Grande foi à comemoração diante da vitória sobre Zuhluh. Elora estava sendo vista como "a deusa da guerra" para muitos soldados de Slat. Após retornar de Anísia, o rei Angus decidiu dar uma festa em homenagem aos seus valentes guerreiros, que não hesitaram partir ao seu lado, sem se importarem com os rumos que aquele impasse pudesse tomar e a Elora, que se comportou como uma verdadeira amazona não se deixando intimidar pela força de seu oponente.
Um grande banquete foi preparado no palácio e nas ruas das principais cidades, o rei ordenou que a população encerrasse as atividades mais cedo para que pudessem estar juntos de suas famílias e amigos e assim foi feito. Aklon também foi homenageado pela brilhante estratégia, mas o príncipe decidiu que a corte conferisse todas as honras à sua Estrela.
— Bendita seja a favorita de Arukhya, a Estrela de Aklon — exclamou o Rei levantando sua taça de vinho, propondo um brinde a Elora Landre.
— Bendita seja! — todos exclamaram em uma só voz.
Enquanto a festa seguia, Aklon deu por falta de seu irmão mais novo e levantou-se discretamente para procurá-lo. Seguindo corredor adentro, o duque ouve uma suave melodia de flauta. Ao aproximar-se da porta, ele vê Regen sentando em uma poltrona próxima da lareira, entoando uma linda melodia. O duque apoiou-se no portal e ali permaneceu por alguns minutos ouvindo seu irmão tocar, até que este percebeu que não estava sozinho. Regen se assusta, mas ao perceber que se tratava de Aklon, ele abre um sereno sorriso.
— Olá! — Aklon cumprimenta seu irmão.
— Olá, estava tão concentrado a tocar a flauta que acabei não percebendo você chegar. — respondeu Regen colocando o instrumento sobre a mesa e indo em direção a Aklon para abraçá-lo.
— E eu fiquei tão empolgado ao ouvir você tocar, que achei ser uma pena interromper uma melodia tão bela — disse o duque com um doce sorriso.
— Verdade? Eu disse para você que quando voltasse de Bremen, iria te superar na flauta! — o jovem rebateu com um sorriso dando um soco de leve no ombro direito de seu irmão.
—Sim, eu estou vendo isso! Mas fique sabendo que não deve lutar para ser melhor do que eu ou qualquer outra pessoa, você deve se esforçar ao máximo para superar as suas próprias expectativas. Eu vejo um grande potencial, irmãozinho e a única pessoa a quem deve superar é você mesmo. — Aklon falou colocando a mão no ombro de Regen.
— Então deve ser por isso que você está tão acima de todos. Você vive tentando superar a si mesmo? — a pergunta de Regen deixou Aklon pensativo. O garoto prosseguiu. — Pois em todo o reino não se conhece ninguém que seja tão sábio quanto você, nem mesmo os magos mais poderosos dos quais acabou se tornando o líder. É isso? Você conseguiu superar a si mesmo? — indagou Regen e em seguida caminhou para junto da janela.
— Eu luto para superar os meus próprios limites, mas fico triste quando isso acontece tarde demais. Acho que se eu me tivesse me esforçado um pouco mais, teria conseguido salvar a vida de nosso pai — respondeu Aklon descaindo-lhe o semblante. — Isso implica que na maioria das vezes, superar a nós mesmos, pode se tornar o mais árduo dos desafios.
— Você fala como se fosse o culpado por ele ter morrido — disse Regen segurando as duas mãos de Aklon. Os dois sentaram-se sobre a cama. — Mas nós dois sabemos que se não fosse pela minha imprudência, ele teria sido forte o suficiente para suportar aquela maldita febre. Você que o verdadeiro culpado por aquela tragédia foi eu minha idiotice. Eu o fiz sair naquele dia e por isso acabou se machucando para me salvar. — Regen responde com lágrimas nos olhos.
— Não, você não teve culpa de absolutamente nada. Nosso pai fez por você o que qualquer pai faria pelo filho que ama. Pouco importava se ele estava com a febre ou não, o que importava mesmo era que o destino dele, de acordo com suas escolhas, seria selado e ninguém podia fazer nada para impedir.
Depois da resposta de Aklon, Regen põe-se a chorar no ombro irmão. Aklon o consola dizendo que seu pai, apesar de parecer rude e frio às vezes, foi um pai exemplar e partiu desse mundo sem dever nada aos dois. Regen olha para Aklon e pede ao mesmo que revelasse o segredo para ser tão forte, pois segundo ele, Slat não precisava de um príncipe fraco e se ele não conseguisse se tornar forte, deveria partir.
— Não existem fracos ou fortes nessa terra, Regen. Tudo o que existe é somente o instinto de sobrevivência de uma raça, a nossa raça. Se o que você diz é por causa do seu medo, eu digo que não o despreze, pois quando nossas mais poderosas armas se tornam ineficazes, é justamente o medo que passa a ser nossa arma mais poderosa. Mas mudando de assunto — disse Aklon segurando suavemente o rosto de seu irmão por entre suas mãos. — Como foi passar todos esses anos ao lado de nosso primo?
— Se você quer ter uma ideia de como foi, a gente m*l se falava. — Regen respondeu sorrindo e já mais calmo. — As atividades de nosso primo eram completamente diferentes das minhas. Ele está estudando para aprender a se comportar como um rei e quanto a mim, eu sou apenas um príncipe que estou ali para aprender apenas a me comportar melhor.
— Pois isso é tudo e mais do que o suficiente para você ser feliz. Apesar de ser atualmente o terceiro na linha de sucessão, você está livre para viver uma vida plena do jeito que você bem entender. Mas quanto a nosso primo, às vezes sinto pena por alguém de aparência tão inocente um dia ter que suportar o peso da coroa — respondeu Aklon mudando sua expressão.
Regen olhou para o irmão e ficou em silêncio por alguns segundos. O duque de igual modo o encara e pergunta por qual motivo ele o está olhando daquela forma.
— É que você fala como se ele fosse se tornar Rei muito em breve. Eu fiquei sabendo que você adquiriu certas habilidades que estão além das habilidades de um Homem comum. Elas por acaso fazem com que você consiga ver o futuro? — o menino pergunta com certa curiosidade.
Porém Aklon percebendo que poderia estar assustando o irmão mais novo sorriu timidamente e se sentou na poltrona próxima à lareira. Ele olha para Regen com um olhar de quem tinha a resposta, mas que não sabia as palavras certas para expressá-las. Ele então tenta responder seu irmão de uma forma que o rapaz compreendesse.
— Assim como o presente, o passado e o futuro são dimensões diferentes. Cada um pertence ao seu próprio tempo, cada uma acontece em seu próprio momento — respondeu Aklon. Mas apesar do esforço, sua resposta deixou Regen ainda mais confuso.
— Não consegui entender a sua resposta. Por acaso esse é mais um de seus enigmas? — indagou Regen.
— Não! Não existem enigmas quando se discute o tempo e o espaço. Existem certas formas onde o tempo e o espaço não passam de caminhos por onde podemos caminhar, por onde podemos subir e por onde podemos descer. — Novamente Aklon respondeu. — Esses caminhos por enquanto são limitados para nós simplesmente pelo fato de ainda sermos primitivos o bastante para não conseguir alcançar o raciocínio necessário e assim podermos desvendar seus mistérios.
— Então isso quer dizer que você não é capaz de adivinhar o futuro? — perguntou-lhe novamente o príncipe.
— Exatamente — respondeu Aklon confirmando a colocação de Regen. — Devido a nossa condição ser primitiva demais, nós estamos limitados apenas ao presente. Às vezes recebemos a dádiva de podermos deslumbrar alguns acontecimentos do futuro, porém, tais previsões aparecem para nós como meros borrões, como uma tela cuja superfície abriga uma pintura abstrata onde é necessário um intelecto avançado para descobrir seu real significado.
— Entendo — respondeu Regen. — E entendo também que você não existe por uma mera imposição do acaso! Certamente os deuses viram algo especial em você e o dotaram de conhecimentos que não se vê em nenhum outro homem na terra. Só peço a eles uma coisa… que nunca o separem de mim, pois já me tiraram o papai e a mamãe, se levarem você também eu não sei como vou conseguir sobreviver.
Aklon levantou-se da poltrona e em um gesto sublime, abraça o irmão com emoção.
— Pois eu prometo a você que nem mesmo os deuses vão conseguir nos separar. Você é minha família! Nossos pais nos deixaram um para o outro e assim permaneceremos, um do outro. — Aklon enxuga as lágrimas e toma uma flauta para si, desafiando o irmão a tocar com ele. Os dois continuaram a tocar suas flautas até que o sono finalmente os alcançou.
♥♥♥
Já era final de noite e todos em Kels foram vencidos pelo cansaço depois da festa. Muitos soldados dormiram ali mesmo onde estavam e até mesmo as sentinelas pareciam não estar prestando muita atenção no que se passava ao seu redor. Angus ainda estava acordado conversando com Neres. Ele havia chegado à conclusão de que não mais enviaria Timo de volta para Bremen.
— Creio que a partir daqui eu darei conta de educar nosso filho. — a rainha se enche de felicidade e abraça o marido agradecendo-o por, segundo ela, um presente de aniversário antecipado.
Mas o que todos não sabiam, era que nas proximidades da cidade, o poderoso exército vermelho de Ulfhild estava com um ataque surpresa e mortal preparado. Eles haviam entrado no país através das florestas que ficam nos limites entre Slat e Luma.
Um soldado se aproximou de um cavaleiro com uma densa armadura vermelha, ele também portava um bastão dourado com uma espada curta na ponta. Seu elmo assombrosamente belo continha uma máscara dourada que cobria o seu rosto. Esse cavaleiro era Astreas Lukhan, que depois de muito tempo havia conseguido a confiança da rainha Zaila e o tornou comandante supremo do exército da nação anexada.
— Meu senhor! — disse o soldado reverenciando Astreas — Os comandantes dos flancos só estão esperando a sua ordem!
— Por Estakhr e por nossa amada rainha, chegou a hora de selarmos o destino de Slat de uma vez por todas — respondeu o cavaleiro que cavalgou devagar adiante dos demais.
O soldado assentiu e retornou aos comandantes dos flancos e estes começaram imediatamente o ataque que seria realizado por intermédio de um potente e devastador bombardeio a magnífica cidade. Os soldados de Kels que faziam a vigília observaram a intensa movimentação vinda da floresta e foram tomados de temor. Milhares de soldados ao longe com tochas de fogo, caminhando em direção aos portões de Kels a passos largos.
— É uma invasão! — disse o comandante das sentinelas — Vá para o palácio e avisem que se preparem!
Antes de terminar de dar as instruções, o comandante foi atingido por uma flecha vinda do Leste. Ali ficava uma das torres de vigilância da cidade.
— A TORRE LESTE FOI TOMADA! — gritou o soldado.
O rapaz tentou correr para alertar o palácio, mas foi abatido no meio do caminho. Isso por que os soldados de Ulfhild conseguiram tomar a torre norte de maneira muito rápida. Remo estava em frente ao palácio e viu um brilho estranho ao longe e quando olhou com mais atenção, um jovem soldado ferido por uma flecha, gritou dizendo que Slat havia sido invadida por um exército de homens vermelhos. Remo corre em socorro ao rapaz que morreu em seus braços.
— INVASÃO! — gritou Remo em alta voz fazendo com que os soldados despertassem rapidamente. Mas as forças de Remo se vão completamente quando ele olha para o céu que já estava sendo iluminado pelos primeiros raios do dia e vê o mesmo sendo rasgado por imensas bolas de fogo. Elas atingiram os prédios que ficavam a alguns quilômetros do palácio e os gritos dos cidadãos podiam ser ouvidos de longe.
— Catapultas! Preparem as catapultas! — Remo começou a gritar desesperadamente.
Elora correu para junto de seu pai e também ficou horrorizada com o que viu sem acreditar que aquilo estava realmente acontecendo
— O que está acontecendo, meu pai? Isso é a coisa mais covarde que já vi em toda a minha vida! Ela falou amaldiçoando o inimigo.
— Não faça perguntas agora, Elora. Apenas fica atenta… Órion! — ele gritou o chefe da guarda — Vocês estão prontos?
— Sim, meu comandante. Os soldados estão todos a postos!
— Não podemos permitir que esses imundos passem pelos portões de Kels! Quem são eles? —perguntou Remo.
— Pela descrição das armaduras, trata-se do exército de Ulfhild — respondeu o soldado. — Certamente estão agindo sob as ordens de Zaila para nos atacar de surpresa.
— Rainha covarde e sem escrúpulos! — respondeu Elora. — Mas terá o que merece!
— PELO REI! — gritou Remo.
— PELO REI! — responderam todos em uma só voz.
— Fique aqui e proteja a família real! — disse Remo a Elora que assentiu e rapidamente seguiu em direção ao palácio.
Nos aposentos de Regen, Aklon ainda dormia quando ouviu uma voz masculina e serena dizer em seu ouvido: "Aklon, chegou a hora"!
Ele despertou rapidamente e ao olhar para o lado já não ver mais seu irmão.
— Regen! — o duque chamou pelo irmão, mas ao levantar-se, viu que no travesseiro havia uma carta contendo a seguinte mensagem.
“Meu querido irmão! Eu sei às vezes a gente pensa e age de forma precipitada, mas é exatamente isso que nos faz pensar que somos seres humanos propensos a erros. Agora, você disse que os maiores desafios dessa vida são os de vencerem a nós mesmo e é exatamente isso que vou fazer. Estou partindo em busca de vencer os meus próprios desafios e me tornar um príncipe digno de Slat. Isso não é um adeus e sim um até breve, pois um dia você terá muito orgulho de mim! Amo-te”!
— Eu espero que você esteja seguro, meu irmão! — disse o príncipe caminhou até a janela observando a destruição que se aproximava da cidade. — Mas o que é isso?