CAPÍTULO 27

1314 Palavras
Com a mudança de apartamento, confesso que me sentia mais seguro em deixar a Bruna e o Arthur sozinhos. Era curioso… Eu, um delegado da Civil acostumado a correr atrás de bandido, agora era o homem que se preocupava se o lanche do moleque tinha o suquinho certo. Engraçado não. Patético. Ou melhor... eu era dois em um. Metade sedento por sangue, pronto pra explodir o mundo com um fuzil. A outra metade? Um cachorro de madame, abanando o r**o quando ela me dava aquele sorriso bobo no fim do dia. Cheguei na delegacia e o clima era o mesmo de sempre: pesado. Mas silencioso demais. E silêncio demais em ambiente policial é igual cheiro de gás: alguém vai riscar o fósforo. Entro na minha sala, jogo as pastas na mesa e m*l encosto a b***a na cadeira, Rafael entra rindo, com aquele andar moleque dele. - Fala, Pitbull… Ou será que agora é Papai Marcelo? Levanto a sobrancelha e jogo um clipe de papel nele. - Fala mais uma dessa que eu te coloco pra lavar a viatura na mão. - Ô, chefe… fiquei sabendo que o almoço na casa da dona Lúcia ontem foi coisa de novela. Tinha até arroz com uva-passa. Dou risada, apesar do clima. - Foi bom. Arthur adorou. E se você não parar de encher o saco, boto ele pra te ensinar a correr atrás de bandido. Rafael se joga na poltrona de frente pra minha mesa, ainda rindo. Mas logo a expressão dele muda. - Mas e aí… Sobre Canário. O clima tá estranho. Ele tá tramando alguma coisa. E se ele quiser jogar sujo… pode sobrar pra ela, você sabe. Fico em silêncio por um instante. Saber, eu sabia. O problema era suportar. - Canário não respira sem um motivo. Se tá quieto… é porque tá mirando. E como num filme m*l escrito, Arnaldo aparece na porta naquele exato segundo. - Ávila. Sala 1. Agora. Rafael só faz um gesto com as mãos tipo "boa sorte, pai de família." Entro e fecho a porta. Arnaldo não perde tempo. - Senta. Obedeço. - Vamos chamar a Bruna pra depoimento. Já conversamos com a promotoria. Ela conviveu com o Canário, tem informações úteis. - Você quer transformar a minha mulher numa testemunha da promotoria? Ele me olha firme. -:Não é pessoal. É protocolo. Ela não tem passagem, não tem envolvimento direto. Mas conviveu. Se a gente quiser manter ela protegida… precisa estar dentro da investigação. Oficialmente. Fico quieto. A mandíbula trava. O sangue ferve de leve. Arnaldo se aproxima e baixa o tom. - Eu perguntei uma vez, Marcelo… e vou perguntar de novo: Você vai mesmo perder sua carreira, seu cargo, sua paz… por essa mulher? Levanto devagar. Encosto as mãos na mesa. Olho nos olhos dele com aquela firmeza que só o amor me trouxe e o caos também. - Arnaldo… ela é a única coisa que me mantém humano. Se for pra perder tudo… que seja por ela. Arnaldo balança a cabeça com um suspiro pesado. - Você é teimoso. Igual seu pai era. Mas eu vou proteger vocês, como prometi. Só esteja preparado… porque o circo vai pegar fogo. Assinto. - Pode chamar ela. Mas se alguém encostar nela com a intenção errada… eu queimo esse sistema inteiro. Depois da conversa com Arnaldo, respirei fundo. Sabia que precisava preparar a Bruna. Prestar depoimento nunca foi fácil. Nem pra quem era inocente. Era nervoso, pressão, tensão no ar… E era exatamente assim que a gente costumava pegar os bandidos na mentira. Mas Bruna não era bandida. Só tinha vivido tempo demais cercada deles. Arnaldo estaria junto comigo quando a orientássemos. Nada sairia dos trilhos. Não com ela. Eu não deixaria. Já passava das 22h quando decidi ligar. O plantão estava mais calmo do que o normal e quem me substituia na delegacia, como sempre, atrasado. Então, sim, eu sairia mais tarde… Mas precisava ouvir a voz dela antes. Toquei uma vez. Só uma. E ela atendeu. - Alô? - a voz veio baixa… calma… quente como o cobertor dela à noite. Sorri sozinho. - Oi, princesa… te acordei? - Não… eu tava deitada, mas ainda acordada. Arthur dormiu cedo, tava todo manhoso hoje. Tá tudo bem aí? Fechei os olhos por um segundo. Aquela voz me desacelerava. Como se o mundo lá fora perdesse a importância e eu lembrasse que ainda existia ar pra respirar. - Tá sim. Tô finalizando umas coisas aqui. Mas queria saber se tá tudo tranquilo aí… se você tá bem. - Tô. Fizemos um lanchinho mais cedo, vi desenho com o Arthur, e depois ele capotou. Tô com saudade. Soltei o ar, encostando na cadeira giratória da sala. - Eu também, Bruna… e mais do que devia. Houve silêncio. Daquele bom. Silêncio de quem sente do outro lado. - Você vem hoje? - ela perguntou com aquele fiapo de esperança que me rasga. - Quero. Mas talvez um pouco mais tarde. Se eu chegar e você estiver dormindo… já sabe: vou tirar essa coberta e roubar meu lado da cama. Ela riu baixinho. - Marcelo… - Fala. - Quando você me olha… parece que eu sou alguma coisa importante. Fechei os olhos de novo. - É porque você é. E é por isso que amanhã eu preciso conversar contigo. Tem um assunto sério. Mas por hoje… só queria ouvir tua voz. - Então escuta… Silêncio de novo. E no fundo, ouvi um suspiro. - Tô aqui. Te esperando. Sorri. - Logo chego. Te amo. - Te amo, Delegado Ávila. Desliguei. E ali, naquela sala de concreto frio e paredes cheias de história… era a voz dela que me lembrava quem eu era fora da guerra. Anotei alguns pontos importantes para o depoimento da Bruna. Nada que fosse comprometedor… mas eu queria que ela estivesse preparada. Eu sabia que Arnaldo iria pegar leve, mas ainda assim, era um ambiente tenso. Estava focado, até que o rádio começou a chiar, telefone tocando, policiais entrando e saindo… A delegacia voltou a respirar. Ou melhor: voltou a ferver. Aproveitei o vai-e-vem pra sair. Já era madrugada, e tudo que eu queria era chegar em casa, tomar um banho e sentir o cheiro do travesseiro onde ela dorme. Cheguei em silêncio. Cauteloso. Arthur, certamente, estava dormindo. E eu não queria acordar ninguém. Fechei a porta devagar. Tirei o colete e coloquei minha arma na mesinha de apoio. Foi quando ouvi passos correndo pelo corredor. Antes que eu pudesse virar, Bruna se jogou no meu colo. Literalmente. Me agarrou com as pernas na minha cintura, os braços no pescoço, e começou a me encher de beijos pelo rosto inteiro, rindo e murmurando coisas que eu nem entendi. Cäralho, calma, Bruna! - tentei rir entre um beijo e outro, ofegando. - Achei que dormiria essa madrugada sozinha! Eu quase surtei, quase fui até a delegacia! - disse, beijando minha testa, minha bochecha, meu queixo. - Assim vai me matar, mulher… - falei com a voz meio abafada, tentando equilibrar ela e minha dignidade. Ela parou os beijos e me encarou de pertinho, com os olhos brilhando. - Se não quiser… não dou mais beijinho. - e fez bico. Bico mesmo. A mulher que vira um furacão na cama, agora com um biquinho de criança emburrada. - Não, não. Pode continuar. Talvez seja o único tratamento que vai me manter vivo. Ela riu alto, enfiando o rosto no meu pescoço. - Você tá fedendo, mas eu te amo. - Obrigado pela sinceridade, meu amor. Que sorte a minha. - Vai pro banho. Mas se demorar, vou junto. - Acho melhor eu correr. Ela desceu do meu colo com um selinho e saiu correndo antes que eu reagisse. E ali, parado no meio da sala, com a farda amassada e o coração cheio… eu soube: O mundo podia estar um caos lá fora. Mas ali… ela era minha paz.
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