Acordei com um peso bom no peito.
Por um segundo, não soube onde estava.
Mas bastou sentir o perfume dos cabelos dela… pra entender tudo.
Bruna.
Deitada sobre mim. Dormindo como quem, pela primeira vez, descansava.
Meu braço adormecido por baixo dela, o calor da pele, o ritmo da respiração...
Era paz.
Um tipo de paz que eu nunca comprei, nunca vesti, nem prendi em algema.
Olhei pro lado e percebi que o celular estava desligado.
Bateria zero.
Talvez por isso o sono tenha sido tão profundo.
Mas a verdade é que o motivo da minha calma estava ali.
Na curva da cintura dela. No cheiro doce dos cabelos.
No jeito como ela murmurava coisas sem sentido no sono, como se sonhasse com outra vida.
Toquei de leve nas costas dela, querendo me mover…
Mas ela me abraçou mais forte.
Eu tava muito lascado mesmo.
Tentei de novo.
Ela se enroscou nos lençóis, resmungou algo parecido com “não agora…”
Sorri. Um sorriso torto, quase incrédulo.
Quem diria que Marcelo Ávila, delegado da civil, estaria preso por um abraço no meio de semana.
Consegui me desvencilhar com cuidado. Fui até o banheiro.
Água no rosto.
Tentei não lembrar que essa paz tinha prazo.
Depois fui até a varanda.
A luz do dia começava a aquecer o concreto da cidade.
E, de repente… ouvi.
Um choramingo. Baixinho.
Virei, ainda com o rosto molhado.
E lá estava ele.
Pequeno. Camiseta do Homem-Aranha. Cabelo bagunçado. Cara de quem tinha acabado de acordar de um sonho importante.
Arthur.
Ele me olhou com os olhos semicerrados e perguntou, com a voz anasalada:
- Você é o moço que dormiu na sala?
Eu travei por um segundo.
Como se tivesse sido flagrado em um crime.
- É… sou eu. - respondi, me agachando até ficar na altura dele.
- Bom dia.
- Você ronca igual meu cachorro.
Não aguentei. Dei uma risada curta, sem jeito.
- É mesmo? Ele também é bravo?
Arthur pensou. Coçou a barriga.
- Ele é mais fofo que bravo. Mas morde chinelo.
- Ah, então temos algo em comum. - falei, estendendo a mão como se fosse um aperto oficial.
- Marcelo.
Ele hesitou, mas apertou. Mão pequena, quente.
- Arthur. - respondeu, cheio de orgulho.
- Você vai ficar aqui agora?
A pergunta me atravessou.
Engoli em seco, tentando fingir que não era um tiro.
- Não sei, campeão. Acho que foi só uma visita.
Ele franziu a testa.
- Mas se você souber fazer mingau, pode ficar.
Sorri. Levei a mão ao peito.
- Aí você me pegou. Eu sou bom em investigar bandidos, mas mingau… acho que preciso de aula.
Arthur sorriu de canto, sentou no sofá, puxou uma almofada e disse:
- Minha mãe diz que ninguém é bom em tudo. Só ela.
E eu acreditei.
Fiquei ali, olhando aquele menino pequeno que falava com mais sabedoria do que muito adulto armado.
E naquele instante, entendi por que Bruna lutava tanto.
Entendi por que ela não podia ser só "a mulher de alguém".
Ela era mãe de tudo.
E aquele pequeno me chamando de "moço do sofá"...
Talvez tivesse sido o começo de alguma coisa que nem eu sabia dar nome.
A cozinha era simples, pequena. Geladeira vazia, uma pia com louça do dia anterior, cheiro de sabão e café.
Arthur puxava uma cadeira arrastando, com um barulhinho irritante, enquanto me olhava com a testa franzida e os olhos de quem já tinha mais de quatro anos de sabedoria acumulada.
- Você sabe onde fica o toddy?
- Não, mas posso interrogar a geladeira.
Ele riu, aquela risadinha meio nasal, meio safada, que me desmontou por dentro.
Abri a geladeira. Nada muito animador: um pouco de leite, um pão murcho, e uma garrafa com algo que eu esperava que fosse suco.
- Sua mãe deixa você comer o que quiser de manhã?
- Ela fala que a gente come o que tem. E agradece.
Respirei fundo.
Ali, naquele menininho, tinha tanta força quanto na mãe.
Preparei o leite, mesmo sem muita prática, e peguei dois pães. Coloquei pra esquentar na frigideira, tentando parecer que sabia o que estava fazendo.
Arthur se sentou à mesa, com os cotovelos apoiados, me observando como quem assiste um desenho novo.
- Você vai voltar mais vezes?
Antes que eu pudesse responder, ouvi o barulho leve de pés descalços no chão.
Virei. E lá estava ela.
Bruna, parada na porta da cozinha.
Cabelo bagunçado, vestida com camiseta caída num ombro.
Olhos marejados.
E eu soube… sem que ela dissesse uma palavra, eu soube.
Ela estava vendo a cena.
Vendo a mim e Arthur.
E talvez, por um segundo, desejando que aquilo fosse normal.
Mas os olhos…
Eles diziam outra coisa.
Medo.
Ela respirou fundo, e saiu. Então fui atrás.
- Você não precisa fazer isso.
- Isso o quê? - perguntei, mesmo sabendo a resposta.
- Ficar aqui. Fazer café. Ser gentil com ele… Não é sua obrigação.
Me aproximei mais.
Ela abaixou o olhar.
Como se pedisse desculpa por estar sentindo.
- Bruna… - toquei de leve no rosto dela.
- A partir de agora… tudo que for sobre você, é sobre mim também.
Ela piscou, as lágrimas transbordaram sem esforço.
- E Arthur? - ela perguntou, a voz falha.
- Ele também é meu. - respondi, sem hesitar.
Ela desabou.
Se jogou no meu peito, abafou o choro ali para que o moleque não ouvisse.
E eu a segurei como quem segura o mundo nos braços.
Porque era isso que ela era:
O meu mundo, com o dela junto.
Ficamos ali, por segundos longos.
Silêncio, respiração, emoção pura.
E então…
- A gente pode brincar de polícia e ladrão agora? - Arthur perguntou, com o tom mais sério do mundo.
Eu e Bruna nos afastamos ligeiramente, rindo, limpando o rosto.
- Só se eu for o policial. - respondi, ainda tentando retomar o ar.
Ele cruzou os braços, emburrado.
- Ah não... Eu quero que você seja o ladrão! Mas um ladrão bonzinho… que só rouba pão.
Bruna caiu na gargalhada.
E eu…
eu me rendi.
- Tá bom, campeão… hoje eu sou o ladrão do pão.
E naquele instante, foi a primeira vez que me permiti imaginar um lar.
Com cheiro de toddy, risada de criança e o coração… finalmente em paz.
Estava tudo calmo demais.
Café feito, risadas espalhadas pela sala, e eu, me pegando sorrindo com as palhaçadas do moleque.
Arthur tinha se enfiado debaixo da mesa e gritado que eu tava “preso por roubo de pão” e eu aceitei minha pena, algemado pelo riso de um menino de quatro anos e os olhos marejados da mãe dele, que me olhava como se não soubesse se ria… ou se fugia de mim.
E pela primeira vez em anos, eu quis viver aquele instante como se fosse eterno.
Meu celular já tinha tomado carga e apitou com vida.
Peguei sem pressa, ainda com um leve sorriso no rosto.
Até ver o nome: Rafael.
- Fala. - atendi, com a voz mais grave do que eu pretendia.
- Tá com tempo pra voltar pro inferno, Doutor Pitbull? - ele falou, do outro lado, rindo sem humor.
- Que foi, Rafael?
- Canário. O desgraçado pediu pra falar com você. Disse que só abre o bico se for com o ‘doutor dos olhos frios’. Palavras dele.
Meu estômago virou.
- Ele mandou isso?
- Mandou direto. Disse que só vai falar se você estiver lá. Que quer olhar na sua cara.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
O mundo real tinha voltado.
Pesado. c***l.
E com nome.
Canário.
Rafael esperou. Sabia que eu ia pensar duas vezes antes de responder.
- Quando?
- Hoje. Transferência dele vai atrasar por 24 horas. Quer aproveitar esse tempo antes de cair num buraco mais fundo.
- Você vai estar lá?
-;Claro. Mas a condição é clara: só abre a boca se o Pitbull estiver presente.
Passei a mão no rosto, os olhos caindo de novo em Bruna, no canto da sala, rindo baixinho com Arthur que agora colocava uma toalha como capa de super-herói.
Essa paz não me pertencia. Não ainda.
- Me manda a hora. Eu passo na delegacia antes.
- Entendido. Ah... e Marcelo… - a voz de Rafael mudou, ficou mais baixa.
- Toma cuidado. Ele sabe mais do que deveria.
-:Todos sabem. - respondi, antes de desligar.
O celular tremeu na mão.
O peso da realidade escorria de novo pela pele.
Canário me chamando.
Bruna na sala.
O filho dele, o filho dele, me chamando de ladrão bonzinho.
E eu no meio.
Sempre no meio.