A delegacia estava um caos.
Gente entrando, rádio pipocando, viatura saindo, papelada acumulando como se o mundo tivesse explodido em cima da gente.
Mas o que me tirava o ar não era o cheiro de café frio ou a pilha de relatórios na minha mesa.
Era o nome dele.
Canário.
E o fato de que ele tinha me chamado.
A mim.
O “Doutor Pitbull”, como ele fez questão de lembrar.
Rafael veio até mim com a cara tensa.
- Ele tá na sala de contenção. Disse que só abre o jogo com você. Arnaldo vai acompanhar.
Suspirei.
Fiz questão de segurar o cigarro imaginário entre os dedos, como fazia quando estava prestes a explodir.
Rafael e Arnaldo já me esperavam na sala reservada.
Arnaldo me olhou firme, como um pai prestes a jogar uma real que você não quer ouvir.
- Preciso que você entre lá como delegado. Não como homem. Entendeu?
- Depende do que ele disser.
Rafael franziu o cenho.
- É sério, Ávila. Se ele tocar em Bruna, finge que não ouviu. Ele quer te tirar do controle.
- Não prometo.
Arnaldo cruzou os braços, firme:
- Se você perder a cabeça lá dentro, tá fora da operação.
Olhei pra ele, silencioso.
Ele era o único que conseguia me mirar no fundo e me fazer ouvir.
Porque Arnaldo sempre foi mais que chefe.
Era o homem que segurou minha barra quando minha vida desabou.
O mais perto de pai que eu tive.
- Eu entro. - murmurei. - Mas se ele falar dela… não me segura.
Entramos.
Canário estava algemado, pernas abertas, postura relaxada.
O olhar cínico de sempre.
- Olha só… o pitbull veio mesmo. - disse, com aquele sorriso de canto nojento.
Me mantive em pé, braços cruzados.
- Você pediu pra falar. Fala.
Ele encarou Rafael, depois Arnaldo, e por fim, a mim.
- Quero um acordo. Eu entrego o resto da facção, rotas, nomes, tudo. Mas você me garante proteção pra quando sair.
- Proteção? - soltei, quase rindo.
Você vai sair num caixão, Canário.
- Calma, doutor… - ele levantou as mãos - tô cooperando. E falando em cooperação… - virou os olhos direto pra mim. - Como tá a minha ex?
Silêncio.
O sangue subiu.
- A Bruna… ainda tá com aquele corpinho que rebola como se estivesse sozinha?
Foi automático.
Animal.
Irracional.
Avancei por cima da mesa, empurrei a cadeira dele com tudo, e com a mão direita fechei o punho e acertei em cheio o lado da cara.
Ele riu.
Ele riu.
E isso me fez bater de novo.
Mais forte.
Com toda força.
De novo no rosto.
Ouvi o estalo do osso da minha mão.
A dor irradiou.
Mas eu não parei.
- FALA DELA DE NOVO, FILHO DA p**a! FALA!
Rafael veio por trás, me puxou com força.
- BASTA, MARCELO!
Arnaldo estava em choque.
Me olhava como quem via o filho desabar diante dos olhos.
Canário cuspiu sangue, mas manteve o maldito sorriso.
- Faz sentido… o cão pegou gosto pela coleira.
Eu saí da sala com o coração explodindo e a mão latejando.
Mas não era a mão o que mais doía.
Era o nome dela na boca dele.
Era a sujeira que ele jogava em cima de quem…
de quem eu queria proteger até de mim mesmo.
O gosto de sangue ainda estava na minha boca, mas não era meu.
A dor na mão esquerda era.
O soco saiu torto, e a adrenalina me impediu de perceber o quanto eu tinha forçado o punho.
Rafael me arrastava pelos ombros.
- Você tá louco, caralhö?! Vai jogar tudo fora por causa de um vagabundo?
- Ele falou dela, Rafael.
- EU SEI! Eu tava lá! Mas você é delegado, poŕra! Não o namorado ciumento!
As palavras me atravessaram.
Doeu ouvir.
Doeu porque… era quase verdade.
Mas antes que a porta se fechasse por completo, Canário gritou.
Alto.
Rasteiro.
E direto no meu estômago.
- O ACORDO É SIMPLES, PITBULL!
Parei.
Congelado.
- VOCÊ ME TIRA DESSA, E EU DEIXO A BRUNA LIVRE. ENTREGO A FACÇÃO TODA! ROTAS, CHEFES, ESQUEMAS!
Me virei, mesmo com Rafael tentando segurar.
- VOCÊ TÁ ME OUVINDO, DELEGADO DO CÃO? EU DEIXO ELA EM PAZ. MAS VOCÊ VAI TER QUE ESCOLHER:
JUSTIÇA OU MULHER!
A porta se fechou com força.
Mas aquelas palavras… não fecharam comigo.
Elas entraram.
Se alojaram.
E começaram a corroer tudo por dentro.
Me encostei na parede do corredor.
Minha mão latejava, mas era dentro do peito que o verdadeiro buraco se abria.
Bruna virou moeda.
Meu amor virou vantagem pra vagabundo.
E pela primeira vez…
eu percebi que podia perder.
Não ela.
Mas a mim mesmo.
E eu tava com medo de que por ela, eu fosse capaz de quebrar todas as regras que um dia jurei proteger.
O gelo já não fazia mais efeito.
Minha mão estava enfaixada até metade do antebraço, e a dor pulsava no mesmo ritmo que minha raiva.
Mas nenhuma dor física se comparava ao que queimava por dentro.
Depois de bater a porta da enfermaria, fui direto pra sala do Arnaldo.
Não bati.
Só entrei.
Ele estava sentado com os óculos na ponta do nariz, caneta na mão, anotando algo num relatório.
Mas quando me viu... largou tudo.
Só me olhou.
Fechei a porta com um baque seco.
- Preciso falar contigo. Sem protocolo. Sem patente. De homem pra homem.
Ele cruzou os braços.
Assentiu, como se já soubesse o que vinha.
- Então fala, Ávila.
Fiquei alguns segundos em silêncio, encarando o chão.
Depois levantei os olhos e deixei sair.
- O que eu sinto por ela, Arnaldo… não tem volta. Eu tentei manter a distância. Juro que tentei. Mas ela me mudou.
- Você tá me dizendo que se apaixonou por uma ex do Canário?
- Tô te dizendo que… eu daria a poŕra da minha vida por ela. Que ela e o filho dela são tudo o que eu tenho agora. E eu não vou recuar.
Arnaldo respirou fundo.
- Você entende que isso coloca ela, o menino, e você no olho do furacão?
- Entendo. Mas prefiro morrer tentando proteger os dois do que fingir que não sinto nada.
- Você tá pronto pra abandonar o distintivo, se for preciso?
- Eu tô pronto pra fazer o que for preciso.
Ficamos em silêncio.
Foi um daqueles silêncios que pesam mais que qualquer grito.
Arnaldo levantou, caminhou até mim, colocou a mão no meu ombro.
- Então não vai sozinho. Vou colocar dois homens de confiança ao redor do prédio. Bruna e o menino vão ter proteção velada. Mas você… volte pro seu apartamento.
Franzi o cenho.
- Por quê?
— *“Porque ficar em dois lugares émais complicado de vigiar. Esfrie a cabeça. Precisa recuperar o controle.
Assenti.
- Obrigado, Arnaldo. Por confiar.
Ele apertou meu ombro, com aquele olhar duro e paternal.
- Confio em você, moleque. Sempre confiei. Só não deixa o amor te transformar num homem que você não é.
Saí da sala com o coração em frangalhos, a mão latejando, e a alma dividida entre a razão que vesti por anos e a mulher que arrancou cada armadura do meu corpo.