O Som do Slêncio

2402 Palavras
Um grande silêncio se fez no salão onde estava sendo realizada a festa de aniversário de Aklon e ao ver como o menino estendeu os braços na direção de Elora. Angus não conseguia entender o que realmente estava acontecendo e os demais convidados atônitos pela coragem de Remo em dar sua única filha como um regalo ao pequeno príncipe. Jensen por sua vez não podia acreditar no que estava presenciando, ver sua única filha sendo entregue como um presente a um m****o da família real. A jovem senhora foi então de encontro a seu marido e tomou a filha em seus braços antes que ele a desse a Aklon, em seguida chamou o marido para conversarem a sós. — Você perdeu completamente o juízo, Remo?! Onde já se viu um pai entregar a própria filha como presente a alguém? Mesmo sendo esse alguém o futuro rei de Slat, isso não dá a você o direito de manipular a vida de nossa filha desse jeito — disse a esposa expressando sua raiva. — Você está deturpando tudo o que eu estou tentando fazer, Jensen! Eu já mais promoveria para minha filha um futuro que não fosse brilhante! E esse futuro está ao lado de Aklon! — respondeu Remo tentando argumentar.  — Eu sei que tipo de futuro a sua filha terá! O de uma p********a, com muita sorte a de uma serva! Você condenou sua filha, Remo! — ela respondeu com fúria, esbarrando em um jarro de flores, derrubando-o no chão. Jensen se retirou da presença de Remo com a filha em seus braços. Em seguida a jovem pede a seu sogro que a leve de volta para sua casa. Sem dar a perceber, o rei observa toda a movimentação em torno da família do jovem capitão, mas decide não interferir. Assim como todos, Angus não descarta a hipótese de algo que Remo estaria planejando, pois, nenhum pai em sã consciência daria a própria filha de presente a um m****o da família real sem um interesse pessoal por trás. A festa terminou e todos deixaram o palácio e retornaram para suas casas. A pequena Elora ainda recém-nascida, não sabia o destino que a vida reservara para ela. A esposa de Remo com a cara amarrada, m*l olhava para seu marido, ela não conseguia perdoá-lo pelo que ele havia feito. Na visão de Jensen, sua filha seria transformada em escrava ou no mínimo serva do príncipe Aklon. Porém, Remo não estava lá muito preocupado com o que pensavam a seu respeito, nem sua esposa, nem qualquer outro que tivesse conhecimento sobre o assunto. Após três dias de viagem a cavalo eles chegaram à sua casa, Jensen foi para o quarto de Elora colocar a pequenina para dormir. Remo permaneceu na varanda observando as estrelas, as últimas estrelas da noite que já começavam a ceder lugar à alvorada que surgia no horizonte. Observando a grande estrela Linar, a qual todos diziam ser o olho brilhante de Sara, a deusa da benevolência, Remo em seus pensamentos traçava a linha de treinamento que daria à sua filha assim que ela crescesse e estivesse pronta. Foi quando o jovem capitão ouviu o choro de sua pequena filha e foi até o quarto ver o que se passava. — O que está acontecendo? – perguntou ele. — Por que ela está chorando desse jeito?! — Eu não faço ideia! – respondeu a esposa. — Desde que eu comecei a cantar ela não parou de chorar! — Então pare de cantar! Talvez ela não goste de sua voz ou do que você está cantando! — respondeu o marido em tom de deboche. — Vamos, dê-me ela aqui! Remo toma a filha nos braços e começa a cantar uma música que Jensen ainda não conhecia. Coincidentemente essa era uma canção bastante tradicional na família real, a mesma que as servas usavam para embalar os príncipes e também muito apreciada pelo príncipe Aklon. A questão era que nem mesmo o próprio tinha conhecimento disso. Ao ouvir a voz de seu pai Elora logo pega no sono Oh minha estrela, pequena estrela que brilha na imensidão do céu; Teu brilho me faz sentir a doce alegria e tua luz veio para o meu caminho iluminar; Mas como todos têm seu descanso, canto esse belo canto para que em paz possas descansar; Estrela que brilha iluminando à noite e de dia põe-te a adormecer, brilha sempre em meu caminho, não me deixes esmorecer; Oh minha pequena estrela, presente do reino celestial, enche-me de luz, fazendo-me forte contra o m*l; Não tenha medo, estrela minha, pois eu estou aqui. Jamais a deixarei, minha força está em ti e o teu brilho está em mim! ♥♥♥ Um ano se passou e Elora cada dia se tornava uma criança bela. Em seu aniversário todos da cidade foram convidados. Remo estava triste, pois desde que fora até o palácio real e deu a filha como presente a Aklon, nada mais ele soube de Kels. Mas se havia alguém feliz com tudo isso, esse alguém era Jensen, que sabia que quanto mais a família real ficasse longe dela, mais chance Elora tinha de ter uma vida normal. Porém a grande surpresa veio já no momento de cantar os parabéns para a pequenina. Um home muito bem vestido e montado em um cavalo parou em frente à casa de Remo e se intitulou como mensageiro da casa real. — A que devo a honra da visita de um mensageiro real, meu senhor? — disse Remo prostrando-se diante do homem. — Já que nessa família não há motivo especial para tal visita. — Venho em nome de Vossa Alteza real, Lars Alderis e sua esposa, a Duquesa Lídia Alderis! — respondeu o homem igualmente reverenciando Remo. —Venho em nome dos dois entregar um presente à pequenina em nome de seu filho o príncipe Aklon! — Aklon? – perguntou Remo bastante surpreso. — Quanta honra saber que o casal real e o príncipe se lembraram de minha filha. — respondeu com um largo sorriso. — Na realidade o príncipe Aklon não deixa de falar na sua estrela, uma estrela que todos no palácio não sabiam de que se tratava, porém, a mãe recordou-se que em seu aniversário, o príncipe fora presenteado com alguém da qual ele denominou de “minha estrela”! — o homem comentou achando tudo aquilo muito engraçado. — Então o próprio príncipe insistiu que deveríamos trazer um presente a ela exatamente no dia de hoje, mas eu não fazia a menor ideia de que seria seu aniversário. Todos ficaram maravilhados ao saber que a filha de Remo recebera um presente enviado pela própria família real, algo que não era comum de se acontecer. O homem então chamou Remo e sua família para receber o presente que se encontrava do lado de fora da casa. Ao olharem todos se maravilharam com o belo cavalo que Elora ganhara como presente. Um lindo cavalo branco de patas fortes, um filhote da raça Nadhir, que também era um filhote do cavalo que Aklon recebera de presente do soberano de Kelonnia. — Que animal mais magnífico — disse o governante da cidade. — Eu jamais pensei que veria um animal desses por aqui! Remo, você é mesmo um homem de sorte! Todos retornaram para dentro e as iguarias foram servidas. O mensageiro não falava muito, apenas ficou em um canto da sala observando os convidados comer e beberem felizes com a festa. Remo pouca atenção pôde dar ao participante da festa, já que a toda hora alguém requisitava sua presença, ainda mais agora por saber que ele era um queridinho da família real. Jensen sabia que tudo aquilo era por conta do que seu marido havia feito ao entregar sua filha ao príncipe. A mulher estava bastante triste. Com muito esforço o capitão conseguiu chegar até o mensageiro para dar-lhe um pouco de atenção. — Até que enfim — falou o mensageiro com certa ironia, encostado no canto da sala. — Pensei que eu iria embora sem ter a oportunidade de conversar com o anfitrião. — Perdoe-me, meu senhor, mas o povo desta cidade é assim mesmo! Para eles somente eles têm importância — o capitão sorriu meio sem graça. — Mas agora eu darei toda a minha atenção ao senhor de agora para frente. — Não precisa tudo isso — disse o homem. — Eu quero apenas que me dê o tempo necessário para dar-lhe o recado que trago da parte de vossa majestade, o rei Angus! — O rei Angus? — perguntou Remo. — E o que o rei poderia mandar dizer para mim, um simples capitão da guarda de uma pequena cidade? — Você não sabe o que se passa no coração da casa real, Remo Landre, mas garanto a você que quando o rei olha para alguém, esse mesmo alguém deve se considerar um privilegiado! Eu não sei qual o assunto que sua Majestade quer tratar com você, mas ele me pediu para lhe dizer que quer vê-lo o quanto antes! — respondeu — agora eu preciso ir, tenho que retornar. Após dizer estas palavras o mensageiro retirou-se da festa, deixando Remo bastante feliz com o que havia acabado de ouvir. No mesmo instante o capitão foi até seu pai contar que a visita do mensageiro não foi apenas para trazer o presente de Elora, mas sim para lhe dizer também que o rei desejava vê-lo o quanto antes. Em seu coração Remo sabia que algo de bom estava prestes a acontecer e que a sua vida e a de sua família mudaria de uma forma jamais imaginada por qualquer um deles em muitos anos. No dia seguinte bem cedo, Remo preparou seu cavalo e rumou para a cidade de Kels. Jensen estava feliz em saber que o próprio rei iria receber seu marido e o que é melhor, a pedido do mesmo. Remo deu um beijo de despedida em sua esposa e filha e seguiu em direção à sede do governo de Slat. Foram três dias de viagem a cavalo, o que fez com que Remo pensasse em como o mensageiro havia chegado tão rápido para a festa de aniversário de Elora, sendo que a viagem era um tanto longa. Jamais alguém poderia chegar tão rápido a uma distância dessas. Mas o capitão decidiu não ficar com aquilo na cabeça e seguiu sua viagem. Ele parava no meio do caminho, comia, descansava e seguia viajem. Após três dias ele avista o topo das grandes torres de Kels e a enorme montanha que fica atrás da cidade. Muitos dizem que naquela montanha, em uma determinada época, os deuses costumam descer a terra para observar suas criaturas mais de perto. Remo chega à cidade e apesar de ser algo normal, ele nunca deixa de ficar admirado com sua que fervilha de pessoas todos os dias. Ele cavalga até uma pequena pousada onde alugou um quarto para se banhar e mudar de roupa e assim poder estar diante da presença do rei. E por ter chegado já quase cair da noite do terceiro dia de viagem, ele decidiu dormir por ali mesmo e ir ter com o rei somente no outro dia e assim aconteceu. ♥♥♥ No dia seguinte logo pela manhã, Remo vestiu sua melhor roupa foi até o palácio real. Ao chegar ele foi recebido pelo mesmo mensageiro que levou o presente para sua filha. Remo nunca havia visto aquelas dependências do palácio antes, o que o deixou bastante maravilhado, pois estava indo na direção do gabinete do rei. Já na entrada o mensageiro anuncia sua chegada. Remo entra bastante tímido por estar diante do soberano de Slat e como de praxe, ele se prostra em reverência ao mesmo. — É uma hora e um privilégio estar diante de vós, majestade! — disse Remo curvando-se diante do rei Angus. O rei levantou-se de sua poltrona e foi até Remo. — Não há por que prostrar-se diante de mim e se comportar como se estivesse diante de Janus, Remo! Tão somente sou um homem comum igual a você e a todos os outros deste reino! Agora se levante — disse o rei com um sorriso sereno e retornando ao seu assento. Remo levantou-se ainda um tanto tímido, mas também admirado com a simplicidade do rei. — Eu sempre ouvi dizer que Vossa Majestade era um homem bastante simples, mas não imagina que fosse tanto – respondeu o jovem capitão timidamente. — Sempre pensei que o protocolo real fosse contrário a esse tipo de comportamento. — E é — erguendo a cabeça parcialmente e interrompendo sua escrita, o rei respondeu. — Se fossemos seguir todos os protocolos reais não seríamos nem humanos, meu camarada — o rei concluiu voltando a fazer o que estava fazendo. — Por isso o senhor é tão amado por seu povo, meu senhor — disse Remo já um pouco mais familiarizado. — E desculpe-me se estou sendo atrevido, mas é que sempre fui curioso quanto ao interior do palácio e como seria o seu trabalho! “Mas o que eu estou dizendo”?  Pensou Remo consigo mesmo. O rei levantou novamente a cabeça e dá um sorriso amigável e volta a escrever. Remo não consegue entender para que realmente o rei o mandou chamar, já que o soberano não parava de escrever seja lá o que fosse e o tratava como se fosse um amigo de longa data e outras vezes como se tivesse ninguém ali. — Pronto! Terminei — sua Majestade falou ao mesmo tempo em que se levantava de sua poltrona. — Agora podemos ir. Remo eu vou te mostrar algo bom! Angus pôs a mão sobre o ombro de Remo, uma atitude bastante íntima do rei para com alguém. Isso fez com que Remo ficasse meio confuso. O rei Angus o levou a um belo jardim onde havia várias espécies de flores, algumas de Slat e outras de outros países. Havia também uma que era nativa de Estakhr, que consequentemente era a flor favorita de Aklon. Remo também pôde avistar o pequeno príncipe brincando no jardim com uma babá. O príncipe olhou para Remo sorriu, mas voltou a brincar com seu cavalo de madeira. Finalmente os dois chegaram a uma fonte que ficava no meio do jardim e Angus voltou-se para Remo.  — Bem meu amigo! Nós chegamos aonde eu queria. Agora vamos conversar — disse com olhar sereno.
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