Capítulo 4 – Regras da Tentação

1562 Palavras
Eu achava que poderia lidar com Cael como quem lida com uma prova difícil: com concentração, distância e racionalidade. Mas ele não era um exercício para resolver. Ele era uma presença que invadia. Que se infiltrava. Que se instalava até onde eu não queria admitir. E o pior? Eu comecei a querer essa presença. Depois da apresentação, ele ficou ainda mais presente. Me mandava mensagens no meio da tarde, me esperava no corredor da sala de aula, se oferecia para revisar nossas anotações… tudo com um tom casual, como se não houvesse nada demais acontecendo. Mas havia. Era como se estivéssemos cercando um ao outro, testando os limites, empurrando as barreiras. Um jogo perigoso em que ninguém mais sabia exatamente qual era a regra principal: resistir… ou se render? Na quinta-feira à tarde, ele apareceu do nada na mesa em que eu estudava na biblioteca. Não disse oi. Apenas largou um chocolate ao meu lado e puxou uma cadeira. — Tá me seguindo? — perguntei, sem tirar os olhos do caderno. — Você não respondeu minha mensagem ontem. — Estava ocupada. — Com saudade? Levantei o rosto e o encarei. Aquele olhar, outra vez. Sempre ele. Cheio de promessas, provocações e um toque de doçura que ele fingia não ter. — Você quer o quê de mim, Cael? — Tudo que você não quer admitir que sente. — Isso não responde. — Você quer respostas ou quer desculpas pra fugir? Suspirei, jogando a caneta sobre a mesa. — Eu quero entender por que você insiste tanto. — Porque ninguém nunca me desafiou como você. E porque, quando você sorri, parece que o mundo faz sentido por alguns segundos. Meu coração acelerou. Mas eu me mantive firme. — A gente precisa de regras — falei, firme. — Regras claras. Porque isso aqui tá indo rápido demais. Ele cruzou os braços, interessado. — Regras? Tipo o quê? — Nada de toques em público. Nada de beijos. Nada de confissões. Nada que confunda ainda mais as coisas. — Você quer criar regras pra um sentimento que já tá fora de controle? — Eu quero sobreviver a você. Ele deu um meio sorriso. — Então tá. Regras da tentação. Eu topo... se puder quebrar uma por dia. — Não é um jogo. — Mas é um campo minado. E eu tô disposto a andar de olhos fechados se for pra te alcançar. Eu deveria ter me levantado e ido embora. Mas eu fiquei. Porque, no fundo, ouvir aquilo doía menos do que me afastar dele. Naquela noite, sonhei com ele. Sonhei com seus dedos entre os meus. Com o toque da barba no meu pescoço. Com a voz sussurrando palavras que eu nunca ouvi, mas sabia que ele era capaz de dizer. Acordei suando. O corpo quente. O coração... em descompasso. Peguei o celular e havia uma mensagem dele. Cael: “Quebrei a primeira regra. Sonhei com você.” Sorri sozinha. Mal sabíamos que as regras estavam prestes a ruir completamente. Na sexta-feira, fomos convidados para a festa de um colega do curso. Eu fui arrastada por Bianca, que claramente ainda achava que podia me proteger dele. Cael estava lá, é claro. Com aquela camiseta preta que grudava nos ombros, o olhar de quem sabia exatamente o que fazer com ele… e comigo. Quando me viu, ele não se aproximou. Apenas ergueu o copo na minha direção e sorriu. E eu senti. Em cada centímetro do corpo. A conexão. A provocação. A vontade de ignorar todas as regras. Horas depois, nos encontramos na varanda dos fundos, longe da música alta. Estávamos sozinhos. — Tá fugindo de mim de novo? — ele perguntou. — Tô fugindo de mim quando tô perto de você. — Então chega perto. — Cael... — Só mais um passo, Isa. — A gente fez um acordo. — E tá doendo cumpri-lo, não tá? Ele estava parado ali, com as mãos nos bolsos, os olhos fixos nos meus lábios. A tensão entre nós era elétrica, densa, real. — Você é minha distração mais perigosa — confessei, com a voz trêmula. — E você é minha tentação mais bonita. Dei mais um passo. Ele também. — Eu não quero me machucar de novo — sussurrei. — Eu não quero te quebrar. Eu quero te provar que alguém pode ficar. — Você já ficou demais. Dentro de mim. — Então deixa eu entrar por completo. Eu poderia tê-lo beijado ali. Bastava um movimento. Bastava ceder. Mas, no último instante, me afastei. — Ainda não. Eu preciso resistir mais um pouco. Ele assentiu, como se entendesse. — Tudo bem. Mas não me peça pra não te olhar assim. Porque você já é minha desde o primeiro olhar. Voltei pra casa com o corpo tremendo. As regras estavam lá. Escritas com o medo. Mas ele era a exceção mais linda que a vida já tinha me trazido. E, aos poucos, eu começava a aceitar que talvez não fosse o certo resistir a tudo que me fazia sentir viva. Porque resistir a Cael estava se tornando muito mais difícil... do que me entregar. Acordei no sábado com a mente pesada, mas o corpo leve. Como se sonhar com ele tivesse limpado parte da minha angústia. Ou talvez só tivesse espalhado ainda mais confusão. Cael era um perigo que eu mesma estava convidando pra entrar. E cada “não” que eu dizia virava um “talvez” antes de chegar aos meus lábios. As regras que impus pareciam fortes na teoria. Mas na prática… estavam caindo uma a uma. Só que eu ainda resistia à última: a de me entregar de verdade. Abri o celular. Outra mensagem dele. Cael: “Acordei com o gosto do seu nome na boca. Segunda regra quebrada: pensar em você antes de sair da cama.” Fechei os olhos, tentando ignorar a onda quente que percorreu meu corpo. Eu não podia deixar ele me conquistar só com palavras. Ou podia? Naquela tarde, Lorena me chamou para estudar no saguão do alojamento. Eu aceitei. Precisava ocupar a mente, fingir que Cael era só mais um capítulo da minha vida — e não o livro inteiro. Mas não adiantou muito. Trinta minutos depois, ele apareceu. Com um caderno, uma caneta… e aquele jeito casual de quem nunca chega por acaso. — Oi, meninas — ele disse, sentando sem nem pedir permissão. Lorena olhou pra mim como quem diz “te vira”. — Você sempre invade assim os momentos dos outros? — perguntei, arqueando a sobrancelha. — Só quando esses momentos envolvem você. E uma saia curta. Revirei os olhos, mas minhas bochechas queimaram. — Estou estudando, Cael. — Eu também. Estudando você. Já tô na parte das suas reações quando tenta disfarçar o quanto gosta da minha presença. Lorena tossiu, claramente desconfortável. — Eu vou dar uma volta. Volto depois — ela disse, saindo sem esperar resposta. — Você espanta as pessoas — falei, cruzando os braços. — Eu foco só na que me interessa. — Aposta ou verdade? — Não existe mais diferença. Ficamos em silêncio por um tempo. Ele observava meus movimentos como se cada gesto meu dissesse mais do que minhas palavras. — Posso encostar? — ele perguntou, de repente. Minha respiração prendeu no peito. — Por quê? — Porque eu preciso. Só um segundo. Um toque. Hesitei. Mas o medo não venceu. Assenti, devagar. Ele estendeu a mão e pousou a ponta dos dedos sobre meu pulso. Suave. Quente. Preciso. Aquele toque… não era nada. Mas era tudo. Porque tinha verdade. Desejo. Controle. E entrega. Meus olhos se fecharam involuntariamente. — Você tá tremendo — ele murmurou. — Você também. — É assim que começa, Isa. Não no corpo. Mas aqui. — Ele tocou de leve meu peito, sobre o coração. — Eu não tô pronta. — Eu espero. Mas não vou recuar. — Você tá me quebrando devagar. — Eu tô tentando te reconstruir com cada pedaço que o outro quebrou. Abri os olhos. Ele estava mais perto agora. Os olhos fixos nos meus. E eu senti… que ali, naquele instante, tudo poderia mudar. Mas ele recuou. — Terceira regra — ele disse, sorrindo. — Saber parar antes que você fuja. Soltei o ar preso nos pulmões. Ele não me beijou. Não forçou. Mas aquele toque no pulso… doeu mais do que qualquer beijo roubado. Porque foi real. Porque foi cuidado. Porque foi tudo o que ninguém nunca tinha feito comigo. À noite, quando Lorena voltou, ela me olhou em silêncio por alguns segundos. — Você tá diferente. — Como assim? — Tá… mais vulnerável. Mas mais viva. — É possível ser as duas coisas ao mesmo tempo? — Quando se trata de amor, é a única forma. Me encolhi na cama, puxando o cobertor até o queixo. — Eu ainda não sei o que é isso. — Então sente. Não pensa tanto. Só sente. Fechei os olhos. E a única coisa que eu senti… foi ele. A pele dele. A voz. A coragem. E o medo. O meu. Porque amar alguém como Cael Montenegro significava derrubar tudo o que eu construí pra sobreviver. E, no fundo, eu já sabia. As regras que criei não eram pra nos proteger. Eram só muros frágeis erguidos por alguém que nunca aprendeu a ser amada do jeito certo. Mas ele… ele tava disposto a me ensinar. Um toque de cada vez.
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