CAPÍTULO 15

1172 Palavras
Eu tava puto. Indignado comigo mesmo. Por ter resistido tanto, por ter lutado contra algo que já era inevitável desde o primeiro momento em que bati o olho nela naquela merda de baile. Mas, ao mesmo tempo... aliviado. Porque agora era real. Agora eu assumiria Bruna. E todos os riscos que viessem junto com ela passado, tatuagem, filho, caos. E o mais estranho disso tudo? Eu me sentia forte com isso. Como se, finalmente, tivesse feito uma escolha por mim mesmo. Por aquilo que me fazia perder o sono e a razão. No carro, fomos em silêncio. Bruna de olhos baixos, com a minha camisa gigante no corpo e o cabelo solto, bagunçado. Linda pra cäralho. Minha. Eu não disse nada. Porque não precisava. Assim que chegamos na portaria do prédio, puxei a mão dela com força e a beijei. Forte. Marcado. Prometido. - Eu volto. Logo. - murmurei contra a boca dela. Ela sorriu leve, como quem finalmente respirava. Voltei pra delegacia com a cabeça a mil, mas o corpo leve. Meus pés nem tocavam o chão. Ou tocavam, mas eu já não me importava com as marcas. Subi as escadas, Rafael já tava parado na porta da minha sala, me esperando com aquela cara de quem sabia exatamente onde eu tinha estado. E aí, sem filtro, sem controle, sem nenhuma tentativa de esconder a merda em que eu tava metido, olhei direto pra ele e gritei: “CARÄLHO, EU TÔ FODIDO MUITO FODIDO!” E comecei a rir. Alto. Livre. Fudido. Mas feliz. Rafael não respondeu de imediato. Só cruzou os braços e esperou eu terminar de rir que nem um i****a apaixonado. Entrei na sala, joguei o corpo na cadeira, os braços abertos, ainda sem fôlego. Ele fechou a porta devagar, se encostou nela com aquele sorrisinho de canto que ele usa quando tá segurando uma zoeira gigante. - Quer começar por onde? Pela camisa que ela tava vestindo? Ou pelos gemidos que o plantão inteiro ouviu? - Ah, vai tomar no cu, Rafael. - resmunguei, rindo e jogando uma caneta nele. Ele pegou a caneta no ar, sentou na cadeira à minha frente e me encarou, agora mais sério. - Tá gostando dela, né? Fiquei em silêncio. Por um instante. Encostei a cabeça no encosto da cadeira, respirei fundo e encarei o teto. - Tô mais do que isso. Tô... rendido. Essa mulher me desmonta, velho. Mas ela é toda errada pro meu mundo. E ainda assim… é como se ela fosse a única coisa certa. - Então, por que o show todo de resistência? - Porque eu sou um filho da putä orgulhoso. E porque ela veio com um pacote inteiro: Canário, favela, filho… e eu achei que não ia dar conta. Rafael coçou a barba e respondeu: - Você já tá dando conta, Marcelo. E sabe por quê? Porque você nunca olhou pra ninguém do jeito que olhou pra ela. E eu tô contigo, irmão. Só não faz merda com o coração da mina. Suspirei. Pesado. Como quem tava soltando 37 anos de casca. - Tô tentando, cara. Só que agora… eu sei que não tem mais volta. - Não tem mesmo. - ele riu. - E a cidade inteira vai saber que o Delegado Ávila caiu... por 1 metro e meio de mulher. Sorri. Porque era exatamente isso. E eu nem queria levantar. Ainda tava sentado, meio derretido na cadeira, quando Rafael me lançou uma última olhada e disse: - Agora aproveita esse seu momento de bicho apaixonado, porque o inferno lá fora não parou de girar. - É. Eu sei. - murmurei, esticando o corpo e ajeitando a postura. Como se bastasse isso pra colocar ordem em mim. Não bastava. Bati duas vezes na mesa, respirei fundo, e joguei o nome "Canário" no ar de novo, como quem chama de volta o demônio. - Novidade sobre o rastro da quadrilha? Rafael ficou sério no mesmo instante. - Recebemos uma denúncia anônima sobre movimentação suspeita perto da antiga casa dele. Parece que ainda tem gente grande mantendo contato com o lado de fora. Pode ser lavagem, pode ser retaliação. Estiquei a mão até o mapa que sempre ficava em cima da minha mesa, aqueles círculos vermelhos marcando as áreas mais quentes do tráfico. - Vamos apertar o cerco. Eu quero nomes. Fotos. Contatos. Essa quadrilha vai cair inteira. Um por um. Minha voz saiu seca, cortante. Eu podia estar apaixonado, perdido no corpo e no cheiro da Bruna… Mas minha função aqui ainda era acabar com esses filhos da p**a. E parte de mim a parte mais sombria sabia que se eu deixasse passar, em algum momento eles voltariam. E eu não ia permitir que ela, nem Arthur, nem ninguém que eu colocasse sob meu braço, fosse ameaçado de novo. Rafael assentiu, pegou a prancheta dele e foi saindo. Antes de fechar a porta, olhou pra mim por cima do ombro e soltou: - No fim das contas, você ama como vive, né? Na linha de tiro. Fiquei olhando a porta fechar. E era isso mesmo. Eu amava como vivia: com intensidade, raiva, entrega e um pé sempre no limite. E agora, aquele limite se chamava Bruna. A porta se fechou e a sala ficou em silêncio. Mas não era paz. Era o tipo de silêncio que grita. Grita o nome dela. Me levantei, andei até a janela, os olhos cravados lá fora, na cidade podre e viva que eu tentava consertar há anos. Mas nada daquilo parecia mais fazer sentido como antes. O cheiro dela ainda tava na minha pele. O gosto do beijo ainda na minha boca. E o peso da promessa - “Eu volto” me empurrando pro inferno e de volta. Passei a mão nos cabelos, já impaciente. Pensando nela. De novo. E se ela tivesse se arrependido? E se agora ela visse quem eu sou de verdade, o Marcelo por trás da farda? Ou pior: E se eu não conseguisse mais manter distância? Porque só de imaginar o corpo dela de novo no meu… Aquela boca, aquele olhar teimoso, os gemidos dela grudando na parede da minha sala… Meu corpo já respondia, quente, tenso. Pronto. Maldição. Fechei os olhos por um instante, e o pensamento veio como um soco: “E quando eu encontrar ela de novo… vou conseguir só olhar? Vou conseguir só falar, sem encostar?” Não. Não vou. Ela virou uma obsessão silenciosa. Uma bomba-relógio dentro de mim. E por mais que eu soubesse o quanto isso era errado, perigoso, destrutivo até… Eu queria mais. Muito mais. Fui interrompido por uma batida na porta. Era Rafael de novo, com expressão séria. - Temos um endereço. Um dos caras ligados ao Canário foi visto saindo de uma casa em Campo Grande. Quer fazer pessoalmente? Respirei fundo. A cabeça fervia com mil pensamentos. Mas assenti com firmeza. - Quero. E quero ele vivo. Rafael assentiu, entendendo que não era só mais um alvo. Era o que eu precisava pra proteger ela. E talvez, no fundo, me proteger também.
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