Eu me sentia… aliviada.
Era essa a palavra.
Depois de tudo, depois da forma como ele me olhou, me tocou, me falou…
Eu acreditava que agora algo tinha se ajeitado.
Embora, sinceramente, o olhar dele ainda não me passasse total segurança.
Havia um peso ali, algo que ele escondia…
Mas talvez tudo isso fosse se consertando com o tempo.
Afinal, será que ele voltaria?
Viemos em silêncio no carro.
Mas ele não largou minha mão.
Segurava como quem diz: “Você fica".
E aquilo… me deu um fio de esperança.
Assim que cheguei em casa, Jaqueline já tava no sofá, com Arthur brincando no tapete e uma cara de quem tinha me esperado só pra ouvir o babado completo.
- E aí, mulher? Que cara é essa? Me fala que deu certo, pelo amor da santa das enrabadas apaixonadas.
Não consegui evitar a risada. Larguei a bolsa no chão, tirei os sapatos e sentei ao lado dela.
- Deu certo. - soltei, com aquele sorrisinho bobo que entregava tudo.
- COMO ASSIM CERTO? CERTO COMO? CERTO TIPO ‘ELE TE LEVOU PRA UM PASSEIO’ OU CERTO ‘TE ENFIOU NA PAREDE’?
- Jaqueline! - falei rindo, empurrando o ombro dela. - Você não presta.
- Você que não presta e tá tentando disfarçar. Vai, conta!
Suspirei, olhando pro teto, tentando achar palavras.
- A gente… a gente se entregou. De verdade. Na sala dele. Como se nada mais existisse. E foi… foi intenso. Foi bruto. Foi urgente. Mas foi… lindo. Sei lá. Eu tô com o corpo todo doído e a alma… leve.
Ela arregalou os olhos e jogou a cabeça pra trás.
- Minha filhaaaa! É disso que eu tô falando!
- Mas não sei, sabe? Eu tô feliz. Muito. Só que o olhar dele ainda tem alguma coisa. Como se ele quisesse, mas tivesse medo.
Jaqueline ficou séria por um instante.
- Homem assim, Bruna… às vezes nem sabe o que sente. Mas ele segurou tua mão até aqui, não foi? Ele te beijou como se fosse a última coisa do mundo?
- Foi. - murmurei, sentindo de novo o gosto da boca dele na minha.
- Então vive. Só vive. Vai que é amor.
Sorri. Um sorriso tímido, mas cheio de fé.
- Vai que é mesmo…
Passei a tarde inteira jogando conversa fora com Jaqueline, rindo, falando de tudo e de nada.
Aquela leveza depois de um furacão que só ela sabia me trazer.
Por volta das 17h, meu celular vibrou. Era Ayla.
- Tô com vontade de jogar conversa fora, posso levar umas cervejas e a gente faz uma resenha aí no AP?
Achei ótimo.
Jaqueline então quase pulou do sofá.
- Agora sim! Já tava achando que hoje ia ser só chá e drama.
Não demorou muito pra Ayla chegar, com uma sacola cheia de latinhas geladas e uma vibe boa que preencheu o ambiente.
Logo estávamos as três espalhadas pela sala, com Arthur brincando e o som baixinho no fundo.
- E esse apê, hein, Bruna? - Ayla comentou, observando o ambiente. - Tá com a sua cara. Acredita que até minha mãe comentou que nunca viu meu irmão ceder um espaço assim pra alguém? Você deve ter algum encanto.
Sorri de leve, mas fugi do assunto.
- Talvez seja só pelo Arthur, né?
Jaqueline quase engasgou com a cerveja.
- Ah, certeza. - falou sarcástica. - Só pelo Arthur mesmo.
Lancei um olhar afiado pra ela. Jaqueline fingiu inocência, como sempre.
- Mas falando sério, Bruna, como você tá? O susto com o Arthur, a mudança... agora aqui. - Ayla perguntou, abrindo outra cerveja.
- Tô tentando respirar. Ainda meio sem chão, mas melhor. Aqui parece mais seguro. E... bom, a gente se adapta.
Estávamos rindo de alguma piada i****a que Jaqueline fez quando Ayla se levantou, andando até a varanda, já batia as 22h.
- Ei... - ela disse, franzindo a testa. - Desde quando tem esse carro preto ali embaixo parado? Todo insufilmado... carro grande, mas ninguém saiu dele desde que eu cheguei.
Olhei instintivamente pra janela, mas Jaqueline foi mais rápida:
- Esse carro esta ai desde cedo. Chuto dizer, desde que Bruna chegou.
Ayla não tirava os olhos da rua.
- Não sei, não. Tá me incomodando. Tô com sensação r**m.
- E você acha o quê, que é alguém vigiando a Bruna? - Jaqueline rebateu, soltando uma risada nervosa. - Acha que é quem? mandando do Canário encapuzado?
O silêncio caiu pesado.
Eu e Ayla trocamos olhares.
O nome dele ainda era um gatilho, mesmo quando dito com tom de deboche.
Ayla voltou pra dentro da sala, com a expressão tensa.
- Desculpa. Mas às vezes, a gente precisa ouvir o próprio instinto.
Eu tentei sorrir, mas meu estômago embrulhou.
Naquela noite, a resenha virou silêncio.
E no fundo do peito… o medo antigo voltava a dar sinal.
O silêncio que caiu depois da piada de Jaqueline não era mais só constrangimento.
Era presságio.
Ayla voltou da varanda com o rosto sério, os olhos presos em alguma preocupação que nem ela conseguia disfarçar.
- Não gosto disso. Não gosto mesmo. - ela disse, olhando em direção à porta, como se algo estivesse prestes a acontecer.
- Ayla… - comecei, tentando aliviar o clima. - É só um carro. Pode ser qualquer coisa.
- Mas pode não ser. - ela cortou, firme. - E o meu instinto... eu confio. E não é qualquer instinto, Bruna. Foi lapidado convivendo com o Marcelo a vida toda. Sabe aquele frio na barriga que parece sem motivo? Ele sempre avisa. Sempre.
Jaqueline se ajeitou no sofá, agora com a expressão menos debochada e mais alerta.
- Cê tá falando sério?
Ayla já tava com o celular na mão, os dedos ágeis desbloqueando a tela.
- Vou ligar pro meu irmão. Não quero causar pânico, mas também não vou ignorar esse sinal. Se for só alarme falso, melhor. Mas se for alguma merda...
- Você acha que seria alguém atrás de mim? - perguntei num fio de voz, sentindo o sangue gelar.
Ela me encarou, o olhar doce de médica dando lugar à mulher que cresceu ouvindo sobre facções, operações, emboscadas e traições.
- Depois de tudo que aconteceu com o Canário, com o que você viu… não duvido de nada. E o Marcelo também não.
Ela se afastou um pouco, indo em direção à cozinha pra fazer a ligação em voz mais baixa.
Eu e Jaqueline trocamos olhares.
Dessa vez, sem piadas.
A rua tava quieta demais.
O barulho da cidade parecia longe.
E lá embaixo…
o carro preto continuava parado.
Ayla se afastou com o celular na mão, indo até a cozinha.
Eu e Jaqueline ficamos ali, em silêncio, ouvindo só o barulho da rua e o som abafado da voz dela ao telefone.
- Marcelo, sou eu. Preciso que você escute com atenção…
Não ouvi mais nada.
O mundo pareceu parar.
Minha respiração começou a falhar, os dedos começaram a tremer.
Eu tentava me convencer de que era só um susto, só precaução...
Mas o medo antigo, o medo de verdade, aquele que gruda nas costelas, já tinha voltado.
Vi Jaqueline me encarar de canto de olho, preocupada.
- Ei, respira. Tá tudo bem, tá?
Mas não tava.
Meu peito apertava, a vista embaçava. As mãos iam pro rosto, pro pescoço, pro colo como se eu tentasse me agarrar em mim mesma pra não desmoronar.
- Não consigo respirar... sussurrei.
- Bruna? - Jaqueline se levantou rápido, segurando meus ombros. - Olha pra mim. Respira fundo.
Ayla voltou da cozinha já com a cara fechada.
- Ele tá vindo. Tá a caminho.
Não demora vinte minutos da ligação. A porta é quase arrombada.
O coração disparou.
Jaqueline me puxou instintivamente, mas eu já tava me levantando, com as pernas trêmulas, os olhos úmidos.
E então ouvi a voz dele.
Marcelo.
- BRUNA!
Corri.
Sem pensar, sem lógica, sem vergonha.
Corri como uma criança perdida.
E me joguei nos braços dele.
Ele me segurou como quem segura o mundo.
Me apertou com tanta força que até a dor sumiu por alguns segundos.
- Tá tudo bem agora. Eu tô aqui, poŕra. Eu tô aqui. - ele repetia no meu ouvido, ofegante, enquanto me envolvia toda.
Atrás de nós, Ayla olhava confusa.
- Desde quando…?
Jaqueline cruzou os braços, deu uma risada contida e respondeu:
- Melhor você sentar. A história é longa.