Toda vez que Gisele passava por aquela floresta, evitava o olhar direto para não ter calafrios.
Ela trabalhava como auxiliar de limpeza em uma empresa na Paraíso, e sempre acordava às
cinco da manhã para conseguir chegar no horário, às 7:45. Geralmente caminhava a pé até a
estação, pois era próxima a sua casa e raramente fazia uso do ônibus para realizar este trajeto,
pois tal demorava-se muito.
De segunda à sexta, fora uma semana extremamente agradável, tanto no trabalho quanto em
casa. Ela morava com seu marido Kléber, porém ainda não eram casados, apenas decidiram
morar juntos. Estavam na pequena comunidade CDHU há pouco mais que três anos, e
gostavam bastante do local.
Após esta semana que passara, Kléber propôs para a companheira uma pequena viagem
durante o final de semana. Gisele gostou da ideia do marido e sugeriu que fossem a praia.
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Precisou ir pescar em Bertioga para conseguir o peixe que queria; e sem a ajuda de um
simpático senhor que gostaria muito de ser pirata, não teria conseguido. O peixe que Corey
estava delicadamente estraçalhando era muito grande. Uma espécie rara, talvez. Fez um
gemido e sorriu congratulando-se quando a enorme cabeça do animal marinho fora separada
do corpo. Jogou o resto da carcaça no lixo e ergueu a cabeça solta do bicho no alto, como se
aquilo fosse uma única e muito esperada conquista.
Na quieta floresta, um barulho fora ouvido. Era um pai procurando por sua filha, que estava
brincando com uma árvore não tão longe de onde o pai estava. Corey retirou o sorriso do rosto,
enfiou os dedos nos olhos da cabeça do peixe, fazendo dois médios buracos para poder
enxergar, e, como se fosse um capacete, vestiu aquela coisa decapitada e fedida, pronto para
ajudar aquele pai a encontrar sua filha.
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Gisele e Kléber estavam descendo as escadarias de seu prédio quando Kléber pisou em algo
mole e quente.
- m***a! Esses malditos cachorros! Amor, vou ter que trocar de sapatos. Pode ir indo pro carro.
Gisele obedeceu e guardou as pequenas malas necessárias da curta viajem dos dois no porta
malas.
- Tudo pronto? - Perguntou Kléber, voltando com novos pares de sapatos.
- Tudo sim.
Concordaram em pegar a estrada naquela manhã de sábado. Ao sair da garagem de marcha
ré, um cachorro vira-lata estava parado no caminho do carro. Quando Kléber percebeu, o
pensamento de que aquele cão sujara seus sapatos deu-lhe uma raiva constante. Ele freou.
- O que houve, querido? - Quis saber Gisele.
-Tem um cachorro atrás. O desgraçado que c***u no prédio.
- Ah... passe por cima. - Disse a mulher sem o menor senso de culpa ou preocupação, e voltou
a remexer no porta luvas.
Apesar de querer muito, Kléber não fez o que a esposa disse. Mas quando conseguiu fazer o
cachorro desviar, o animal o encarou com uma expressão nada fofa para o homem. Kléber
disse:
- Vá cagar na sua mãe, vira lata.
Saíram do conjunto CDHU no qual viviam e pegaram o caminho que passava pela estação,
quando chegaram na altura de um grande matagal com árvores e pernilongos, o carro
desligara abruptamente.
- Não acredito. O motor de novo? - Questionou indignada Gisele.
- Pois é.... acho que sim.
- Você não foi concertar semana passada?
- Fui, mas parece que não concertou. - Disse Kléber já saindo do veículo.
O problema era mais sério do que parecia. Gisele estava tão brava com o marido que brigou
com ele o dia inteiro enquanto estavam ali tentando concertar o carro. As pessoas que
passavam os olhavam curiosamente; ninguém ofereceu ajuda ou quis saber o que estava
acontecendo. Ligaram para o mecânico três vezes e o maldito apenas atendeu no final da tarde
para dizer-lhes que já estava fora de horário de serviço. O dia ia se encerrando terrivelmente
para o casal. Escureceu, e assim que Gisele acalmou-se e percebeu isso, se deu conta
também de onde estava. Como não reparara naquilo antes?
- Kléber, está escuro. Ninguém está passando por aqui mais; carros ou pessoas. E essa... esse
matagal, essa floresta... não gosto dela. E está frio.
O homem preocupou-se com a situação da esposa e lhe deu seu agasalho. Pediu desculpas
pelo que estava acontecendo e sugeriu que entrassem no carro para se aquecer e passar a
noite.
- Amanhã resolveremos isso, amor. - Disse ele.
- A praia já era, né?
- Creio que sim Gi. Desculpe.
Dormiram.
Foram despertados por batidas na janela. Ambos pularam de suto, e no que parecia ser uma
pessoa batendo, era na verdade um cachorro. Sim, aquele cachorro que sujou os sapatos de
Kléber e que quase fora assassinado a mando de Gisele. Ele estava com as patinhas
arranhando o vidro do carro.
- Eu disse para mata-lo. - Falou Gisele. - Assim como fizemos com aquele outro na Augusta.
Odiei aquele só de botar o olho. O fedelho não parava de latir.
- Ou aquele gato, o da senhora Vanuza do 33B. Até hoje pensam que ele caiu da janela. -
Proferiu Kléber, rindo ao lembrar do ocorrido.
- Sim. Foi tão bom passar os pneus por cima daquele bichento imundo que não calava a boca
durante a noite. O que vai fazer? Que horas são?
- Quinze para às sete. Bom... ele está com uma carinha feliz. Talvez não conseguiu aguentar e
teve que descarregar suas nojeiras no prédio mesmo. Deixa eu abrir a porta.
Fez isso e a porta escancarou-se. O que aconteceu em seguida fora mais nojento do que a
pisada na m***a do dia anterior. O cachorro ergue-se em duas patas e começou a fazer xixi
nos dois. Kléber fechou a porta rapidamente, deixando o cão latindo do lado de fora.
- Filho de uma...
- O desagrado mijou na gente! Que nojo Kléber! m***a, m***a, m***a! Destrave a p***a dessa
porta.
Gisele saiu do carro bufando de fúria, assim como o marido; o cachorro ainda estava parado,
encarando os dois e latindo incessantemente. Gisele continuou indo para cima do animal,
tentou pega-lo pelo pescoço, porém a cão a atacou com mordidas, aí, foi quando Kléber o
espancou com um pedaço de tronco. O animal deitou na hora; seus latidos cessaram e os
gemidos de dor começaram.
- Não tem ninguém. Acabe com o sofrimento dele logo. - Mandou a mulher.
Sem hesitar, Kléber abaixou o pedaço de madeira sete vezes no corpo e cabeça do cachorro;
deixou o animal sem um dos olhos e extremamente mole com praticamente todos os ossos
quebrados. O casal carregou o corpo usando luvas feitas de sacolas e o jogaram na floresta.
- Menos uma aberração no mundo. - Disse Gisele. E decidida, tomou coragem para encarar
aquele matagal.
- Acho que devemos tentar encontrar alguém para nos ajudar. Estou faminta e com sede.
Pessoas devem passear por essa floresta. Olhe, tem uma trilha.
O marido concordou com ela e juntos adentraram a floresta, seguindo a trilha para ver se
conseguiam ajuda.
Caminhando, Kléber questionou a esposa:
- Não seria mais fácil voltar a pé para casa, querida?
- Sim, seria, mas assim estaríamos mais longe do carro. E eu não gostaria de deixar o meu
bebê aqui para alguém rouba-lo. Fique tranquilo, amor. Daqui a pouco acharemos alguém.
Contudo, naquela floresta estranha e com cheiro de maconha, o casal realmente encontrou
alguém, entretanto prefeririam não ter encontrado.
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Corey não tinha nojo, medo de certas coisas ou receio. A morte era uma espécie de dádiva ou
apenas uma espécie, livre para definições. A vida não era vivida, mas sim corrida, e quanto
mais pessoas Corey fizesse parar de correr mais vontade e menos cansaço ele adquiria. O
assustador era além do verde diante de seus olhos; todas aquelas casas de família onde
coisas aconteciam, sim, coisas diferentes e positivas, porém, acredite, é possível apenas
ocorrer tragédias e sofrimento dentro de um apartamento de quatro paredes também.
Entretanto, às vezes, não era claro a razão pela qual as pessoas faziam o que faziam. Elas
apenas faziam. Por um momento da vida na infância? Por um momento da vida vivida neste
momento? Sim e não, ou, apenas faziam; é mais fácil de se apropriar dentro do pensamento de
diferentes tipos de pessoas.
Primeiro Corey encontrou a filha perdida brincando com a árvore; pegou-a pelo pescoço a
apertou-o até a garota desmaiar. Depois, carregando a menina pela barriga, arrastando seus
cabelos no chão de barro da mata, encontrou o pai; um homem baixo, calvo e muito assustado
por não estar encontrando a filha. Quando ele viu Corey a carregando, o pavor sumiu por, no
máximo, quatro segundos. Sua filha estava viva, mas ela estava desmaiada nos braços de uma
pessoa com um peixe enorme e h******l na cabeça.
- Quem... quem é você? - Perguntou o homem, com seus lábios tremendo.
O peixe aproximou-se e continuou aproximando-se do senhor, tal dando passos quase
desesperados para trás, então, Corey segurou o pai da garota pelo pescoço e apertou. A voz
do moço não era mais ouvida, seus olhos esbugalharam-se, as veias de sua testa estavam
quase explodindo...
- Meu bom Deus... - Exclamou Gisele.
- Para trás, querida! - Advertiu Kléber, puxando a esposa para o seu lado. - Quem fez isso?
- Eu... eu não sei.
- A gente deveria ir embora. Agora. Chamar a polícia.
- Kléber... Olhe o pescoço dele. Jesus... parece que a cabeça quase foi arrancada com...
- As mãos. - Completou Kléber. - A gente precisa sair daqui e relatar para alguma autoridade
que uma pessoa foi violentamente assassinada aqui.
Gisele, que não conseguia tirar os olhos daquele homem morto, disse, alarmada:
- Amor, isso foi agora há pouco.
- O que?
- Olha o sangue na árvore ainda fresco e pingando. Eu não sou detetive nem nada, mas acho
que isso ocorreu há uns cinco ou dez minutos antes de chegarmos aqui.
Kléber virou a esposa para si, encarando-a seriamente. Falou:
- A gente precisa sair daqui.
Tarde demais.
Viraram-se juntos para voltar o caminho que tinham feita pela trilha, porém, deram de cara com
um horrendo peixe.
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- Eu não sei porque insistem.
Era uma voz com certeza. Gisele havia acordado há uns três minutos. Estava completamente
apavorada. Ela se encontrava dentro de um grande tubo cheio d’água; seus pés não batiam no
chão, mas estava muito bem acorrentada, apenas com a cabeça para fora da água. Não
conseguia enxergar Kléber em lugar algum, o que a deixou ainda mais angustiada.
- Eu preciso contar para eles. É a minha regra antes do ritual.
(A criatura?) horrorosa que sequestrou o casal estava em frente a uma mesa, conversando
consigo mesmo. Gisele observava, sem saber o que fazer ou o que falar. Sentia muito frio
coberta por toda aquela água.
- Por favor... estou com muito frio. Quem é você? - Tentou ela, com uma voz baixa em direção
a cara de peixe.
- Papai, vamos lá mais uma vez. - Continuou Corey, ignorando a voz de Gisele, que começou
a chorar com o som daquela voz abafada e indistinguível, dentro daquele ambiente indesejado.
Corey, finalmente, encarou a moça e algo ao lado do tubo dela. Era o homem, Kléber, também
acorrentado debaixo d’água.
- Não faço isso por que ele quer. - Começou Corey. - Faço por causa do que ele me disse. No
dia 14 de agosto de 2015, uma sexta-feira, ele prometeu para nós... prometeu que Iríamos
pegar o maior peixe do lago; mas era tudo mentira! Ele já tinha cuidado de mamãe, e como eu
já era considerado ‘doente’’ por aquela família, e principalmente por ele, o único problema seria
minha doce irmãzinha... ele nem a amava ainda. Tinha apenas onze meses de vida, mas
queria leva-la para ver os peixinhos dentro do lago, ele dissera. Eu não sei o que ele queria,
mas ele fez o que fez. Quando ele afogou minha irmã, e vi a vida esvaindo-se de seus
olhinhos, eu mudei. Fui obrigado a mudar. Eu consegui o enforcar com minhas próprias mãos
depois. Aqui mesmo, nesta casa. Eu adorava peixinhos. Mas quando eu pus minhas mãos em
seu pescoço, ele disse-me a verdade que eu não queria ouvir, mas a m***a da culpa é minha!
Eu quis perguntar. “Nós não íamos pescar? ” “Os peixes já estão extintos". Tudo veio a minha
cabeça.
Onde está minha família?
O que há de errado comigo?
O que eu fiz?
Tudo estava acabado, extinto para mim.
NÃO!
Os peixes estavam extintos! Essa é a mais pura verdade.
Mas já estou cuidando disso; ninguém pode invadir meu lago! Estou reabitando ele. Ninguém
vai m***r meus peixinhos. Ninguém! Porém alguns, os escolhidos, podem ter a honra de fazer
parte de meu lago. E vocês - apontou para Kléber e Gisele - terão esta grande regalia.
Corey deixou o casal desacordado mais uma vez. Dessa vez Kléber e Gisele estavam juntos
em uma pequena sala, mais que parecia um consultório de dentista; ambos acordaram juntos.
Kléber recuperou os sentidos mais rápido e claramente. Ergueu a cabeça e olhou para o lado.
Sua esposa ainda estava tentando acordar. Iria chamar o nome dela para ajudar, mas seu
olhar desviou-se da face da mulher e se achou nas pernas dela, tais que não estavam mais lá.
O marido percebeu que tanto ele quanto a mulher estavam sentados em cadeiras de rodas; os
dois sem as duas pernas, apenas com esparadrapos ensanguentados enrolados na altura do
que tinha sobrado das coxas. Kléber desesperou-se, chorou e gritou. Gisele finalmente
acordara.
- O que está havendo? - Quis saber ela, ainda grogue.
- Amor... me desculpe.
Kléber tentou falar mais, entretanto, Corey aparecera no recinto, ainda usando aquela máscara
de peixe medonha, e se direcionou para o casal. Primeiro Corey levou Gisele e depois voltou
para pegar Kléber. O casal estava começando a ficar sem voz e sem forças de tanto se
esforçarem para escaparem dali, para aceitar a situação na qual se encontravam.
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O choro de Gisele não parava. Seu marido hibernava em um silêncio continuo e perturbador,
apenas tentando abafar em seus pensamentos os gritos da esposa e, com seus olhos
fechados, procurando um meio de pedir para Deus leva-los dali. Ambos estavam deitados em
uma maca de ferro gelado, muito fracos para se remexerem ou tentar algo. A dor na parte da
cintura estava já excruciante, e quando Corey retirou os esparadrapos da perna deles para
mexer nos ferimentos, para fazer algo que nem dor ou choro deixavam Kléber e Gisele
compreenderem, a morte era praticamente certa dentro daquele recinto de terror.
Havia um barulho constante de água ali dentro.
- A companhia já chegará queridinha. - Corey proferiu. Estava com suas mãos cheias de
sangue, caminhando de um lado para o outro, tentando finalizar seu trabalho com aquele casal,
porém, nem o homem e muito menos a mulher ficavam quietos.
- Bom, seus agitados
- disse ele
- acho que terão que dormir um pouquinho para se acalmarem.
O casal fora adormecido mais uma vez, com aquele barulho de água sendo remexida
constantemente em seus ouvidos.
Acordaram pela última vez antes do mergulho.
Perceberam que a maca na qual se encontravam estava agora de pé. Seus braços e pescoços
amarrados, assim como a cintura. Gisele olhara para baixo e não acreditou no que viu; vomitou
na mesma hora.
Abaixo do casal um grande piscinão encontrava-se; era enorme e estava até a boca de água.
Era um grande aquário; e ali dentro, uma coisa, criatura, pensou Gisele à primeira vista,
habitava o grande buraco.
Kléber acordara, e assim como sua esposa, chocou-se ao deparar-se com um enorme peixe
(ou era um golfinho?) abaixo de seu nariz. Entretanto, aquilo não era peixe.
- Jesus amado! - Exclamou Kléber.
Era uma garotinha. Seu corpo era acinzentado e muito gordo; as escamas e calda triangular
agitavam-se ao que o rostinho desesperado e assustador da jovem moça tentava com todos
seus esforços manter-se acima daquela quantidade de água. Parecia, Kléber percebera, que
aquele nojento corpo a carregava e a sustentava quando a menina afundava. Era
extremamente agoniante assistir aquilo.
Gisele voltou a si e logo concluiu que não conseguia se mexer. Estava sentindo-se
completamente estranha, úmida, fedida e quente. Virou o rosto para o marido e começou a
chorar.
- Amor... querida... eu sinto muito. - Consolou-a seu marido.
- Bom, eu sinto muito. - Disse Corey, vindo de trás. - Vocês perderam muito; as pernas foram
facílimas, mas os braços... a moça aqui quase acorda no meio da serragem do esquerdo.
Mas... vocês estão final mente prontos. Poderão aproveitar um pouco da aguinha agora;
poderão respirar e, quem sabe, aprender algo... ou não.
- Kléber - começou Gisele, sem qualquer sentido de vida expresso em sua voz enquanto
Corey desamarrava-os das macas - não sinto mais nada... mais nada...
- Como assim não sente mais nada? Eu lhes dei uma bela cauda e uma pele dificílima de
encontrar no mercado! Vocês podem sentir tudo se se permitirem. - Disse Corey, e logo em
seguida empurrou Kléber e Gisele para dentro d'água; observou suas três crias aprendendo a
nadar, pulando e jogando-lhe água nas canelas. O cheiro de sua máscara era realmente
reconfortante, e com aquela visão, aquela sensação, era como ter um o*****o de tão
- Meus maravilhosos peixinhos!