5 - Minha

873 Palavras
ACE O corredor parece longo demais. O som dos meus próprios passos é irritante. Cada palavra dela ainda reverbera nos meus ouvidos. Nunca pensei que a Luna teria coragem de reafirmar a separação, achei que assim que me visse ela mudaria de opinião e voltaria correndo pra casa. Não foi o que ela disse que me fez aceitar o divórcio, apenas percebi que puxar a corda a força não vai funcionar agora, preciso ter calma e paciência. Ela estava me expulsando, e ainda assim, era a coisa mais viva que eu já vi Luna ser desde que nos casamos. Aquelas lágrimas que ela não deixou cair... ah... se ela tivesse deixado que caíssem, teria sido uma visão adorável. Nunca vi uma expressão de tristeza tão genuína, quase tive vontade de ficar um pouco mais até que ela chorasse na minha frente. No entanto, sei que o orgulho dela não permitiria, é lamentável mas tudo bem, haverá outras oportunidades. As portas do elevador se abrem e entro sozinho. A luz fria reflete no metal e encaro meu próprio reflexo. O rosto indiferente. Os olhos vazios. Quase não pareço alguém que acabou de perder a esposa. Mas a verdade é que não a perdi. Estou dando um tempo para a Luna refletir e sentir minha falta. Ela quer o divórcio. Ela vai tê-lo. Porque às vezes, para ter alguém, é preciso deixá-la ir primeiro. As portas se abrem na garagem. E eu já tenho planos. O segurança se aproxima do carro. Bob, meu homem de confiança. Ele não fala quase nunca, mas cumpri o que mando como um cão bem treinado. Respiro fundo. Ajusto os punhos da camisa. A raiva ainda está lá, sutil e domada. Porque eu nunca ajo com raiva. A raiva faz os homens errarem. Eu não erro. Com calma, bato no vidro do carro de Bob. Ele desce imediatamente. — A partir de agora... — minha voz sai baixa, mas autoritária — você vai seguir cada passo da minha mulher. — Faço uma pausa antes de passar os detalhes. — Onde ela vai, com quem fala, o que come, o que veste. Tudo. Me mande um relatório diário. Se ela mudar a rota, você avisa. Se ela encontrar alguém, você me manda o nome e a ficha. Eu quero saber o que ela faz antes mesmo dela saber o que vai fazer. Entendido? Bob apenas assente com a cabeça, já sacando o celular para preparar o protocolo. Porque nós não acabamos. Ela acha que sim, mas não. Luna pode ter me dito para ir embora. Mas ela ainda é minha esposa. E eu não perco o que é meu. Nunca. Meu motorista já está de pé, com a porta traseira do carro aberta. A porta se fecha com um clique. O mundo lá fora é deixado para trás. — Para casa, senhor? — pergunta o motorista. Cruzo as mãos. Mantenho os olhos na frente. — Não. Para o escritório. O motorista não responde. Apenas engata a marcha e o carro desliza para fora da garagem subterrânea. Fecho os olhos. E sorrio. Porque agora que estou longe dela, posso saborear com mais calma o que vi ali, aquela tristeza escondida, os olhos brilhando, a voz tentando esconder o desespero. Luna me expulsando como se finalmente tivesse se encontrado. E talvez tenha. Mas foi justamente essa nova versão dela, tão quebrada e tão viva, que me deixou com uma vontade absurda de tomá-la ali mesmo, de fazer ela se esquecer de todas as palavras que disse enquanto tremia. Nunca quis tanto tê-la... Aquela imagem vai me perseguir essa noite: os lábios trêmulos, o queixo erguido com orgulho. A negação presa na garganta. Ela tentando ser forte... tentando se livrar de mim... e me deixando completamente aceso. Luna nunca entendeu. Eu não sou como os outros homens. Não me explico. Não me abro. Mas tem coisas que desejo. E agora desejo tê-la mais do que nunca. Ela não sabe que só atiçou me atiçou. Quando chegar a hora ela vai se arrepender de cada palavra dita com aquela voz embargada. Porque da próxima vez que eu colocá-la contra a parede, não será para discutir. Vai ser para lembrá-la exatamente de quem ela é. Minha. Ela pode dizer o que quiser. Pode repetir cem vezes que quer se divorciar e que está melhor sem mim. Mas eu conheço aquela mulher. Luna me amou por quase uma década. Me desejou, me defendeu, me esperou, mesmo quando eu não voltava pra casa. Me escolheu todos os dias. E isso não muda do dia pra noite. Não importa o que ela diga, aquilo ainda está lá. Escondido sob a mágoa, a frustração, talvez até ódio. Mas está. Eu vi nos olhos dela. Ela ainda me pertence, mesmo que esteja tentando se convencer do contrário. Mulheres como Luna... não sabem lidar com a intensidade de um homem como eu. Elas pedem distância quando o que realmente querem é ser puxadas de volta. Querem espaço, mas precisam ser possuídas. Dominadas. Bom, talvez eu tenha falhado em dominá-la e isso a fez acreditar que podia escapar entre meus dedos, mas não vou deixar isso acontecer outra vez. Não importar o que tenha que dar ou tirar dela, vou trazê-la de volta.
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