— Atrasado, meu DEEEUUUSSS!!!
Acordo afogado na luminosidade solar inundando meu quarto de pensão, vôo escada abaixo e
alcanço o passeio:
— Que horas são?
O idoso olha para mim de braço estendido: no pulso um velho Rolex sem ponteiros me avisa
que é hora de correr!
Disparo pela calçada e me aproximo do primeiro táxi da fila:
— Que horas são?
— Hummm...- O taxista olha atentamente para o relógio mordendo os lábios
— Hora de pegar minha cliente!! Muito obrigado pela lembrança!!!
Vuuuuummmm ...
Preciso correr, correr, chegar... Eu preciso, preciso e resisto; entro em uma relojoaria cercada
de sucata e ponteiros estáticos... Não resisto:
— Que horas são?
O relojoeiro sorridente aponta para a torre da praça principal: no topo, um zelador polindo os
ponteiros me dá língua fazendo buúúúú como um garotinho encapetado, só me resta....
Contorno o jardim com a rapidez e elegância de uma avestruz embriagada, e visualizo ao lado
da igreja uma aglomeração cercando um palhaço:
— Que horas são?
Direciono meu pedido a quem quer que me escute, mas o palhaço me fulmina com os olhos:
sinto-me como um bisbilhoteiro atravancando o espetáculo, um quebra-molas inútil, deslocado
e desconexo empacando o trânsito e os pedestres.
— Que horas sããããooo???- Curioso, o palhaço me pergunta retirando do peito um relógio
gigante: as mesmas de ontem AHAHAHAHAHAHÜÜ!
A platéia explode em sonoras gargalhadas, enquanto me retraio como uma bexiga murcha de
pescoço caído e sorriso chocho.
— Desculpe... Não quis ofender. - O palhaço, de cabeça baixa, suspende a manga olhando
para o pulso: Agora são... Um pouquinho pra mais logo!!!
UHUHUHUHUHAHAAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!
— Socorrooooü!
Preciso seguir, prosseguir...Chegar a tempo para, para ...eu paro:
A batina entrelaça minha visão em sua monotonia bicolor... Apazigua meu espírito:
— Padre... Pelo amor de Deus, que horas são?
Vazio: o Silêncio do Silêncio.
— Para se encontrar com o Senhor...Toda hora é hora meu filho.
Eu tremo, ofego, transpiro, suspiro:
— Nãããoooü!
Eu corro, corro, persisto, não pergunto, não desisto, resisto e finalmente desembesto escada à
cima, mas um degrau em falso me impulsiona para a porta (blaaaammm) e me arremessa aos
pés do meu chefe...Suspendo o pescoço:
— B-bom... Bom dia c-chefe, que horas são?
— Hora... da demissão, chegou CEDO DEMAIS!!!!
Ouço a última ordem (não entendo!) no mesmo instante que seus dedos direcionam minha
visão aos velozes ponteiros do relógio de parede... Andando para trás!!!!