Eram duas da tarde, quando Trish chegou à escola de arte de madame Souchon, uma senhora que vestia um terno masculino e fumava charuto. Aos sessenta anos, a professora de pintura, como artista, já havia exposto material em várias galerias. Casada com um violinista, sem filhos, ela tinha na arte e na docência os seus objetivos de vida. Por isso, madame Souchon levava a sério a pintura e tudo lhe era uma questão de sim ou não, agora ou nunca – cutucando sempre os extremos.
Era um casarão de dois andares, a escola, ateliê e residência dos Souchon e, além dos seletos vinte alunos e o marido, havia cerca de quinze gatos siameses espalhados pelos cômodos. E foi ali que Trish começou a descobrir o universo da paleta, da tela e das tintas. A primeira aula foi sobre os materiais que usariam no curso e como fazer a sua manutenção. Trish bocejou três vezes durante a aula.
Ao sair da escola, encontrou Michel esperando-a, sorridente, no portão. Franziu o cenho tentando captar no ar a dica sobre a sua aparição inesperada. No entanto, foi ele mesmo que lhe forneceu a explicação:
– Quis fazer uma surpresa e vê-la no seu primeiro dia de aula. Espero não estar incomodando. – completou com suavidade.
– Gostei de vê-lo aqui. – declarou com sinceridade.
Ele sorriu acentuando as covinhas ao redor da boca. Nesse instante, o vento soprou e bagunçou-lhe o cabelo loiro, e Trish pensou em coisas como frescor e pureza. Estendeu a mão e pegou a dele, convidando-o para um café. Porém, ele já estava preparado para outro convite:
– Que tal um moët et chandon no Saint Germains des Pres?
– Como? – ela sorriu, intrigada.
– Acha estranho um pintorzinho de parede comprar um champanhe chique desses? – brincou, irreverente.
Sim, ela achava. Mas não disse.
–Você tem cara de quem sabe administrar o que ganha. – afirmou, observando-o abrir a mochila e puxar a garrafa para mostrá-la.
–Dizem que é amarga e r**m. – ele emendou, fazendo uma careta engraçada.
Apartamento vazio e champanhe.
–Hoje não posso, Michel. Tenho compromisso.
O sorriso desvaneceu-se, desapontado.
–Mas você acabou de me convidar para um café.
Isso, Trish, continue sendo a ótima atriz que sempre foi.
–Para um rápido café, eu tenho tempo. – tentou consertar a situação.
–Você tem medo de mim, Trish? – conjecturou, sondando-a.
Ela tentou sorrir, parecer natural e descontraída. Michel encarava-a com ar sério, e tal expressão não lhe caía bem. A luz que acentuava a sua beleza juvenil era clara e límpida, sem a névoa cinzenta da circunspeção.
–Até parece. Por quê?
–Não sei como explicar, mas tenho a impressão de que com você dou um passo para frente e três para trás.
–É só impressão. Na verdade, estamos afundando em areia movediça, meu amigo. – brincou de um jeito que, normalmente, não funcionava. – Que tal um capuccino para selarmos nossa amizade?
Michel tornou a guardar o champanhe na mochila e, mesmo resmungando qualquer coisa inaudível, seguiu-a até o Café. Ficaram tentando conversar durante vinte minutos, nos quais ele permaneceu fingindo não estar emburrado e Trish, sentindo-se culpada pelo seu estado emocional, tentou compensá-lo bajulando-o. Convidou-o para saírem à noite, numa de suas folgas.
***
Naquela mesma noite, no Code 75, Jean Pierre chamou-a até o balcão do bar e disse:
–Pressinto que Marcel Ferrer virá hoje. Dê um jeito de não ocuparem aquela mesa solitária, de canto, lá no mezanino. Toda a vez que o meu joelho amanhece dolorido, é batata!, alguma celebridade aparece por aqui.
Trish deitou a bandeja sobre o cedro do balcão, contemplando ao redor o primeiro andar com todas as mesinhas ocupadas. O mezanino seria aberto em meia hora e, com certeza, não comportaria a demanda da noite. Uma discreta fila se formava na calçada.
–Estamos lotados, Jean, temos de liberar todas as mesas. – comunicou preocupada. – Esse tal Ferrer já deu bolo outra vez.
–Agora, é diferente, Trish, é a minha intuição que me diz! E ela vale bem mais que um agendamento de assistente de artista que deve, provavelmente, ser um estagiário da escola de artes. – disse de forma afetada.
A função de Jean Pierre era clara: ele era o proprietário do lugar, o boss. No entanto, como todo chefe centralizador, ele se multiplicava no interior do bar. Às vezes, posicionava-se atrás do balcão junto com o barman; outras, na cozinha com o chef e, outras ainda, no escritório. E era somente no último que ele não atrapalhava ninguém.
–Por que todo gay é místico? – ela debochou.
Jean servia-se de vodca com energético e, depois de misturar as bebidas num copo alto repleto de pedras de gelo, fitou-a com ar de sabichão e disse:
– Nem todos, criança. Conheço um que é físico, materialista, ateu e rouba canetas nas agências bancárias.
Trish riu e rebateu com ironia:
–E eu conheço outro que toca os próprios m*****s para saber quando o suposto amigo artista vem prestigiar o seu bar.
–Engraçadinha, saiba que Marcel é um ótimo amigo, só está passando por um período difícil. – defendeu Jean Pierre, emborcando uma última vez o seu drinque. – Agora, ao trabalho, sua subversiva! – xingou-a com carinho, piscando o olho.
Duas horas antes de amanhecer, o lugar estava vazio. O pessoal da cozinha terminava de lavar a louça e guardar o que tinham de guardar. Os rapazes da limpeza esfregavam o chão, punham em sacos pretos o lixo e os descarregavam na lixeira nos fundos do prédio do bar. Os garçons trocavam de roupa no vestiário, enquanto as garçonetes – apenas duas – faziam o mesmo no banheiro feminino. Gabriela era a outra garçonete que dividia as tarefas com Trish e mais dois garçons. Ela era espanhola, estudava literatura francesa, morava com um marroquino que tinha um cachorrinho cego e manco.
Trish trocou os saltos altos e o tailleur escuro pelo jeans e as botas. Vestiu um casaco fino por cima da camiseta de algodão e prendeu o cabelo num elástico. Naquela noite conseguiu uma carona até sua casa. Renier e Gabriela levaram-na para casa. Ao sair do bar − pela porta dos fundos usada pelos funcionários – ouviu a voz esganiçada de Jean Pierre exclamando alto:
− Eu não acredito que você veio!
Trish entrou no carro e sorriu discretamente para o motorista, ainda curiosa em relação à demonstração de felicidade do chefe. Foi Gabriela que matou a charada:
− Sabe quem acabou de chegar e será servido pelo chefinho? – a pausa foi de dois segundos, pois ela não queria que ninguém respondesse. –Monsieur Marcel Ferrer, em carne e osso!
Na noite seguinte, Jean Pierre chamou-a ao seu escritório. Ela adorava aquele lugar, móveis claros de vidro e aço, cortinas j*******s e lustres dos anos de 1970. Havia até uma vitrola e sofás com formato de mão aberta. Assim, ela acomodou-se na palma de uma delas quando o chefe postou-se detrás da sua mesa de trabalho e disse:
−Minha intuição estava certíssima, ma petit, Marcel veio mais tarde, pois queria evitar encheção de saco de um lugar lotado de parisienses embriagados.
− Que adorável. – Trish debochou, mexendo numa bola de cristal com bolinhas de gude dentro.
− Limpa o veneno, Trish, você não sabe o que é andar por Marais ou Montmartre sendo um pintor famoso. É um saco mesmo. – ele parou e fitou-a como se lhe fosse contar um segredo de estado. – Mas chamei mademoiselle aqui para contar a você uma maravilhosa novidade!
− Fofoca dos bastidores das galerias de arte? – ironizou, emendando: − Me poupe do té-di-o. – falou devagar, salientando cada sílaba.
− Ai, como você é pedante! – riu-se Jean e completou: − Lembra que falei sobre a peça que Marcel está produzindo, não? Bien, ele havia parado tudo e praticamente se enfurnou em casa, deprimido. Ele é extremamente sensível, quase uma menina. – Jean acendeu o cigarro e disse: − Mas, agora, parece que voltou à ativa e com esse projeto. Assim, amanhã começam as audições para o papel principal. Será contratado apenas um casal, Trish, e você tem de se inscrever e meter os p****s. É a sua chance. Protagonizar uma peça de Marcel Ferrer é abrir as portas para o cinema de baixo orçamento, salas restritas, pouca bilheteria, quase nada de cachê, mínima visibilidade, mas a glória absoluta de crítica e bebida grátis em eventos minados de outros artistas e intelectuais, fabricados pela mídia ou não. Ufa, essa passagem de Vênus por Marte me deixa tão cheio de energia!
− Olhe para mim, Jean Pierre, e responda com sinceridade: Você acredita mesmo que eu sou uma atriz? – perguntou séria.
Jean arregalou os olhos, espantado com a indagação.
− Se você não é uma atriz, Trish Isabelle, por que então trabalha como garçonete?
Dois dias após ter feito s**o com j**k, ainda não lhe havia telefonado. Sentia-se insegura em procurá-lo para mais um encontro s****l. Era um homem bonito e rico, uma vez que dissera ser dono do casarão de dois andares. Alguém assim tinha mulheres à sua disposição como numa tele-entrega de pizza. E Trish – ou Marie – representava mais uma, ainda que nem tivera de conquistá-la. Às vezes, pensava que não era apenas a sociedade machista. Dentro de sua cabeça tão cheia de divisões e subdivisões, o fato de ter-se oferecido e o levado para cama sem ao menos conhecê-lo pesava na sua consciência.
Na manhã da audição para a peça Tu Es Ma Came, de monsieur Ferrer, pelo menos cem candidatas e outros quarenta candidatos formavam uma fila para entrar no teatro onde teriam de demonstrar seus talentos por meio de uma das falas do drama escrito pelo próprio Marcel. Os testes para a peça não haviam sido divulgados; correram, outrossim, por meio do boca a boca das ruas artísticas da cidade.
As senhas foram distribuídas, e os organizadores da audição informaram que apenas os quinze primeiros fariam os testes naquele dia. Os demais teriam de voltar na manhã seguinte. Trish estava entre os demais. E para ela não era só uma questão de organização ou logística, era o destino. Se não estava entre os primeiros, significava tão-somente que aquilo não era para ela. Além do mais, na fila, observara mulheres jovens, maduras, bonitas, charmosas, com currículos melhores que os dela. Sempre havia alguém melhor, muito melhor à sua frente e era esse alguém que ficava com o papel que ela pretendia. Só não desistiu de vez de lutar pelo papel, porque ouviu o que parecia ser os rumores de um boato: a personagem feminina era uma estrangeira. Caso fosse reprovada no teste, não poderia culpar o sotaque.