A comida de Dona Lúcia parecia ter sido feita com memória afetiva.
O cheiro me abraçava.
E ver o Arthur tão feliz, entre gargalhadas e colheradas, me deixava com o coração leve coisa rara.
Depois do almoço, Ayla e Marcelo brincavam com Arthur.
O som do riso dos três juntos ecoava como uma canção boa de ouvir.
Ficamos só eu e ela na cozinha, lavando os pratos.
Dona Lúcia me entregava os talheres molhados com calma, como se soubesse que aquele era o momento certo de conversar.
- Ele nunca foi de ficar quieto, sabe? Desde pequeno, o Marcelo dava trabalho. Sempre sério, cheio de ideia, mas um bom menino.
Eu sorri.
- Dá pra perceber.
Ele tem um jeito meio ranzinza… mas é doce.
Por dentro.
Ela me olhou de lado com um sorrisinho orgulhoso.
- Você reparou rápido.
Enxuguei um copo, tentando soar casual.
- Imagino que a senhora já esteja acostumada com as namoradas dele, né?
Pelo jeito que ele é, lindo…
deve ter tido muitas.
Dona Lúcia parou.
Encostou as mãos na pia, enxugou uma gotinha de água com a ponta do avental e me encarou com aquele olhar de quem sabe muito mais do que diz.
- Marcelo nunca foi homem de muitas mulheres, Bruna.
- Não? - soltei, surpresa.
Nunca trouxe ninguém aqui.
Você é a primeira.
Fiquei parada.
Meus dedos ainda segurando a pontinha do pano de prato.
Meu peito acelerou um pouco.
Ela continuou:
- Ele sempre foi obcecado pela carreira. Delegacia, casos, prazos, investigações...
Dedicou tudo a isso.
Até o coração.
Até o sono.
Até a juventude.
- E… por que agora? - perguntei quase num sussurro.
Ela sorriu.
- Porque agora ele te encontrou.
Engoli em seco.
Aquele homem grande, bruto, que dormia de arma ao lado da cama e falava mais com os olhos do que com a boca…
era, na verdade, o filho mais precioso de uma mãe que conhecia todas as suas versões.
- Só te peço uma coisa, minha filha… - disse ela, pegando mais um copo da pia.
- Claro…
- Não magoa o coração dele.
Fiquei sem resposta.
Assenti com um aperto na garganta.
Nesse instante, ouvimos uma gargalhada vinda do quintal.
Arthur corria atrás do Marcelo com uma espadinha de brinquedo, Ayla filmando tudo com o celular e rindo alto.
O mundo parecia certo por um segundo.
Simples.
Bom.
Como devia ser.
Terminei de guardar os pratos com aquele sorriso escondido.
Meu peito transbordava algo que eu ainda não sabia dar nome.
Mas eu sabia o que queria.
Eu queria aquilo.
Todos os dias.
Queria aquele lar.
Aquela paz.
E aquele homem do jeito mais inteiro possível.
O almoço correu tão bem que por um momento eu até esqueci que a vida já tinha me doído tanto.
Arthur falava sem parar no banco de trás.
Sobre o pudim da Dona Lúcia, sobre o cofre de moedas que ela tinha mostrado, e como ela prometeu guardar figurinhas pra ele colar da próxima vez.
- Ela é tão cheirosa, né mãe? Igual flor de bolo!
Eu ri, emocionada.
O coração aquecido de ver meu filho com o olhar brilhando.
Marcelo mantinha uma das mãos no volante e a outra, de vez em quando, pousava na minha coxa com um carinho simples, mas cheio de significado.
Aquele toque que dizia:
'Você tá aqui. E é aqui que eu te quero.'
Chegamos no apartamento, e tudo parecia em paz.
Só que eu percebi…
Entre uma brincadeira e outra com Arthur, Marcelo recebia mensagens no celular.
Às vezes saía de perto pra atender.
Tentava manter o tom calmo, mas eu conhecia aquele jeito.
Marcelo estava com o sangue fervendo por dentro.
Sabia que logo mais ele teria que ir pra delegacia.
E como sempre… meu coração ia junto.
Já era quase fim de tarde quando ele surgiu na sala, vestindo aquele colete pesado que tanto me deixava nervosa.
A arma na cintura, o distintivo firme no peito.
Arthur dormia no sofá, exausto de tanto brincar.
Marcelo veio até mim, me puxou pela cintura e me encarou com aquele olhar fundo.
- O almoço foi föda, viu? - ele falou com um sorriso torto no canto da boca.
Ver vocês lá… com a minha mãe.
Você não tem ideia do que isso significou pra mim, Bruna.
- Fico feliz que tenha gostado… - respondi, tentando disfarçar o aperto no peito.
- Agora preciso ir.
Mas volto logo.
Acariciei sua barba cerrada, e ele fechou os olhos um segundo, como se sentisse alívio no toque.
- Você vai bem? - perguntei, baixinho.
Ele assentiu.
Depois, me puxou pra perto, colando a boca no meu ouvido.
- Me espera…
do jeito que eu gosto... - o tom era rouco, quente, cheio de promessa.
Senti um arrepio da nuca até a alma.
Antes de sair, ele me beijou.
Com força.
Com intensidade.
Com gosto de saudade antes mesmo de ir.
- Tranca a porta.
E não esquece que agora… tudo que te diz respeito, me diz respeito também.
Assenti, sem conseguir responder.
Ele olhou mais uma vez pro Arthur, sorriu e saiu.
Fechei a porta devagar, e fiquei ali.
Encostada na madeira, com o coração martelando dentro do peito.
Suspirei fundo.
Volta logo, Marcelo…
porque esperar você
nunca mais vai ser só físico.
Agora é com a alma também.
A porta se fechou atrás dele…
e eu travei ali.
Não sei explicar, mas toda vez que Marcelo sai com aquele colete no peito e o semblante fechado, alguma coisa em mim esfria.
É como se um vento gelado soprasse direto do meu estômago até o peito.
Um silêncio grita dentro da gente quando a gente ama alguém que vive o risco.
Sentei no sofá e fiquei olhando o Arthur dormindo.
A boquinha entreaberta, as mãozinhas pequenas agarradas num travesseiro.
A paz dele me dava força…
Mas hoje, não sei por quê, essa força parecia escorregar por entre os dedos.
A televisão ligada no volume baixo.
A casa limpa.
A janela entreaberta.
Tudo tão comum.
Mas dentro de mim… nada estava normal.
Eu odiava esperar.
Porque esperar quem a gente ama, com medo do que o mundo lá fora pode fazer com ele… é uma tortura silenciosa.
Deitei no sofá, olhei pro teto.
Fechei os olhos.
Mas bastava isso pra vir a lembrança dele me dizendo:
“Me espera… do jeito que eu gosto.”
Sorri fraco, mas logo veio aquele peso.
Como se algo estivesse prestes a acontecer.
Como se um vento r**m tivesse passado rente ao corpo, sussurrando: "fica atenta".
Me levantei devagar, fui até a janela e olhei pro céu.
Já escuro.
Marcelo não tinha dado sinal.
No mínimo as coisas devem estar pesadas na delegacia.
Era só intuição?
Ou meu coração, mais uma vez, estava tentando me avisar antes da dor chegar?
Voltei pro quarto e sentei na beira da cama.
Peguei o celular, desbloqueei a tela e abri o w******p.
"Meu Delegado 💙"
Nada.
Escrevi um “tá tudo bem?”, mas não enviei.
Apaguei.
Eu não queria ser a mulher que sufoca…
mas também não queria ser a mulher que se cala quando o medo fala mais alto.
Respirei fundo.
Fechei os olhos.
E pensei:
Volta logo.
Por favor.
Porque minha alma não sabe mais ficar sem a tua.