Pré-visualização gratuita Prólogo
A primeira coisa que sinto é frio.
Não aquele frio comum, de janela aberta ou madrugada m*l dormida. É um frio que entra por baixo da pele, que se aloja entre os ossos e aperta devagar, como se alguma coisa invisível estivesse tentando me manter imóvel. Tento puxar ar, mas a respiração falha antes de chegar inteira. O ar está pesado demais. Quente demais. Espesso demais.
Cheira a fumaça, sangue e ferro.
Não é um cheiro distante, de coisa acontecendo longe de mim. Está em todo lugar. Grudado na minha pele, no fundo da garganta, dentro do nariz. Há também um gosto metálico na minha língua, como se eu tivesse mordido a própria boca ou respirado cinzas por tempo demais.
Ouço vozes antes de conseguir abrir os olhos.
Não há palavras. Não de imediato. Primeiro vêm os sons.
Gritos.
Passos correndo.
O estrondo de alguma coisa grande demais desabando.
Pedra se partindo.
Metal raspando em metal.
Um rugido tão brutal que sinto a vibração dele atravessar meu corpo antes mesmo de entender de onde veio.
Meu corpo.
Demoro um segundo inteiro para perceber que não estou de pé. Estou sendo carregada.
Há um braço firme ao redor de mim, me segurando contra um peito rígido e quente, como se quem me leva soubesse exatamente o que está fazendo e não tivesse a menor intenção de me deixar cair. Tento erguer a cabeça, mas tudo pesa. Minhas pálpebras. Minha língua. Meus dedos. Principalmente meus pensamentos.
Ainda assim, forço.
A cena diante de mim é um borrão de sombras e luzes violentas.
Há fogo em algum lugar. Muito fogo.
O clarão lambe as paredes de pedra de um corredor largo demais para ser humano, alto demais para ser acolhedor, bonito demais para estar sendo destruído daquele jeito. O teto parece infinito acima de nós, recortado por colunas e símbolos que não consigo entender. Tudo treme. Tudo geme. Tudo parece prestes a ceder.
O calor do incêndio bate de um lado do meu rosto.
Do outro, o ar corta frio.
É como se o próprio lugar estivesse se partindo ao meio.
— Mais rápido! — uma voz feminina grita em algum lugar à frente, atravessando o caos como uma lâmina.
A pessoa que me carrega não responde. Apenas me aperta mais forte.
Consigo ouvir o coração dela. Ou dele. Forte. Rápido. Descompassado. Não de medo — de urgência.
Há gente atrás de nós.
Eu não vejo com clareza, mas sinto.
Sinto o peso da perseguição no ar, como se a própria noite tivesse dentes e estivesse correndo na nossa direção. Há passos demais ecoando nas pedras. O som seco de alguém escorregando. Um baque s***o. O barulho de asas cortando o ar. O choque de lâminas. Um grito alto, tão carregado de dor que meu peito aperta em resposta, como se alguma parte enterrada de mim soubesse que quem o soltou acabou de perder alguma coisa que jamais vai recuperar.
Meu estômago afunda.
Alguma coisa está muito errada.
Muito errada.
— Não deixe que a levem! — alguém berra às nossas costas.
As palavras atravessam meu corpo como gelo.
Levanto a cabeça o suficiente para enxergar por cima do ombro de quem me carrega.
Vejo uma porta enorme escancarada no fim do corredor e, por trás dela, a noite
Não uma noite comum. Uma escuridão viva, engolindo tudo, como se o mundo terminasse logo depois daquelas pedras. Há árvores se curvando com o vento, uma tempestade se formando longe, e entre os relâmpagos consigo jurar que vejo alguma coisa imensa cruzando o céu.
Uma forma.
Uma criatura.
Ou talvez só minhas vistas falhando.
Então algo atinge a parede ao nosso lado.
A explosão de pedra e poeira me arranca um som rouco da garganta. Fragmentos cortam o ar, um deles raspa na minha perna, outro passa perto demais do meu rosto. O braço ao meu redor se fecha com tanta força que dói, mas prefiro a dor ao chão. Prefiro a dor à sensação h******l de que, se eu for solta agora, alguma coisa vai me encontrar.
Alguma coisa que já está me procurando.
— Não olhe para trás. — a voz que fala perto do meu ouvido é baixa, firme, e estranhamente calma no meio de todo esse inferno. — Não importa o que aconteça, não olhe para trás.
É claro que olho.
Não consigo me impedir.
E me arrependo no mesmo instante.
Há sangue por toda parte. Manchando as pedras claras. Escorrendo pelos degraus. Encharcando o chão sob corpos caídos perto de pilastras quebradas. O cheiro fica mais forte quando viro a cabeça, mais espesso, mais quente, quase insuportável. Há homens — ou o que deveriam ser homens — lutando no corredor. Alguns têm olhos que brilham de um jeito errado. Outros carregam armas longas demais, belas demais, mortais demais. Um deles levanta a cabeça e me vê.
Mesmo de longe, sinto o impacto.
Ele para.
Não por cansaço. Não por surpresa.
Por reconhecimento.
Meu estômago despenca de vez.
Ele abre a boca para dizer alguma coisa, mas antes que consiga, uma criatura n***a e enorme cai sobre ele como uma sombra viva. Vejo presas. Garras. Ouço o som grotesco de carne se rasgando. o estalo úmido de osso cedendo, o grito que não dura tempo suficiente para virar memória inteira.
Meu corpo inteiro se contrai.
Sei que deveria me sentir horrorizada. Talvez eu esteja. Mas, por baixo do medo, existe outra coisa. Uma sensação errada, profunda, quase instintiva.
Segurança.
Como se aquela violência não fosse para mim.
Como se fosse por mim.
A pessoa que me carrega finalmente alcança a porta aberta e atravessa a noite comigo nos braços. O impacto do ar é violento. O frio corta minha pele como lâmina, mas o calor do fogo ainda gruda em mim, criando uma sensação errada, sufocante, como se eu estivesse presa entre dois mundos que não deveriam coexistir. Minha respiração falha de novo. O ar aqui é úmido, pesado, carregado de terra e tempestade.
O céu está baixo demais.
Nuvens grossas se arrastam umas sobre as outras, como se estivessem vivas, pulsando com relâmpagos que rasgam o horizonte de forma irregular. A cada clarão, sombras enormes se projetam entre as árvores — altas, retorcidas, antigas demais.
O vento uiva.
Não é só vento.
Há algo dentro dele.
Corremos.
Corremos por entre as árvores.
Galhos batem contra o corpo de quem me segura, alguns estalam, outros arranham. Sinto folhas úmidas grudando na minha pele, o cheiro forte de terra revirada invadindo meu nariz, misturado ao sangue que ainda parece fresco demais ao meu redor. Algo quente escorre pela lateral do meu braço. Não sei se é meu.
Atrás de nós, o caos não ficou para trás.
Ainda ouço.
Passos.
Muitos.
Rápidos demais.
Pesados demais.
Próximos agora, mais frequentes, cortando o ar com violência suficiente para fazer o vento mudar de direção. Vozes ecoam, algumas distantes, outras perigosamente perto. Não consigo distinguir palavras. Só a intenção.
Meu coração bate errado. Muito rápido. Muito forte. Dolorido.
— Mais um pouco — a voz perto do meu ouvido diz, agora mais baixa, mais apertada, como se estivesse sendo esmagada pelo tempo.
Eu tento responder.
Quero perguntar.
Quero entender.
Mas minha garganta só produz um som fraco, quase inexistente.
Minha cabeça cai contra o peito de quem me carrega.
O coração dele — ou dela — ainda está lá. Forte. Descompassado. Vivo.
A única coisa estável em meio ao colapso.
Então algo muda.
Não é o som. Não é a luz. É o ar.
Ele fica mais pesado de repente, como se tivesse engrossado ao nosso redor. Minha pele arrepia inteira ao mesmo tempo. O frio muda de lugar. Não está mais fora.
Está dentro.
Desaceleramos. Então paramos bruscamente.
Abro os olhos com mais força, lutando contra o peso que insiste em me puxar de volta para dentro de mim.
Estamos numa clareira.
Estreita.
Fechada por árvores altas demais, antigas demais, com troncos largos o suficiente para esconder monstros atrás deles — e, nesse momento, tenho certeza de que há monstros ali.
O chão sob nós não é terra comum.
Há símbolos entalhados na pedra, linhas que brilham com uma luz prateada fraca, pulsando como veias expostas. O brilho não é constante. Pisca. Oscila. Falha.
Algo está errado ali.
Muito errado.
Sou colocada no chão com cuidado demais para o caos ao redor.
Minhas pernas não respondem quando tento me sustentar. O mundo inclina. Minha visão escurece nas bordas. Sinto minhas mãos tocando a pedra fria, úmida, irregular.
Mãos seguram meu rosto.
Firmes. Quentes. Insistentes.
Forçam meu olhar para cima.
Eu tento ver. De verdade. Mas tudo está desfocado, como se houvesse uma camada entre mim e o mundo. Ainda assim, consigo perceber o suficiente.
Um rosto. Próximo demais. Belo demais. Marcado por tensão demais.
Os olhos… claros. Muito claros. E cheios de alguma coisa que eu reconheço sem entender.
Desespero.
— Escute com atenção. — a voz sai baixa, controlada à força. — Não importa o que aconteça. Não importa o que façam para encontrar você. Você precisa viver.
Meu peito aperta.
As palavras fazem sentido e, ao mesmo tempo, não fazem nenhum.
Quero perguntar quem sou.
Quero perguntar por que estou sendo carregada.
Quero perguntar por que tudo isso está acontecendo.
Mas não consigo.
Só consigo respirar.
Rápido. Errado. Dolorido.
O chão sob minhas mãos pulsa. Mais forte agora.
A luz prateada vibra.
Algo se aproxima.
Não vejo primeiro.
Sinto.
É como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
O vento para por um segundo longo demais.
As árvores estalam.
Uma pressão cresce no ar, pesada, esmagadora, fazendo meu estômago se revirar e minha pele arrepiar inteira de novo. É como se alguma coisa tivesse encontrado exatamente o ponto onde estamos.
Como se estivéssemos sendo observados.
Marcados.
Encontrados.
— Eles… — a voz feminina surge atrás, falhando. — Eles encontraram.
Viro o rosto com esforço.
Ela cai de joelhos.
O cabelo está colado ao rosto pelo suor e pela chuva fina que começa a cair. A lâmina ainda presa na mão, agora manchada de sangue escuro. Seus olhos estão em mim.
Só em mim.
E neles há algo que quebra qualquer resistência dentro do meu peito.
Dor.
Amor.
Perda.
Como se ela estivesse me perdendo.
Ela toca meu rosto como se eu fosse ao mesmo tempo um milagre e uma ferida aberta.
— Meu amor... — sua voz quebra no meio. — Meu amor, me perdoa.
As palavras fazem alguma coisa dentro de mim ceder.
Quero abraçá-la. Quero dizer que está tudo bem, mesmo sem saber o que aconteceu. Quero dizer que eu também sinto isso — essa dor absurda, esmagadora, que não cabe no meu corpo.
Mas não dá tempo.
O ar colapsa.
Não existe outra palavra.
Colapsa.
Uma rajada de vento explode na clareira, forte o suficiente para me arrastar se alguém não estivesse me segurando. A luz prateada no chão falha de vez, piscando rápido demais antes de começar a apagar.
Um som corta o espaço.
Não é um grito. Não é um rugido. É algo pior. Algo que mistura os dois. Algo que não deveria existir.
As árvores ao redor se movem.
Não com o vento. Contra ele.
Sombras se deslocam entre os troncos.
Rápidas.
Erradas.
Muitas.
O homem me puxa de volta para os braços dele.
Forte.
Urgente.
Desesperado.
— Não — a mulher se levanta rápido demais, a lâmina firme na mão. — Não, não, não…
O brilho no chão apaga completamente.
A p******o falha, e eu sinto isso mesmo sem entender exatamente o que acabou de acontecer. O ar muda primeiro. Fica mais pesado, mais agressivo, como se alguma coisa tivesse acabado de rasgar o pouco de segurança que ainda existia ao nosso redor.
Tudo acontece rápido demais depois disso.
Um clarão explode à nossa esquerda, tão forte que meus olhos ardem no mesmo instante. Alguém grita logo em seguida, um som alto, desesperado, que se mistura ao bater brutal de asas sobre nossas cabeças. A mulher se move antes mesmo que eu consiga processar, avançando com a lâmina erguida na direção das árvores, onde alguma coisa se esconde entre os troncos.
Ouço o impacto.
Ouço um corpo caindo.
Mas não dá tempo de entender o que ela atingiu, porque outro som vem logo atrás, mais perto, rápido demais, errado demais, e o homem me segura com ainda mais força, como se já soubesse o que vai acontecer a seguir.
— Feche os olhos. — ele diz, e dessa vez a voz dele falha.
Não obedeço.
Não consigo.
Meu corpo inteiro trava enquanto vultos começam a surgir entre as árvores, recortados pelos relâmpagos e pelos restos de luz espalhados na clareira. Tudo se mistura diante de mim — sombra, movimento, sangue, brilho, escuridão — e por um segundo h******l sinto que o mundo inteiro está vindo na minha direção ao mesmo tempo.
Então mãos me agarram.
Não as dele.
Outras.
Bruscas, frias e fortes demais.
Sou arrancada dos braços dele com violência, e o grito que escapa da mulher rasga alguma coisa dentro de mim no mesmo instante. O homem tenta me alcançar, e eu finalmente vejo seu rosto com clareza.
A dor nele é tão devastadora que meu peito aperta de um jeito quase insuportável.
Ele diz alguma coisa.
Talvez meu nome.
Talvez uma promessa.
Talvez um pedido.
Eu não sei.
Porque o mundo inclina de repente, a floresta desaparece diante dos meus olhos, a luz explode uma última vez — e então tudo fica escuro.
⇼⇼⇼
Acordo sentada na cama, puxando ar como se tivesse ficado tempo demais submersa.
Meu peito sobe e desce rápido demais. Minhas mãos estão cravadas nos lençóis, os dedos dormentes de tanto apertar.
O quarto está escuro. Silencioso. Seguro.
Mas meu corpo não sabe disso.
Ainda sinto o cheiro de fumaça. O gosto de sangue. As mãos no meu rosto, a promessa desesperada na voz do homem, o pedido quebrado da mulher, o som h******l de alguém me arrancando deles.
Levo a mão até o peito, tentando acalmar o coração.
Não funciona.
Nunca funciona.
Porque o pior não é o sonho.
O pior é o que vem depois.
A certeza absurda, impossível… de que aquilo não foi só um pesadelo.
Foi memória.
E, em algum lugar, alguém ainda está me procurando.