Ele atravessou a estrada de terra e entrou no meio das árvores. Elizabeth andou, olhando, para onde o índio entrara, acelerou o passo, pegou mais firme na a**a.
- Ouro? Não posso acreditar, ele deve estar enganado.
O sol se punha mais rápido, a noite chegava. Elizabeth andava rápido, mas já estava cansada, passou a andar mais devagar. Suas pernas começavam a latejar, seu machucado na canela começava a doer um pouco, tinha parado de doer, mas agora voltava, embora com pouca intensidade, mas o suficiente para ela andar mais devagar. A noite caía, tudo ficava escuro, as árvores e o mato alto de dia não assustavam, mas a noite começava a assustar. Pior, não havia iluminação. Nenhum carro passava no lugar. A noite caía mais, ficava mais escuro. Elizabeth pegou seu celular e usou um aplicativo de lanterna para ver melhor. Continuou andando, com medo que algo saísse das árvores, mas ia tudo bem. Aos poucos ela saía da parte da estrada que estava com árvores para chegar a que tinha as margens limpas, com mato curto.
- Estou chegando, disse ela.
Ao longe Elizabeth via as luzes do casarão. Ela tinha deixado as luzes ligadas. Animou-se, andou um pouco mais rápido, embora as pernas latejassem um pouco mais. Ao chegar perto do casarão notou um vulto mexendo-se em um dos quartos.
- d***a, o que é aquilo? Um fantasma ou, pior, um ladrão.
Elizabeth parou. Ficou observando um pouco, guardou o celular no bolso, colocou o cano da espingarda na mão esquerda enquanto colocava o dedo da mão direita no gatilho. Temeu entrar, mas resolveu ir. A a**a lhe dava mais coragem. Foi devagar observando a janela onde tinha visto o vulto, agora sem ver mais nada, só a luz do quarto acesa. Subiu as escadas da frente, tentou abrir a porta da frente, estava aberta.
- Mas deixei trancada, eu tenho certeza, disse ela, falando baixo.
Entrou. A luz do salão estava acesa, embora fraca, pois o gerador não era tão potente, mas nada com que ela já não estivesse acostumada naquela casa. Observou em cima da escada principal, olhou para os lados, com medo, tremeu um pouco, mas pegou a espingarda com mais firmeza. Foi subindo a escada, devagar, degrau por degrau, sempre olhando para o lado esquerdo em cima da escada, pois era desse lado que estava o quarto onde tinha visto o vulto. Continuou subindo, subindo, subindo e... tropeçou, caindo de frente, quase fazendo a a**a disparar. O tropeço não fez muito barulho, levantou-se rápido, a saia n***a suja de terra, estava chegando perto do topo da escada, no corredor que leva aos quartos. Tentou olhar melhor com a cabeça até que...
- Oi menina.
Elizabeth assustou-se.
- Não atire, sou eu.
Era o mordomo Álvaro Lopes.
- Calma.
- O que faz aqui? Diz Elizabeth.
- Desculpe, eu vim buscar umas coisas que eu tinha esquecido, bati na porta, ninguém atendeu, notei que a porta estava aberta, chamei alguém aqui e ninguém disse nada e aí eu vim aqui, esse era meu quarto.
- Ah sim.
O mordomo entrou no quarto, pegou um pequeno saco com suas coisas. Elizabeth o temeu, ficou de longe com a espingarda em punho, pronta para atirar.
- Bom, peguei tudo, está tudo bem?
- Sim, disse ela. Quero te perguntar algo, você disse que essa casa era estranha, estranha como?
- Bom, disse o mordomo. Já vi coisas aqui meio esquisitas acontecendo, mas se eu disser para você o que é, você não vai acreditar.
- Talvez eu acredite sim.
- Bom já vou indo, fique bem.
- Antes de ir eu quero lhe perguntar algo, disse Elizabeth, ainda meio afastada do mordomo.
- Sim, a v*****e.
-Encontrei com alguém, por assim dizer, que me disse que aqui tinha ou tem uma mina de ouro, aqui nas terras dessa fazenda.
- Bobagem do povo, são lendas que correm, essa fazenda está aqui há décadas, eu trabalhei aqui por muitos anos, te asseguro que aqui a única coisa de valor é esse casarão, que por estar no meio do nada, talvez não valha tanto assim.
- Bom saber, obrigada.
O mordomo desceu a escada com Elizabeth seguindo-o de longe, ele abriu a porta e desceu as escadas para ir a um carro que estava mais afastado. Elizabeth fechou a porta, trancou, e o ficou observando pela janela do lado, até que o mordomo entrasse no carro, ascendesse o farol dele, desse meia volta e fosse embora. Elizabeth subiu a escada, foi até o quarto onde o mordomo estava, deixou a a**a na cama, uma cama parecida com a sua, abriu os armários, as gavetas da penteadeira, abriu a primeira, a segundo e quando abriu a terceira... estava lá a caixa de balas que ela tinha perdido. Assustou-se.
- O que essa caixa faz aqui? Diz ela pegando a caixa.
Estava com as 7 balas dentro, ela olhou no espelho da penteadeira e percebeu algo atrás dela, olhou para trás rápido e não viu nada, olhou para o espelho e também não viu nada, olhou para trás de novo e nada viu.
- Deve ser a minha imaginação, essa casa assusta a gente.
Ao sair, ela nota algo atrás da penteadeira. Parece uma grande moldura. Ela tenta arrastar a penteadeira mais para frente. Mas era difícil. A penteadeira era de madeira nobre, com um grande espelho que também pesava muito, mas ela não arrastou muito. Só o suficiente para ver o que estava atrás. Ela pegou. Era um grande quadro. De um homem de meia idade.
- Quem será ele? Perguntou Elizabeth.
O homem estava de terno preto e calça preta. Estava sério, sentado em um sofá pequeno, daqueles que parecem cadeira com encostos para os braços. Estava com o corpo meio de lado, à direita, mas a cabeça e o rosto virados para o centro, como se observasse fora do quadro. Elizabeth olhou, vi algo no canto, era um nome. Era uma assinatura. W.S., possivelmente do pintor do quadro. Pintores deixam sempre a sua assinatura em quadros. Mas no meio, em uma pequena moldura, abaixo da imagem estava um nome em letras garrafais. Ela m*l acreditou: HENRY CAVENDISH. Elizabeth pegou o quadro. Era grande, mas ela ficou observando-o. Encostou na cama, foi até a penteadeira e o arrastou, colocando-a no lugar onde estava, mais para perto da parede. Observou o quadro. Imaginou sua vida. Estava de pé. Ao lado da penteadeira. Ficou triste, quase chorando.
- Será esse o meu pai, do qual herdei tudo isso? Por que ele me abandonou lá, naquele orfanato, por que não me criou aqui, e a minha mãe, quem será? Perguntou ela, com voz baixa observando o quadro.
Ela foi até o quadro, observou-o mais de perto, acariciou o rosto que estava no quadro, se afastou um pouco, foi até a penteadeira, arrastou-a para a frente com dificuldade, foi até a cama, pegou o quadro e o colocou de volta, arrastando a penteadeira de volta.
- Melhor você ficar aí, diz Elizabeth. Essa herança só me trouxe sofrimento.
Saiu, trancou o quarto que foi do mordomo, foi até o seu quarto, estava destrancando a porta do seu quarto, quando lembrou que tinha deixado a espingarda na cama, no outro quarto. Voltou, pegou a espingarda e lembrou-se que tinha trancado aquele quarto.
- Espere, disse ela. Antes de sair eu tranquei esse quarto, como ele entrou aqui? Será que ele tinha a chave, então ele tem a chave da porta da casa também, então eu não deixei aberta, ele mentiu. Mas por que mentiria?
Elizabeth pegou a espingarda, trancou a porta do quarto, foi até o seu, entrou, trancou a porta e foi tomar banho, deixando a espingarda em um canto visível e a porta aberta. Ela tinha acabado de tomar banho quando, de repente, ouviu um barulho... Era o som de alguém tentando abrir a porta do seu quarto, tentando abrir a maçaneta. Assustou-se, estava só de toalha, sua roupa estava na mala encostada na cama. Devido a sua situação ficou com mais medo ainda. Olhou e viu a maçaneta da porta se mexendo. Era aquelas maçanetas antigas, de cabo. Não pensou duas vezes, pegou a espingarda e atirou contra a porta, perto da maçaneta. A força da a**a a empurrou para trás. A bala quebrou parte da porta. A maçaneta parou de se mover. Ela foi na mala, meio com medo, sempre observando a porta, colocou uma roupa, uma saia branca grande e uma camisa de manga comprida também branca, era basicamente o que tinha. Colocou rápido, com medo. Sempre olhando para a porta. Teve medo de chegar na porta, calçou meia e tênis. Ainda observava a porta. Levantou-se, chegou perto, tentou observar pelo buraco que o tiro fez, foi devagar, observou meio ao longe e... notou um vulto caído. Assustou-se e se afastou. Quando ela fez isso, escutou alguém correndo no corredor, passos de sapato, fortes, foi correndo pegar a espingarda, tentou destrancar a porta, abriu e não viu ninguém.
- Atirei em alguém? Perguntou ela.
Observou o chão, não tinha nada, sangue ou qualquer outra coisa. Voltou para o quarto e trancou a porta. Sentou-se na cama, tentou ver a a**a, como ela funcionava, para colocar mais balas nela, pois temia que as balas da espingarda tivessem acabado. Tentou abrir, mas não conseguiu. Ouviu passos, dessa vez em cima do seu quarto, no andar de cima.
- Vou lá, vou terminar com esse negócio, disse ela já com certa raiva.
Pegou a espingarda, destrancou a porta e foi rápido para o fim do corredor, que tinha uma janela, olhou rápido pela janela, mas só viu escuridão lá fora, subiu a escada, dessa vez com certa velocidade e entrou no quarto de cima, que estava em cima do seu. Notou que a porta estava trancada. Notou passos de sapato de novo, dentro do quarto. Ela chegou no canto da porta e disse:
- QUEM ESTÁ AÍ DENTRO? EU VOU ATIRAR, disse em tom de voz alto.
Ninguém respondeu.
- Entro aí ou não? Pensou ela, temerosa, mas ainda com raiva. Tenho que entrar senão não vou ter paz.
Colocou uma das chaves na fechadura, tentou abrir, mas não deu, tentou outra chave, também não abriu. Lá dentro, silêncio total. Teve medo de que alguém lá dentro atirasse na porta como ela fez antes. Se afastou, foi para a frente, encostada na parede, do lado direito da fechadura. Com a mão esquerda tentou colocar outra chave na fechadura, mas tinha dificuldades, pois não era sua mão boa, mas deu certo, fez força e a porta abriu. Empurrou um pouco, a porta fez um rangido. Tentou olhar para dentro do quarto, a luz estava ligada, mas sem muita força, não iluminava bem o ambiente, como toda a casa. Colocou a a**a em punho, o cabo na mão esquerda e o dedo no gatilho. Entrou. O modelo era igualzinho ao do seu quarto e o quarto do mordomo. Cama com igual estilo, armário e penteadeira. Modelos iguaizinhos. Era tudo padronizado. Mas esse quarto não tinha banheiro. Ficou um pouco na porta, mas não teve coragem de entrar mais. Voltou e trancou a porta.
- Não tem ninguém aqui, disse ela.
Voltou, desceu a escada lateral que dava para o andar de cima, e chegou ao corredor que estava o seu quarto. Corredor meio escuro, as luzes eram fracas, não iluminavam bem. Olhou para cima, esperou um pouco para ver se tinha mais barulho. Nada. Foi até seu quarto e trancou a porta. Pensou um pouco e se arrependeu de ter ido àquela mansão.
- Não tenho nada, não sei mexer nisso aqui, tudo aqui é estranho, nem vender essa casa eu posso, sou de menor, se o Fisto estivesse aqui seria mais fácil, mas cadê ele, sumiço estranho.
Ela foi a sua janela e notou que o carro de Fisto, o que tinha trazido eles para cá ainda estava lá fora.
- Eu acho que eu devia chamar a polícia, mas nem sei como. Será que aquele número 190, funciona aqui?
Ela pegou o celular, discou 190 e nada, não deu linha.
- Estou sozinha, só eu e Deus. E essa espingarda que eu nem sei se tem balas ou não.
Elizabeth tentou de novo, tentou achar onde coloca balas na a**a, onde ele abre, mas não conseguiu. Deitou na cama pensando na vida, mas acabou adormecendo. Acordou com uma voz.
- SAIA DA MINHA CASA, VOCÊ NÃO É MINHA FILHA!!!
Assustou-se.
- Que voz é essa?
- VOCÊ NÃO É A MINHA HERDEIRA!!!
Elizabeth levantou-se assustada, pegou a espingarda, destrancou e abriu a porta, parando na frente dela, no corredor.
- IMPOSTORA, VOCÊ NÃO É MINHA FILHA!!!! ESSA CASA NÃO É SUA.
Elizabeth assustou-se mais. Imaginou ser a voz do dono do casarão, Henry Cavendish. Pegou a a**a em punho e saiu pelo corredor, olhando os quartos, mas a voz parecia não vir de lugar nenhum.
- SAIA DAQUI!!!
As luzes começaram a piscar.
- Está bem, eu saio, diz Elizabeth. Não quero mais ficar aqui.
Ela correu para o quarto. Trancou-se, olhou para fora, pela janela, mas só havia escuridão, voltou para a cama, ficando em pé perto dela e pegou mais firme na a**a.
- VOCÊ NÃO É MINHA HERDEIRA, NADA AQUI TE PERTENCE!!!
De repente, uma pedra é atirada no quarto, quebra a janela e cai perto da porta. Ela pensou em ir à janela, mas outra pedra é atirada, dessa vez um pouco maior, quebrando de novo o vidro. Ela achou perigoso chegar perto. Outra pedra quebra a janela e cai perto da porta. Uma outra pedra é atirada, mas essa erra o vidro, só fazendo barulho.
- Vou para outro quarto, diz Elizabeth, mais assustada.
Ela corre, destranca a porta e vai correndo, para o quarto que era do mordomo.
- Vou ligar para aquele advogado, desisto, não quero mais essa casa.
Ela, no entanto, havia deixado o celular, no seu quarto. Ao sair do quarto onde estava, ficou na frente da escada que dá para o salão, olhou para baixo, mas nada ocorreu. Voltou devagar para o quarto de onde tinha saído, temia que alguma pedra a atingisse. Mas não veio mais, ela pegou o celular que estava na cama, olhou a janela de longe, quebrada e voltou para o outro quarto trancando a porta, deixando a porta do quarto que tinha saído aberta. As vozes pararam. Ela ficou apreensiva, segurando a a**a. Pegou o celular, era 23:46 da noite. Achou que o advogado estava dormindo, mas resolveu ligar ainda assim. Ela ligou, depois de três toques, alguém atendeu.
- Alô, diz a voz do outro lado da linha.
- Alô, sou eu Elizabeth. Te acordei?
- Olá, herdeira, não, não me acordou não.
- É sobre ser herdeira, acho que não quero mais, aqui está r**m, não tem jeito de eu vender essa casa, quero sair daqui?
Elizabeth não quis contar sobre as vozes nem o que havia ocorrido no casarão, temendo não ser acreditada. Sem perguntar nada, o advogado afirma:
- Basta assinar aqueles papéis que eu tinha mostrado a você e seus problemas se resolverão. São exatamente papéis para a venda do imóvel.
Quando Elizabeth ia dizer que iria dessa vez assiná-los, uma voz surge:
- NÃO ASSINEEE!!!
Elizabeth percebeu que o tom dessa voz era diferente dos anteriores, parecia ser outra pessoa, outra voz, e estranhou.
- Alô, Elizabeth, está aí? Perguntou o advogado.
- Depois eu ligo, disse ela. Vou ver algo aqui.
Ela desligou. Pensou um pouco. Percebeu algo estranho. Da primeira vez que o advogado queria que ela assinasse os papéis disse que era apenas uma burocracia para que ela herdasse tudo, mas agora disse que era para vender o imóvel. Ela estranhou, mas também, imaginou, pode ser confusão do advogado, está tarde, ele devia estar com sono. Elizabeth esperou meia hora, uma hora, uma hora e meia, duas horas, espingarda em punho, as vozes não voltavam. Na cama onde estava começou a relaxar, o sono veio e dessa vez dormiu até de manhã.
Era de manhã, Elizabeth acordou, mas havia dormido um pouco m*l. A espingarda estava do lado da sua cama, mas ela, meio sonolenta, a esqueceu. Sem lavar o rosto ou qualquer outra coisa destrancou a porta, saiu do quarto, trancou a porta de novo e desceu as escadas que levam ao salão principal. Meio com fome foi à cozinha. Na pia, olhou pela janela, estava chovendo, embora fosse uma chuva fraca. Quando ela se vira dá de cara com o mordomo Álvaro Lopes. Esse estava de sapato, um pouco sujo de lama devido à chuva, calça jeans azul e camisa preta, normal.
- Oi, esqueceu mais alguma coisa? Disse Elizabeth, meio assustada.
- Chega de sutileza, disse o mordomo.
Elizabeth assustou-se, mas assustou-se mais quando percebeu que não trouxe sua espingarda consigo.
- Não estou entendendo, disse ela.
- Você vai entender. Doutor Adolfo, venha aqui.
Era o advogado Adolfo Perez, vestido de terno cinza, com os sapatos meio enlameados.
- Vou te explicar. Nós inventamos você. Nós inventamos Elizabeth Cavendish Stanton, disse advogado chegando na cozinha.
Elizabeth surpreende-se.
- Como assim?
- Não se lembra? Diz o advogado. Você recebeu uma certidão de nascimento e um CPF com esse nome. Esse era o nome da falecida filha do dono de tudo isso aqui. Era esse o nome que ele colocou para herdar essa fazenda, esse casarão, tudo o que está nesse terreno. Mas havia um problema. Não existia ninguém com esse nome. Não existia uma Elizabeth Cavendish Stanton. Ela estava morta. Segundo a legislação brasileira quando alguém morre sem herdeiros tudo o que ele possuía vai para a prefeitura do local onde ele morava ou para o governo federal, nunca para o governo estadual. Para sabermos quem ficará com a herança devemos saber que existe um testamento válido. Nesse caso existiu, mas o testador, o que fez o testamento, deixou a sua herança para a sua filha, que não mais está aqui para reclamá-la. Nesse caso, metade dos bens devem ir para algum parente próximo, descendentes, como filhos ou netos e assim por diante. Se não os tiver deve ir para o cônjuge, se fosse casado, marido ou esposa. Se não tivesse ninguém tudo irá para o ascendente direto, como pai, mãe, avô, avó e por aí vai. É assim, vou explicar melhor. Primeiro deixa-se para o cônjuge e descendentes do falecido, filhos, principalmente, reconhecidos ou não, adotados também tem direitos iguais, mas só adotados legalmente. Se não houver descendentes, os bens ficarão para o cônjuge e os ascendentes do morto (pai, mãe, e por aí vai). Se não houver ascendentes, o cônjuge (marido ou esposa) fica com tudo. Se não houver cônjuge, os irmãos é que vão herdar. Se não houver irmãos, os sobrinhos herdarão. E se não houver sobrinhos, os tios do morto herdarão. O velho Cavendish não tinha nada disso. Ele também poderia passar os seus bens a alguém que não fosse parente, alguma pessoa física ou jurídica, deveria ser o nosso amigo aqui, o senhor Álvaro Lopes, mas infelizmente ele foi preterido.
O mordomo faz um cara de raiva, enquanto Elizabeth, assustada, escuta tudo.
- Então, continua o advogado. Quando é assim, tudo o que o falecido tinha passa para o governo, no caso, a prefeitura que ele morava, a comarca da cidade, isso se não aparecer ninguém reclamando a herança em um prazo de cinco anos, nenhum parente próximo. Pode ir até para o governo federal, mas interessante, nunca para nenhum estado, governo estadual, só prefeitura ou governo federal.
- Mas o que tudo isso tem a ver comigo? Pergunta Elizabeth ainda assustada.
- Simples, disse o advogado. Precisávamos de um herdeiro, alguém que herdasse tudo isso aqui, precisávamos, mas o velho não tinha ninguém e não tinha deixado a sua fortuna para ninguém, então tivemos que inventar você, como eu disse, tivemos que criar uma Elizabeth Cavendish Stanton, alguém que herdasse tudo, uma filha para o velho, tivemos que ressuscitar a filha dele. Você foi a escolhida.
- Mas com me acharam? Por que eu? Diz Elizabeth, mais assustada com toda a história.
- Fácil, continua o advogado. Eu forjei seus documentos, um suborno aqui, uma ajuda ali, e você ressuscitou, precisávamos de um órfão, alguém que não tivesse documentos, mas não podia ser qualquer órfão. Esse nome Elizabeth já deveria ter existido, para que a validade dos documentos não fosse contestada. Deveria haver alguma Elizabeth por aí, perdida, que reclamasse tudo. Já estávamos desistindo, quando descobrimos que o velho doava frequentemente dinheiro a uma instituição, a um orfanato, dirigido por freiras. Examinamos o orfanato e descobrimos uma Elizabeth, você, era jovem, tinha apenas 16 anos, mas servia, aí inventamos tudo, mandamos os documentos para você e você veio reclamar a sua herança. Eu cuidei de tudo.
- Mas vocês não ganham nada com isso, por que fazer tudo isso? Diz Elizabeth.
- Simples, diz dessa vez o mordomo Álvaro Lopes. Você é de menor, tem menos de 18, pode herdar tudo, mas só quando fizer 18 anos é que pode usufruir totalmente dos bens que lhe foram deixados. Mas para isso você precisa de um tutor, alguém que cuide de sua herança enquanto você não completa 18 anos. E esse tutor, seria eu. Era só você assinar alguns documentos, e tudo que é seu passaria para mim, mas, claro, eu me desfaria de tudo, venderia tudo, antes que você fizesse os 18 anos. Mas para que você assinasse, você tinha que querer ir embora daqui, deveria se desfazer da sua herança, por isso inventamos tudo, os fantasmas, os sustos, tudo invenção. Tudo feito para que você desistisse disso tudo e passasse tudo para mim. Lembra-se? Quando você estava lá fora com aquela espingarda e ouviu uma madeira quebrando? Era eu tentando te assustar. A pedra que quebrou a sua vidraça, fui eu que joguei, o vulto que você via era eu, tudo feito por mim.
- Você tem as chaves da casa, eu sabia, aquele dia que eu te peguei aqui e você disse que eu tinha deixado tudo aberto, era mentira, você tinha as chaves e ainda as tem, por isso entrou aqui agora, diz Elizabeth.
- Exato, eu menti, por que eu achei que você pediria de volta. Eu não vim buscar nada. Eu vim assustar você, fui no seu quarto, peguei a caixa de balas e coloquei no quarto que era meu, na gaveta, mas você achou. Agora...
O mordomo pega um revólver, calibre 38 e aponta para Elizabeth, que se assusta mais.
- Chega de conversa. Você vai assinar esses documentos.
Ele os coloca sobre a mesa, perto de Elizabeth, mas esta lembrou-se da voz, de outro dia, que lhe havia dito para não assinar.
- Aquela voz n******e ser ele que criou, pensou Elizabeth.
- Não assinarei, disse ela. n******e atirar em mim, sem minha assinatura, nada acontece.
- Você vai assinar, disse agora o advogado, com tom forte. Assine, está tudo pronto, já está registrado em cartório o documento, o mordomo aqui será seu tutor e nós venderemos essa propriedade, esse casarão e a mina de ouro lá fora.
- Então tem uma mina de ouro aqui, me disseram a verdade, disse Elizabeth.
- Sim, disse o mordomo. Tudo será meu.
O advogado estranha tal frase.
- Calma amigo, nosso, combinamos meio a meio, disse o advogado.
- Verdade é? Disse o mordomo, com voz irônica.
Ele se afasta, aponta o r******r ao advogado que se assusta e... atira. Um tiro bem no peito. Elizabeth tem um susto rápido. O advogado cai morto.
- Você é louco, diz Elizabeth.
- Não, diz o mordomo Álvaro Lopes. Eu trabalhei durante anos nesse lugar, nesse fim de mundo, cuidando daquele velho, aguentando ele, e agora sairei sem nada? Não. Eu vou ter tudo. Agora assina, diz o mordomo apontando o revólver para ela.
Elizabeth chega perto dos papéis, mas não há caneta para assiná-los.
- Assinar com o que? Não tem nada para escrever aqui.
O mordomo se assusta. Percebeu que não trouxe caneta. Viu o corpo do advogado. Abaixou-se para vê-lo e disse:
- Vem aqui menina, veja se ele tem algo, uma caneta qualquer, anda....
Ele dá a volta na mesa, pega Elizabeth pelo braço de forma violenta e a joga perto do corpo.
- Examine os bolsos dele, diz o mordomo apontando a a**a para ela.
Ela tenta achar, nada acha.
- Pega a pasta dele, está ali no chão, abra e veja, diz o mordomo.
Ela pega a pasta e vê uma caneta. Assusta-se. Não quer assinar, ela se cala...
- Então, diz o mordomo, com voz ríspida. Tem caneta aí ou não?
Elizabeth pega a pasta com mão firme, mas quando ela examinava a pasta uma pedra, meio grande, é atirada de fora da casa, quebrando a janela na frente da pia e atingindo o mordomo Álvaro Lopes que quase cai no chão. Elizabeth vê a cena e joga a pasta longe para o lado e sai correndo para o salão. O mordomo se recupera, levantando-se e da porta atira em Elizabeth que subia as escadas. O tiro pega no corrimão bem perto dela. Elizabeth se lembra da espingarda que está no seu quarto, chega na porta do quarto tenta achar a chave certa, ela chega a colocar uma chave na fechadura, tenta destrancar, mas não sabe se conseguiu. No entanto ela houve passos de sapato subindo fortemente as escadas. Nervosa não consegue abrir a porta e sai correndo para o fundo do corredor, e sobe a escada lateral. O mordomo a vê subindo e dá outro tiro que pega na parede, perto dela, ela se assusta, mas sobe correndo as escadas. Lá fora a chuva engrossa um pouco. Ela chega no segundo andar, tenta abrir a porta do quarto que entrara antes, mas ouve de novo os passos. Assusta-se mais, percebe a janela grande que dá acesso ao telhado da frente, está aberta e ela sai por ela. Entra na chuva, se molha, então... Escorrega no telhado molhado, rola até fim, consegue agarrar-se na quina do telhando em algumas telhas e fica dependurada, só com os braços e a cabeça para cima com a chuva no seu rosto. O mordomo já havia chegado, examina os quartos, mas estão trancados, ele olha um pouco a janela e vê Elizabeth dependurada. Ele dá um tiro perto de Elizabeth. Ela se assusta. A altura é de 8 metros até a escada lá embaixo.
- Assine aqueles documentos, ou eu não vou errar mais.
- Não, eu sou Elizabeth Cavendish Stanton, diz ela.
- Deixa disso, você não é nada, você não é ninguém, nem nome você tem. Assine e você pode voltar ao orfanato de onde veio.
- Não, diz ela. Não devo, não posso, uma voz me disse para não assinar eu confio nela.
- Deixa de ser i****a. Tudo foi armação nossa.
Ele aponta a a**a para Elizabeth, vai atirar, mas... não tem mais balas.
- d***a, vou lá buscar essa menina. Ela vai assinar esse documento nem que seja na p*****a, diz o mordomo consigo próprio.
Ele deixa a a**a no chão, e sai pela janela. Ainda há chuva. Ele se equilibra, chega perto de onde Elizabeth está.
- Me dê a mão, vem para cima. Vou te levar até na cozinha e você assinará aqueles papéis. Eu não vou perder tudo.
- Nunca, diz ela. Não assinarei nada.
- Tudo bem, eu tentei. Você vai para baixo da pior maneira.
O mordomo chega mais perto para empurrá-la com os pés para que ela caísse no chão, mas de repente...
- Pode parar por aí amigo, diz uma voz, vinda da janela.
O mordomo se assusta, escorrega, rola e... cai. Cai perto de Elizabeth. Cai nas escadas lá embaixo. Morre instantaneamente.
- Quem disse isso? Diz Elizabeth, olhando, tentando olhar para cima, com o rosto encharcado de água. Se assusta. Devido à chuva em seu rosto tem dificuldade em observar a janela, mas ela nota... É Fisto.
- Você apareceu? Diz ela assustada.
- Sim, sou eu, apareci, diz Fisto, na janela.