo a taça sobre a mesa, levanto-me e aproximo-me da janela para ver os roseirais que ele cultivava com devoção. Até há poucos minutos, a sua abnegada esposa estava cuidando deles. Agora ela não está mais. Com certeza ela tinha coisas mais importantes para fazer do que continuar fingindo o que não é.
De repente, a porta se abre e eu a vejo: em pé, cruzando o limiar. M*aldita mulher. Por que sinto esses sentimentos tão ambíguos por ela que me confundem? Eu a odeio, nunca poderia n*egar isso, mas só de vê-la... todo o meu corpo reage. A sua beleza é imaculada e natural. Numa sociedade onde a maioria das mulheres — pelo menos no nosso círculo — já fez várias cirurgias estéticas, eu juraria que ela não fez nenhuma: o seu rosto perfeito não precisa delas.
Assim que descobre a minha presença, ela fica paralisada e os seus olhos, grandes e verdes, cravam-se em mim com força. Há surpresa, e algo que eu não esperava ver. Seguramente está fingindo, digo para mim, e não vou dar-lhe o prazer da compaixão. Ela não merece. Mas aqueles olhos, cheios de lágrimas, despertam em mim um impulso de proteção que eu não pensei sentir por ela... e devo sufocá-lo, como sempre fiz com os sentimentos que nasceram em mim por ela ao longo desses dois anos. É muito fácil: basta imaginá-la fazendo amor com meu pai, nua na sua cama, para que qualquer vislumbre de amor, proteção ou bondade que pudesse nascer dentro de mim morra no instante. O mesmo que acabou de acontecer.
Sofía entra completamente na sala. Num movimento rápido, passa as mãos pelos olhos para enxugar as lágrimas e, sem dizer palavra, dirige-se à biblioteca do meu pai. Começa a procurar um livro. revê prateleiras, volta, insiste e não o encontra. Então dirijo o olhar para a escrivaninha e, sobre ela, está um dos primeiros exemplares de Romeu e Julieta de William Shakespeare, o livro favorito do meu pai.
— É isso que você está procurando? Pergunto finalmente.
Sofía volta o olhar para mim e depois para o livro que levanto com a mão. Vejo-a se aproximar, confirmando as minhas suspeitas.
— Você poderia me emprestar, por favor?
Implorando? Sofia está me implorando? Hoje voltei para casa depois de uma semana de viagens de negócios, e jamais teria imaginado encontrá-la tão abatida, com alguns quilos a menos. De perto, noto as suas olheiras e os olhos vermelhos, provavelmente de tanto chorar. Evidentemente, ela não está fingindo... ou disfarça muito bem.
— O que está acontecendo com você? Pergunto, um pouco frio. Não quero parecer preocupado.
— O que acontecer comigo não te importa. Empresta-me o livro, por favor.
— Não farei isso até você me dizer por que está nesse estado...
— Por acaso te importa o que acontece comigo? Ela pergunta, olhando-me nos olhos. Deus, essa mulher me confunde mais do que deveria.
— Você não me importa nem um pouco. Respondo. — Só estou tentando ser cordial. Você é minha esposa, e se te virem assim, podem pensar que é minha culpa.
— Não se preocupe, Alex. Sei muito bem como esconder os meus sentimentos. Nos nossos eventos, sempre terei um sorriso feliz para mostrar que você é o melhor marido. Por favor, entregue-me o livro do seu pai.
— Venha buscar se quiser.
Vejo-a hesitar por alguns segundos, mas no final ela contorna a mesa que nos separa e se aproxima de mim para tentar tirar o livro das minhas mãos. Não vou tornar isso tão fácil para ela.
— O que está acontecendo? Você parece uma criança. Devolva-me o livro. Não estou para brincadeiras, Alex.
— Sofia... se está sobre esta mesa é porque estou lendo. Quando terminar, você poderá levá-lo. Minto. O livro estava ali. Com certeza ela vem ler todos os dias.
— Não minta. O livro está na mesa porque eu estou lendo ele. Por favor.
Sou mais alto, muito mais alto que ela, então pego o exemplar e o levanto o máximo que posso, forçando-a a se esticar para alcançá-lo. Ela se tensa e insiste.
— Você está bêbado, não é? Devo reconhecer que tomei vários drinques e estou um pouco embriagado, mas não o suficiente. — Só assim você se comporta como uma criança.
— E você, o que sabe sobre como eu me comporto quando estou bêbado? Pergunto, olhando-a diretamente nos olhos. Acho que é a primeira vez que me vê nesse estado... ou talvez não. Não consigo me lembrar.
— Dê-me o livro, Alex. Não vou repetir isso de novo.
— Você acha que eu tenho medo de uma mulher como você? A uma que usa a arte da sedução para manipular os homens. Não sei se é o álcool nas minhas veias ou o desejo que esta m*aldita mulher me provoca que me faz dizer e fazer coisas sem pensar nas consequências.
— Você ficou completamente louco. Devolva-me.
— Está bem. Eu te devolverei... mas com uma condição.
— O que você quer? Ela pergunta, confusa, mantendo o olhar fixo em mim.
— Faça amor comigo, como fazia com meu pai, e eu devolvo. O que você diz?
O golpe vem imediatamente. A sua mão estala contra a minha bochecha com fúria, deixando os seus dedos marcados e me trazendo de volta à realidade.
— Mas que dia*bos está acontecendo com você, Alex? Ela grita, fora de si.
Obrigado. Eu precisava daquele tapa... — Calma, Sofia; eu jamais poderia me deitar com uma mulher tão desprezível quanto você. Só de imaginar você na cama com um homem de sessenta anos... me dá...
Sem dizer mais nada, jogo o livro no chão e saio do escritório sentindo-me um completo id*iota. Agora Sofia sabe que a desejo, e tenho certeza de que usará os seus encantos para me tirar desta casa, mas juro que não vou facilitar tanto para ela.