4 - Quero você longe

1568 Palavras
LUNA O dia foi um atropelo só. Tentei ser gentil, eficiente e centrada, mas a verdade é que estava apenas sobrevivendo à sequência de reuniões e e-mails acumulados por ter tirado um único dia para mim. Um. Único. Dia. Começo a suspeitar seriamente que meu pai não está cuidando da empresa e está secretamente passando todos os deveres pra mim enquanto passa tempo com a mamãe. Agora, de volta do último compromisso externo, tiro os sapatos dentro do carro assim que o motorista estaciona na garagem da empresa. Meus pés latejam, minha cabeça pulsa e tudo o que quero é silêncio e uma cadeira giratória. Ou, melhor ainda, minha cama. Subo pelo elevador com a bolsa escorregando do ombro e o blazer desabotoado. Quando as portas se abrem, encontro Mônica me esperando na recepção do andar. Ela se ilumina ao me ver, como se fosse me dar uma notícia maravilhosa. — Luna! Tem uma pessoa te esperando. Eu disse que você estava em reunião, mas ele disse que esperaria o tempo que fosse necessário. Achei super educado. Muito gentil, inclusive. — ela comenta, toda animada, com aquele sorrisinho cúmplice de quem acredita que me fez um favor. — Ele? — repito, franzindo o cenho, sem ter energia nem para esconder a preguiça de conversar com outro cliente. — Quem é? — Está na sua sala! Vai lá ver. — diz, gesticulando com entusiasmo, como se me entregasse uma surpresa de aniversário. Um desconforto sobe pela minha espinha, mas respiro fundo e sigo em direção à sala, desejando que seja um cliente, um fornecedor, até meu pai, qualquer coisa menos o que meu instinto já começa a apontar. Empurro a porta de vidro com calma e, a suspeita se torna certeza. Ele está ali. Ace. De costas para mim, observando a estante onde mantive, por inércia ou por covardia, a última fotografia do nosso casamento. A moldura de vidro simples. Meu sorriso entusiasmado. O olhar dele indiferente. A imagem que por tanto tempo me convenci que representava estabilidade, e não solidão. Ele não se vira de imediato. Permanece imóvel, como se a foto o tivesse engolido. Fecho a porta com um clique sutil, mas audível. Ele finalmente se vira. — Luna. — diz, com aquela voz baixa e pausada que sempre me deu a sensação de que ele está medindo palavras que nunca chegam inteiras. Cruzo os braços, mantendo a distância. Juro que não é raiva. É autopreservação. — Você não deveria estar aqui. Ele desvia o olhar da foto para mim. Os olhos ainda são os mesmos. Sempre foi difícil ler o Ace. Nunca decidi se o comportamento dele era calmaria ou tormenta. — Eu precisei ver você. — ele diz, e o uso do verbo "precisar" me incomoda. Que conveniente. Justo agora que eu finalmente me dei o direito de não precisar mais dele. Dou uma risada curta, sem humor. — Qualquer coisa que queira falar a respeito do divórcio pode tratar com meu advogado, o contato dele estava nos papéis que deixei. Ele abaixa um pouco a cabeça, como se engolisse algo amargo, mas não recua. — Eu não vim falar sobre o divórcio. Ah, claro que não. Por que tornar as coisas simples quando ele pode bagunçar tudo com mais uma das suas ações inesperadas e sem explicação? Afinal, dificultar a minha vida é o que ele sempre fez de melhor. — Se não é sobre o divórcio... — digo, me virando de volta para a mesa e depositando minha bolsa com mais força do que o necessário — então não existe nada a ser tratado entre nós. Nada que justifique você estar aqui. Minha voz é firme, mas sei que ele percebe a nota trêmula que tento esconder. Dou a volta na mesa, fingindo buscar um documento, uma distração qualquer, mas ele não se move. Ou melhor, move-se sim. Devagar. Como uma sombra que desliza, ele se aproxima. — Você não parece surpresa. — ele comenta, parado do outro lado da mesa agora, como se esperasse... o quê? Que eu o ouvisse? Que cedesse espaço? Levanto o olhar, encarando-o por um instante, tentando entender o que Ace está fazendo aqui se não é apenas para me atormentar. — Não estou surpresa porque aprendi a não esperar lógica de você. — rebato, erguendo o queixo. — Você sempre faz o que quer. Ele não rebate. Apenas me observa com aquela expressão calma demais para o caos que me provoca. E é isso que mais me irrita, essa constante imobilidade dele, como se fosse feito de pedra e eu estivesse sempre em chamas. Ao seu lado Ace é o centrado e eu sou a louca. Ace se aproxima mais. Contorna a mesa devagar, como se pisasse em um campo minado. E eu… eu deveria recuar. Mas não me mexo. Meu corpo inteiro fica em alerta, rígido, tenso. A respiração presa entre o impulso de fugir e o de enfrentá-lo de vez. — Você me quer longe, Luna? — ele pergunta, parando a apenas um passo de mim. Tão perto que posso sentir o calor do corpo dele. — Me diga. E eu juro que não volto mais. Sinto a pele do pescoço arrepiar. Não porque ele me toca, porque ele não toca. Nunca tocou. Nem no casamento. Nem na lua de mel. Nem nas noites em que eu criei coragem de me aproximar dele tentando encontrar qualquer traço de i********e. Nada. Sempre houve um muro entre nós. Invisível, mas sólido. E, agora, ele está aqui agindo como se quisesse escalar tudo que construiu. — Me diga, Luna. — ele repete, mais baixo agora, o olhar cravado nos meus lábios. Sinto o sangue pulsar nos ouvidos. A pergunta não era difícil, talvez o ego de Ace o faça acreditar que no fundo isso é tudo um teatro para ter sua atenção, mas não é. A resposta me atravessa antes mesmo que eu consiga formular mentalmente. — Quero sim. — digo. Minha voz não sai firme. Sai crua. Sai ferida. Sai como um sussurro que sangra. — Quero você longe. Quero que me deixe em paz. Quero continuar voltando pra casa sem sentir aquele peso no peito, aquela expectativa de que você vai aparecer, como agora, e se importar com algo além de si mesmo. Eu não aguento mais viver como esposa de Ace Montesino. Dou um passo para trás, como se isso pudesse me proteger das memórias. Mas não protege. — Eu esperei tanto por você... — continuo, e minha visão começa a embaçar. — Esperei no altar. Esperei nas noites em que a cama era fria demais para dois. Esperei todos os dias que você chegava tarde, e todos os dias que não chegava. Respiro fundo. Meus olhos ardem, mas não quero chorar na frente dele. — Eu me esforcei tanto pra achar desculpas por você. Pra acreditar que era o jeito reservado, o trabalho, o cansaço. Tentando de alguma forma me fazer acreditar que sua indiferença não tinha a ver comigo e que você agia igual com todo mundo. Mas você sorria mais para os outros do que pra mim, não... você nunca sorria pra mim e nunca falava mais que o necessário e se eu falasse você dizia que a minha tagarelice estava te aborrecendo. A verdade é que eu nunca fui parte do seu mundo, Ace. Nunca. E isso... isso me partiu aos poucos, como uma corda que arrebenta um fio de cada vez. Abaixei a cabeça, porque não consigo mais sustentar o olhar dele. — Você diz que precisava me ver. E eu te pergunto: por quê? Porque de tudo que você pode me dar, a última coisa que eu preciso agora é a sua presença. Levanto os olhos outra vez, sentindo o gosto salgado das lágrimas mesmo sem deixá-las cair. — Então, por favor... se algum dia você me quis feliz, se em algum momento... mesmo que pequeno... desejou que eu tivesse paz ou qualquer migalha de felicidade... me deixa ir. Me deixa seguir. Não me procure mais. Porque a única chance que eu tenho de ser feliz... é se você não estiver mais aqui. Ace não desvia o olhar. Nem por um segundo. Ele me observa como se visse, pela primeira vez, a ruína em que me transformou. Ele pisca devagar. E então, algo muda. — Tá certo. — diz. Baixo. Simples. Sem resistência. Eu o encaro. Pela primeira vez Ace Montesino cedeu. — Eu vou assinar tudo. — continua. A voz rouca, um pouco mais fraca. — Do jeito que você quer. Você está certa, Luna. Está certa em tudo. Ele se afasta um passo. Depois outro. Até que a distância entre nós volta a ser segura, suportável. Até que o calor da presença dele se torne apenas memória. Ele engole em seco. As mãos se fecham por um breve segundo e depois relaxam. O corpo inteiro parece pesar. — Me desculpa. Por tudo o que eu nunca fiz. E tudo o que eu deveria ter feito. Eu não sou o homem que você precisava e tudo que fiz foi te machucar. Eu não respondo. Uma parte minha quer gritar, outra parte quer chorar. Mas a maior parte… só quer que ele vá. E ele entende. Ace caminha até a porta. Abre-a. Antes de sair, se vira uma última vez. — Espero que você seja feliz. E então, ele se vai. Sem drama. Sem cena. Apenas… se vai.
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