Capítulo 17

1251 Palavras
Estávamos com sede. Sede de justiça. Sede de caçar esses filhos da putä que destruíram famílias, espalharam terror e acham que vão continuar operando de dentro ou fora da cadeia. As coordenadas nos levaram até uma casa em Campo Grande. Lugar calmo demais pro tipo de merda que sabíamos estar escondida ali. Meus homens cercaram o perímetro. Fizemos sinal. Três. Dois. Um. Invasão. O portão voou. A porta também. Luz das lanternas rasgando a penumbra. Gritos de comando. Passos correndo. Armas apontadas. E ali… no meio da cozinha, com uma pistola 9mm sobre a mesa e dinheiro espalhado ao redor, tava ele. Vado. O maldito Vado. Braço direito do Canário. Alvo prioritário desde a prisão. O filho da p**a levantou as mãos devagar, com um sorriso debochado no canto da boca. - Olha só quem veio me visitar… o pitbull da civil. Cheguei perto. Firme. Fuzilando com os olhos. - Acabou, Vado. Vai apodrecer igual teu chefe. Ele deu uma risada curta, seca. - Vocês nunca vão entender… essa guerra já tá perdida pra vocês. A favela sempre terá um rei. Sem hesitar, meti o joelho no estômago dele com força. Ele tombou e gemeu. A queda do “rei” começou ali mesmo, de cara no chão. - Você vai cantar até o nome da avó. E se não cantar... vai sangrar. Me afastei, respiração acelerada, sentindo que finalmente a gente tava desmontando esse império podre. Mas antes mesmo de conseguir processar a prisão, meu celular vibrou no bolso. Ayla. Atendi de imediato. - Fala, maninha. Do outro lado da linha, a voz dela veio rápida, urgente: - Marcelo… tem um carro estranho parado em frente ao prédio da Bruna. Tá lá há tempo demais. Ela tá com crise de pânico. Eu tô aqui. Mas eu… eu tô sentindo que tem algo errado! Meu sangue gelou. O ambiente ao meu redor desapareceu. - TÔ INDO! Desliguei sem esperar resposta. Gritei pro Rafael: - Termina isso aqui. Preciso ir. AGORA! Entrei no meu carro e meti o pé no acelerador. O coração… já tava com ela. Agora só faltava o corpo chegar. O portão do prédio já estava entreaberto quando parei o carro. Nem me dei ao trabalho de trancar o carro. Coração disparado. Mãos suadas no volante. Corri os últimos metros como se a minha vida estivesse em jogo. E estava. Porque agora, era ela. Subi os degraus dois a dois, o peito ardendo, até ficar frente a porta e quando entrei com tudo a vi… E ela veio até mim. Bruna. Minúscula. Frágil. E ao mesmo tempo, o motivo da minha ruína. Ela se atirou nos meus braços como se estivesse desabando, e eu segurei firme, como se o mundo desabasse em volta e eu só pudesse protegê-la. - Tá tudo bem agora. Tô aqui, poŕra … tô aqui. Passei por Ayla, fiz sinal pra ela ficar tranquila. - Você foi visto? - Não. Vim com carro da corporação. Disfarçado. Fui até a janela da sala e afastei Bruna para que não fosse vista e olhei pra fora. O carro preto já tinha ido. Maldição. Ou era alguém testando terreno, ou o recado tava dado. Fechei a cortina com força, respirei fundo. Bruna me olhava assustada. Peguei na mão dela e falei com firmeza: - Preciso conversar com você. Agora. A sós. Ela assentiu. Fomos pro quarto. Sentei na cama e puxei ela pro meu colo. Ela encaixou como se pertencesse ali. Segurei o rosto dela entre as mãos, olhando direto nos olhos. - Se você me quiser, Bruna… vai ter que entender que vai ser assim. Sempre assim. Meio corrido, meio violento, meio intenso demais pra qualquer pessoa normal. E sabe por quê? Ela engoliu seco, mas não desviou o olhar. - Porque eu não sou um policial qualquer. Eu sou Caveira. Infiltrado. Tropa de Elite. E nessa guerra, o inimigo nem sempre veste a farda errada. Às vezes ele tá dentro. Dentro da corporação. Dentro da minha equipe. O olhar dela tremeu, mas ela não soltou minha camisa. - Eu passo mais tempo fingindo ser outro do que sendo eu mesmo. E o preço disso é alto. Eu me afastei de todo mundo. Só sei obedecer, matar, mentir e sobreviver. E agora você… você é meu ponto fraco. Você me quebra, Bruna. Ela passou a mão no meu rosto, e eu fechei os olhos. O calor da pele dela era o único lugar seguro onde eu ainda podia me esconder. - Eu não quero te afastar. Mas preciso que você saiba… Estar comigo não é leve. É carregar um pedaço do inferno junto. Ela não disse nada. Só se aconchegou mais, e me abraçou. Sem medo. Sem culpa. Só verdade. Ela tava ali, no meu colo, com os olhos me atravessando, como se tivesse enxergando cada parte do que me tornei ao longo dos anos. A verdade tinha sido dita. Agora era ela quem decidia. Bruna não disse nada. Só me abraçou. E aquele silêncio... me desmontou. Eu não resisti. Tomei sua boca num beijo quente, faminto. Meu corpo implorava o dela. Minha língua buscava abrigo onde sempre encontrava perdição. As mãos escorregaram pela cintura, subiram por baixo da blusa… e num devaneio, imaginei ela de quatro ali mesmo, naquele quarto, minha cama de guerra… com ela de bandeira branca. Mas eu sabia. Sabia que na sala havia duas testemunhas com olhos atentos... e um garotinho que confiava nela mais do que tudo. Afastei minha testa da dela, respirei fundo, tentando me recompor. Bruna me olhava com aquele sorriso contido, safado, sabendo exatamente o que estava por vir... se eu deixasse. - A gente precisa sair… - murmurei, ainda com a respiração descompassada. - Precisa mesmo?” - ela provocou com um sussurro. Saímos do quarto. E lá estavam elas. Jaqueline com um sorriso de quem já sabia de tudo. Ayla com os olhos arregalados, segurando o garotinho, que agora olhava pra mim como se eu fosse um estranho interessante. Ficamos todos em silêncio por dois segundos. Longos dois segundos. - Bom… parece que a conversa foi produtiva. - disse Jaqueline, cruzando os braços com um meio sorriso. Ayla franziu a testa. - Bruna…? É com ele mesmo? Tipo... vocês dois…? Bruna me olhou. Eu assenti de leve. Ela então respondeu com uma calma que me desconcertou: - Sim, Ayla. É com ele. E não é só de agora. - Mas, Bruna… - Ayla olhou pra mim e depois pra ela. - Você entende no que tá se metendo? Ele não é qualquer um. Ele carrega muita coisa. E isso pode te arrastar. Bruna não hesitou. - Eu já fui arrastada por homens que me prometeram o mundo e me deram o inferno. Esse aqui… - ela apontou o queixo pra mim - pelo menos teve coragem de me mostrar o inferno antes mesmo de me prometer qualquer coisa. Ayla silenciou. O peso daquelas palavras atingiu a sala. Jaqueline soltou um sorrisinho contido, quase orgulhosa. O garotinho esticava os bracinhos pra mim. Eu me abaixei, ele sorriu. Fodeu. Quando elas preparavam para ir embora. Aproveitaria para descer juntos e garantir que ficassem bem, Bruna se virou e me pegou pela mão. - Fica comigo essa noite. Só essa. O mundo parou. Meu coração vacilou entre o sim e o “cäralho, não posso”. Segurei o rosto dela com as duas mãos, firme, e sussurrei no meio do beijo: - Se eu ficar, Bruna… Eu tô assinando nossa sentença. E mesmo assim, eu não quero ir
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR