Capítulo 17: Aurora

1253 Palavras
Estávamos todos no pátio frontal da Villa Marino sob a luz pálida e fria da manhã. A formalidade da nossa família exigia que estivéssemos ali, enfileiradas feito estátuas de sal, para nos despedirmos do hóspede de Palermo. Mattia Santoro vestia um sobretudo escuro sobre o terno de alfaiataria, a postura ereta e a expressão absolutamente vazia. Ele parou diante do meu pai, a poucos metros de nós. — Agradeço a hospitalidade, Capo Alessio — a voz dele soou grave e profissional no ar gelado da montanha. — Faça uma boa viagem, Sottocapo. Que Deus o acompanhe na estrada e que os negócios prosperem — Alessio respondeu, estendendo a mão. Mattia apertou a mão do meu pai com firmeza. Um aperto de mão selando o fim daquela auditoria maldita, o fim do prazo dele e o fim da minha sanidade. Ele havia falhado em chegar ao meu quarto na noite passada, e agora estava indo embora. Ele recuou um passo, virando-se para o carro. Mas antes de abrir a porta blindada, ele parou. O Sottocapo girou levemente o pescoço e seus olhos verdes e implacáveis varreram Beatrice e Caterina até pararem em mim. Não houve um sorriso de canto, nenhum aceno, nenhuma palavra. Foi apenas um olhar. Um único contato visual direto, sombrio e devastador que durou um segundo, mas que carregou todo o peso das estocadas brutais, do enforcamento no escuro e da umidade dele rasgando a minha garganta. E, tão rápido quanto olhou, ele cortou a conexão. Entrou no carro, bateu a porta e o motorista acelerou, levando-o embora da fortaleza. A decepção amarga queimou a minha garganta, descendo como veneno para o estômago. Eu estava irremediavelmente viciada, e ele estava me deixando para trás, vazia e marcada. Virei-me para voltar para dentro de casa, os ombros pesados, quando a voz de Alessio me paralisou. — Aurora. Espere. Congelei. Girei nos calcanhares, baixando os olhos rapidamente para assumir a postura submissa. Alessio caminhou até mim, segurando um livro de capa dura, encadernado em couro bordô. — Antes de descer para o pátio, o Sottocapo me entregou isto — meu pai anunciou, a voz carregada de uma rara aprovação. — Ele pediu para presentear a filha prestativa que cuidou para que a sua estadia fosse bem servida. Meu coração falhou uma batida. O sangue zumbiu nos meus ouvidos. Meu pai não desconfiou desse gesto do homem, afinal, eu me oferecera para ficar levando jarras de água para matar sua sede. E secretamente cobiçando matar a minha. Alessio estendeu o livro na minha direção. Era um exemplar de As Confissões, de Santo Agostinho. — Uma escolha adequada e muito respeitosa — meu pai continuou. — Um livro sobre a jornada de um pecador em direção à luz. Mostra que o Sottocapo reconhece a virtude que cultivamos nesta casa. Leia-o com atenção, Aurora. — É uma honra, papai — respondi, minha voz saindo num sussurro puro, enquanto minhas mãos trêmulas pegavam o volume pesado. A capa fria de couro parecia queimar a ponta dos meus dedos. Assim que Alessio se virou para conversar com os guardas, eu caminhei em direção à casa. Não corri para não levantar suspeitas, mas assim que cruzei o batente e subi as escadas, meus passos se tornaram frenéticos. Entrei no meu quarto, fechei a porta e joguei o livro sagrado na cama. Folheei as páginas com violência, o cheiro de papel antigo subindo pelo ar, até que um papel grosso e dobrado caiu no lençol. Desdobrei-o com as mãos tremendo tanto que m*l conseguia focar na caligrafia rústica e inclinada. "Mia santuzza, O trabalho oficial dentro da fortaleza do seu pai acabou, mas a minha fome por você, não. Eu não vou voltar para Palermo. Ficarei escondido nas sombras de Messina. Arrumarei a desculpa que for necessária e permanecerei nesta província até encontrar uma fresta nas muralhas de Alessio para nos encontrarmos de novo. Se você tiver paciência, terá tudo o que me implorou no escuro. Não mande resposta de volta. A responsabilidade é minha e você não pode levantar suspeitas. Seja a filha perfeita até que eu vá buscar o que é meu. — Il tuo Diavolo." Reli aquelas linhas até decorá-las. O oxigênio voltou aos meus pulmões em uma lufada violenta. O sorriso que rasgou o meu rosto era ensandecido e perigoso. Ele não tinha me abandonado. Mattia estava lá fora, rondando a cidade como um lobo esperando o momento de abater a ovelha do rebanho de Deus. Dobrei a carta, abri o fundo falso da minha penteadeira e a escondi. Eu tinha uma ordem direta do Sottocapo. Seja a filha perfeita. O resto do dia se transformou na maior performance da minha vida. A Aurora chorosa da madrugada havia morrido. Em seu lugar, a "Santuzza" renasceu com uma devoção digna das virgens bíblicas. Passei a manhã no escritório, servindo café a Alessio enquanto ele revisava documentos. À tarde, acompanhei-o aos jardins da Villa, escutando-o discursar sobre a moralidade enquanto eu podava as roseiras murchas. Quando o sol se pôs, fui a primeira a me ajoelhar no chão de pedra da capela, recitando salmos enquanto minha mente vagava por cenários impuros com o homem que estava escondido na cidade lá embaixo. A euforia era uma armadura impenetrável. Quando a noite finalmente caiu, retirei-me para o meu quarto. Eu escovava os cabelos diante do espelho quando a porta se abriu de repente. Beatrice entrou, fechando-a rapidamente. Ela estava exausta. O peso dos segredos formava olheiras escuras sob seus olhos castanhos. — Eu vi como você agiu o dia todo — ela sussurrou, a voz trêmula, os braços cruzados sobre o peito. — Eu vi esse seu sorrisinho. Ele deixou algo naquele livro, não foi? Continuei a escovar os cabelos, os movimentos lentos e rítmicos. — Ele partiu, Beatrice. Voltou para Palermo, como o papai disse. — Pare de mentir para mim — ela sibilou, dando um passo à frente, os punhos cerrados. — Aurora, pelo amor de Deus, olhe para a sua situação. O trabalho dele acabou. Esqueça aquele homem. Por favor, só deixa ele ir embora de vez e vamos voltar a ter um pouco de paz nesta casa. Parei a escova. A paciência escorreu de mim. Virei-me lentamente na cadeira e encarei o desespero patético da minha irmã. — Paz? — Repeti, a palavra soando venenosa. — Você chama isso de paz, Bea? Nós somos prisioneiras. — Nós estamos vivas! E se o papai descobrir que aquele assassino continua rondando você, nós seremos mortas. Arranca isso da sua cabeça. É uma obsessão doentia. A hipocrisia de Beatrice me embrulhou o estômago. Levantei-me, aproximando-me dela até que estivéssemos a centímetros de distância. Inclinei meu rosto, os olhos transbordando calma, e a lembrei do que eu sabia. — Vá até o seu armário, Beatrice. Pegue o fundo falso, tire todo o dinheiro que você vem escondendo moeda por moeda há anos... e jogue-o no lixo — minha voz era um sussurro c***l. — Jogue o seu dinheiro fora. Desista da sua fuga. Consegue fazer isso? Beatrice abriu a boca, mas nenhum som saiu. O ar abandonou os pulmões dela. — Foi o que eu pensei — concluí, dando um passo para trás e apontando para a porta. — Então não ouse me pedir para jogar a minha esperança fora. A irmã do meio abaixou a cabeça, derrotada pela verdade inescapável. Ela deu meia volta e saiu do meu quarto sem responder de volta, deixando-me sozinha com o meu d***o invisível e a promessa inquebrável da minha própria liberdade.
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