Pré-visualização gratuita Capítulo 01
CAPÍTULO – NARRADO POR VITINHO
Me chamo Victor mais ninguém me Chama assim ,sou conhecido como Vitinho, tenho 28 Anos.
Eu tinha vinte anos quando o morro da Maré caiu no meu colo feito um legado pesado demais pra qualquer um carregar… mas que, pra mim, virou obrigação. Não por honra. Não por ambição. Mas por vingança.
Aquela noite ainda arde dentro de mim como se tivesse acontecido ontem.
Eu estava na linha de frente com meu pai, como sempre. Ele me ensinou tudo — desde negociar sem abaixar a cabeça até mirar com precisão quando o silêncio precisava falar mais alto que as palavras. Meu pai era duro, mas era justo. Era o tipo de homem que os moleques do morro enxergavam e entendiam o que era respeito de verdade.
A polícia avançou de repente, sem aviso, sem acordo, sem consideração. Não era operação comum. Não era troca de tiro de rotina. Era pessoal. Eu percebi isso no olhar do comandante assim que ele surgiu na viela estreita. Um sujeito alto, rosto seco, uma cicatriz no queixo e aquele sorriso torto de quem carrega crueldade como se fosse medalha. Eu nunca vou esquecer esse sorriso.
Ele levantou a arma, e tudo foi rápido demais.
Um estampido seco.
O corpo do meu pai arqueando.
O sangue espirrando na parede fria da laje.
Eu podia jurar que o tempo parou. Só o som da minha respiração existia, rasgando minha garganta. Tentei reagir, tentei atirar de volta, mas ele foi mais rápido… e pior: não ficou pra terminar o serviço. Recuou com a equipe, fugindo como o rato covarde que era.
Aquela covardia me queimou por dentro.
Ainda que eu estivesse ali, armado, pronto, eu não consegui impedir.
E esse peso nunca mais saiu dos meus ombros.
Enquanto isso, minha mãe…
Eu só soube depois.
Eles invadiram a casa enquanto eu e meu pai segurávamos a linha. Ela estava lá dentro, sozinha.
E mataram ela sem hesitar.
Sem falar nada.
Sem chance de fuga.
Eu deveria ter protegido ela.
Eu deveria ter estado lá.
O "deveria" vira fantasma, assombração… vira a voz que ecoa no meu ouvido toda vez que a noite fica silenciosa demais.
Por sorte — se é que existe sorte quando tudo vira tragédia — Layla estava escondida dentro do cofre. Meu pai tinha mandado ela entrar ali quando os tiros começaram lá fora. Ela tinha apenas doze anos. Pequena. Assustada. Tremendo. Mas viva.
Quando encontrei minha mãe caída e percebi que Layla não estava entre os corpos, meu coração quase parou. Passei a casa inteira revirando tudo até ouvir o chorinho abafado, a respiração presa atrás da porta de metal. Quando abri, ela pulou no meu peito desesperada, me agarrando como se o mundo estivesse cair — e estava mesmo. Só não para ela. Para ela eu prometi ali, com sangue ainda quente no chão, que ninguém mais encostaria nela. Que eu ia criar ela do meu jeito. Do meu modo brutal se precisasse. Mas com amor. O pouco que sobrou de amor dentro de mim eu entreguei pra Layla.
Ainda assim, naquele dia, no enterro improvisado na beira do morro, eu enterrei mais que meus pais. Enterrei o garoto que eu era.
Enterrei a fé.
Enterrei qualquer esperança de vida normal.
E enterrei o amor também. Fechei um cadeado nele e joguei longe a chave.
No mesmo dia, ainda com cheiro de pólvora no ar, meu padrinho — Sub — colocou a mão no meu ombro e disse que agora era comigo. Sub era homem de confiança do meu pai. Melhor amigo dele. Era quase um tio pra mim. Cresci ouvindo as histórias dos dois, as risadas deles, um apoiando o outro em tudo. E agora eu tinha herdado não só o morro, mas os inimigos dele também.
Os mais antigos olharam pra mim, depois olharam pro corpo do meu pai coberto por um lençol velho. Era como se todos estivessem esperando uma palavra minha.
E eu falei.
Pouco. Seco.
Falei que ninguém ia cair impune.
Falei que nada ia ficar por isso mesmo.
E naquele instante eu fui declarado o dono da Maré.
Aos vinte anos.
Com o rosto ainda sujo de poeira e sangue.
Com o coração duro e rachado.
Com a alma num lugar que nem eu sabia mais encontrar.
Fiquei conhecido rápido: frio, calculista, temido. O tipo de cara que você não encara nos olhos por muito tempo. Porque eu não piscava. Porque eu não recuava. Porque eu aprendi que quem hesita, morre.
Mas mesmo com essa fama, nunca deixei meu morro virar bagunça.
Aqui dentro existe regra.
E quem quebra, paga.
"Sou certo pelo certo." Foi assim que meu pai me criou. Era assim que ele comandava. E eu sigo igual. Não admito covardia, não admito crueldade gratuita, não admito safadeza com morador. Aqui não.
Não na Maré.
Não no morro que carrega o sangue da minha família.
Ao meu lado, desde moleque, tenho Juninho. Crescemos juntos, jogando bola na quadra, rabiscando muro com carvão, correndo das broncas das nossas mães. Se existe alguém de confiança absoluta, é ele. Sempre foi. Criado na Maré como eu, aprendeu a se virar cedo. Hoje é meu gerente das bocas, meu braço direito quando o assunto é dinheiro, segurança e organização. Juninho é rápido, inteligente, sabe falar a língua do morro e a língua dos negócios. É fiel. Daquele tipo que não precisa jurar nada — basta olhar pra saber.
Sub é o outro pilar. Mais velho, experiente, com aquela calma que só quem já viu a morte muitas vezes consegue ter. Ele me ensinou a respirar antes de puxar o gatilho, a ouvir mais do que falar, a entender que mandante não é quem berra mais alto — é quem pensa melhor. Ele foi a ponte que me manteve de pé quando eu quase desabava. E foi quem segurou Layla no colo quando ela entrava em crise depois das mortes.
Minha irmã…
Layla cresceu sob minhas asas, e às vezes eu acho que fui duro demais. Não deixei ela ter amizade com qualquer um, não deixei sair sozinho, não deixei viver metade das coisas que uma adolescente deveria viver. Mas foi o único jeito que eu encontrei de manter ela viva.
Ela é o pedaço mais puro que sobrou de mim.
E é por ela que eu faço tudo isso.
A Maré, desde então, virou minha responsabilidade. Minha missão. Minha sentença também. Não existe descanso pra quem comanda. Acordo cedo, antes do sol, com o rádio chiando notícias das bocas, movimentação dos soldados, alerta de polícia, acordos, problemas. Cada viela tem um ritmo próprio, e eu aprendi a ouvir todos eles como se fossem parte do meu corpo.
A vida aqui é simples, mas intensa.
No alto da laje, o vento traz cheiro de comida, música alta, risadas de crianças correndo, vizinha fofocando na porta de casa… e também o cheiro de perigo, que nunca some.
Eu caminho por cada canto do morro e vejo rostos que confiam em mim pra manter a ordem. Gente que perdeu tudo e continua lutando. Gente que só quer sobreviver mais um dia.
E é por isso que eu não deixo virar bagunça.
Aqui não tem espaço pra traíra, pra ladrão de morador, pra covardia.
Quem mexe com trabalhador, mexe comigo.
Quem mexe com criança, eu mesmo julgo.
Morro não é selva.
Morro é casa.
E eu comando como casa deve ser tratada.
Mas a verdade que quase ninguém sabe…
é que por trás dessa postura dura, por trás do comandante da Maré, por trás do cara frio que todo mundo teme… existe só um garoto que um dia viu a família ser destruída e nunca mais conseguiu fechar o olho sem lembrar.
Eu lido com isso sozinho.
Porque líder não chora.
Líder não vacila.
Líder não mostra rachadura.
Ou pelo menos é isso que eu digo pra mim mesmo todo dia.
E mesmo sendo temido, respeitado, seguido… nada me assusta mais do que perder Layla. Ela é minha fraqueza, meu ponto vulnerável, aquilo que qualquer inimigo usaria contra mim. Por isso eu a protejo tanto. Por isso eu vigio. Por isso eu tiro qualquer um que chega perto demais.
O morro é meu trono.
Mas também é minha prisão.
E enquanto eu respirar, ninguém encosta na Maré.
Ninguém encosta na minha irmã.
E ninguém — absolutamente ninguém — esquece o nome do homem que matou meu pai.
Eu ainda vou acertar essa conta.
A história desse morro não acaba aqui.
Esse é só o começo.