CAPÍTULO 25

1552 Palavras
A proposta de Canário ainda martelava na minha cabeça. “Deixa Bruna livre… e eu entrego tudo.” Palavras que vinham carregadas de veneno. Pensar nele… Tocando nela… Me deixava insano. Minha mente, mesmo dormindo, não soube lidar. O pesadelo veio como um filme maldito. Canário. Com aquele sorriso torto. Com a arma na mão. E Bruna… ajoelhada. Implorando por mim. Por nós. Por Arthur. E ele puxava o gatilho. Na minha frente. Sem que eu pudesse impedir. Sem que eu conseguisse chegar. O sangue. O grito dela. A dor rasgando minha garganta. Acordei num pulo. Suado. Sem fôlego. Com o coração disparado como se tivesse corrido de um inferno. O quarto ainda estava escuro. Ela na minha frente assustada, tentando de alguma forma me tirar do pesadelo. Segurei seu rosto firme. E promessas foram feitas… De sentir que estava viva, ali, comigo, minha alma voltou pro corpo. Eu queria amar aquela mulher até não sobrar mais espaço pra dor nenhuma. E foi isso que fiz. Me entreguei. Tive ela. Toda. De verdade. Foi mais do que sexo. Foi alma. Foi coração batendo junto. Foi abrigo. Adormecemos como quem tinha atravessado uma guerra. E logo o sol entrava pelas frestas da janela, avisando que mais um dia começava… e eu teria que lutar de novo. Ela abriu os olhos primeiro e sorriu. O cabelo bagunçado, o rosto ainda marcado pelo travesseiro. Linda. De um jeito que só ela sabia ser. - Bom dia… - sussurrou, com a voz rouca de sono. Me aproximei, beijei seu ombro. - Bom dia… minha mulher. - falei quase sem pensar, mas era verdade. Ela deu uma risada gostosa. - Sua mulher agora, é? - Sempre foi. - retruquei, colando minha testa na dela. Ficamos ali mais uns segundos, trocando carinho com os olhos, até ela murmurar: - Vamos buscar Arthur hoje, né? Assenti, passando os dedos pelo seu quadril nu, acariciando sem pressa. - Uhum. E eu faço questão de ir junto. Ela ergueu uma sobrancelha. - Vai encarar Dona Lúcia de mãos dadas comigo? Soltei um riso abafado. - Se for por você e por aquele moleque, eu encaro até o capeta. Ela virou de lado, deitou a cabeça no meu peito. - Não sei se tô pronta pra ele ver a gente assim… junto. - Ele é esperto. Vai entender. E se não entender agora… a gente mostra com o tempo. Ficamos em silêncio por alguns segundos. E eu completei: - Mas vou avisando: não vou mais me afastar. Nem de você. Nem dele. Somos um pacote agora. Ela apertou minha cintura e sussurrou: - Então tá. Vamos buscar nosso pequeno. Nosso. Ela disse “nosso”. E aquilo… Aquilo me deu um tipo de força que nem arma carregada me dava. Naquela manhã, eu não precisaria estar cedo na delegacia. E percebi o quanto ela estava inquieta. A forma como passava as mãos pelo cabelo, o olhar constante pro relógio da parede… Ela precisava ver o filho. Tocar. Sentir o cheiro. Dizer que tava tudo bem. E eu entendia. Completamente. - Vamos buscar o Arthur daqui a pouco? - perguntei enquanto ela lavava duas canecas de café. Ela virou o rosto, tentando disfarçar o alívio. - Sério? Achei que fossemos mais tarde… - Não, melhor ir cedo mesmo. E, sinceramente, tô com saudade da minha véia também. Faz tempo que não vejo minha mãe de perto. Ela sorriu, mas ainda vi um vestígio de dúvida no canto da boca. Parei ali, na beira da mesa, tomando um último gole do café que ela tinha feito. E joguei: - Bruna… posso te perguntar uma coisa? - Claro. - ela respondeu de imediato, mas com aquele tom desconfiado de quem já sabe que vem provocação. - O que a gente é, afinal? - perguntei, levantando uma sobrancelha. Tipo… a gente tá junto. Mas a gente é o quê? Namorados? Ficantes? Casal moderno? Rolo fixo? Ela arregalou os olhos e travou com a mão molhada no ar. - Marcelo… - disse meu nome como quem não acredita na audácia. Eu… sei lá! A gente só… aconteceu! - Aconteceu? - provoquei, rindo. Tá bom… então somos uma ocorrência. ‘Delegado se envolve em ocorrência com mulher perigosa e termina apaixonado'. Ela riu, jogando a toalha de prato em mim. - Bobo. Me aproximei, segurei sua cintura e a puxei contra meu peito. - Se quiser colocar um nome pra isso… posso sugerir ‘namorados’ por enquanto. Mas você sabe que isso não vai durar muito. Ela franziu a testa. - Como assim? Apertei mais forte, encostando a boca no seu pescoço. - Porque em pouco tempo… você vai ser minha esposa, Bruna. Ela parou. Senti seu corpo arrepiar. Mas não recuou. Ela só suspirou fundo e deitou a testa no meu ombro. - Você fala essas coisas e eu fico sem saber se é brincadeira ou verdade… - É verdade. Com uma pitada de sarcasmo, claro. Mas é verdade. Ali, no silêncio entre nossos corpos, eu soube. Não importava o que Canário dissesse. Não importava o que viesse pela frente. Aquele era o meu lugar. Com ela. E com o moleque arteiro de sorriso esperto que me chamava de ladrão nas brincadeiras. - Vai se arrumar, mulher. Hoje você almoça com a sogra. - falei, soltando uma gargalhada. Ela riu, balançou a cabeça e seguiu pro quarto. E eu fiquei ali, encostado na porta da cozinha, com um leve sorriso no rosto. Feliz. Mesmo que só por agora. Mesmo com a guerra se aproximando. Eu era feliz. Com ela. O caminho até a casa da minha mãe foi tranquilo… Sem tensão. Sem cobranças. Só aquela paz que vinha quando Bruna estava do meu lado o tipo de calmaria que eu nunca soube que precisava. Bruna olhava pela janela, ansiosa. Eu percebia nos dedos que tamborilavam no banco, no suspiro contido quando a placa da rua da minha mãe surgiu à frente. - Tá nervosa? - perguntei, com um canto de sorriso. Ela mordeu o lábio e assentiu. - E se ele não quiser vir comigo? - Bruna, ele te ama. Acha mesmo que aquele baixinho vai querer dormir longe de você mais uma noite que seja? Ela soltou um riso nervoso. - E sua mãe? Ela… será que ficará feliz com a gente? Parei o carro. Olhei bem pra ela. — *“Minha mãe ficaráfeliz ao saber que estou feliz. E se você for boa com o meu filho… ela vai te amar. Porque vai enxergar que eu tô inteiro em você. Ela não respondeu. Só pegou minha mão. Subimos para o sétimoandar, e antes mesmo que eu tocasse a campainha, a porta se abriu. Dona Lúcia estava ali. A mesma mulher de sempre: olhar firme, expressão doce, e aquele avental florido que usava desde que eu era moleque. - Até que enfim, Marcelo. - disse com os braços cruzados, mas o canto do sorriso a denunciando. - Oi, mãe. Ela olhou por cima do meu ombro, encarou Bruna, e os olhos dela pousaram direto no dela. - Você é a mãe do Arthur, né? Bruna assentiu, um pouco tímida. Dona Lúcia se aproximou e segurou nas mãos dela. - Ele fala de você o tempo todo. E Marcelo também. - e piscou pra mim, sem cerimônia. Bruna sorriu, visivelmente emocionada. Meu coração apertou. Ali estavam as duas mulheres que mais me importavam na vida. E o pequeno estava logo ali dentro. - Arthur! - minha mãe chamou alto. Um segundo depois, passos rápidos pelo apartamento e logo ele apareceu. Ele veio correndo. - "MÃEEEEEEE!” - o grito encheu o ar, e Bruna ajoelhou no mesmo instante, os braços abertos. Ele pulou no colo dela, com força. O abraço que eles deram foi daqueles que a gente sente na alma. Um reencontro de coração com coração. Eu fiquei parado, só observando. Engolindo em seco. Até que Arthur me viu ali, atrás deles, e soltou: - Tio! Você veio! Abri os braços. - Claro que eu vim, campeão. Me abaixei, e ele me abraçou pelo pescoço. Com aqueles mini braços. - Você vai dormir com a gente de novo? Olhei pra Bruna, que sorria boba, e respondi: - Se sua mãe deixar, acho que sim. Arthur gritou um “EBA!” e saiu correndo pra mostrar algo que havia feito com Dona Lúcia. Bruna me olhou e com os olhos brilhando, não hesitou. - Obrigada. - Por quê? - Por isso tudo. Acariciei seu rosto. Ali, naquele dia, naquela varanda cheio de cheiro de comida e risadas de criança, eu percebi que a paz que ela achava que eu dava… era a mesma que ela me trazia sem perceber. Dona Lúcia saiu da cozinha. - Vamos almoçar logo, antes que esfrie. Tem arroz fresquinho, carne de panela e farofinha do jeito que o Arthur gosta. E o Marcelo também, quando para de viver dentro da delegacia. - Essa manhã estou de folga, mãe. Prioridades mudaram. Ela me olhou com um meio sorriso orgulhoso. - É. Eu percebi. E naquele almoço, com aquele menino tagarela ao meu lado, a mulher que virava meu mundo me servindo suco, e minha mãe puxando assunto sobre como eu era quando pequeno… eu entendi. Aquele era o meu lugar. Minha trincheira. Minha casa. Minha guerra, sim… Mas também minha cura.
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