Mattia
A escuridão da Villa Marino era diferente de qualquer outra. Não era um breu reconfortante que convidava ao sono, mas uma sombra densa, entranhada nas pedras frias, que exigia vigilância constante.
Eu estava no meu quarto de hóspedes, vestido com uma calça escura e uma camisa de algodão leve. Meus pés estavam descalços, prontos para não emitirem um único som contra o piso. A Beretta repousava no coldre sob o meu braço, fria contra as minhas costelas.
O relógio de pulso sobre a cômoda marcava duas da manhã. O tempo de Alessio Marino já havia se esgotado. Era a minha última noite em Messina e eu tinha um encontro marcado com a filha dele para incendiarmos nosso próprio inferno.
Girei a maçaneta com a lentidão de um fantasma e abri a porta apenas o suficiente para deslizar pelo batente. O corredor leste estava deserto.
Dei dois passos furtivos em direção à escadaria que me levaria ao andar das meninas, a mente já focada no calor do corpo de Aurora e na forma como ela se abria para mim.
— A insônia também o aflige, Sottocapo?
A voz grave cortou o silêncio como o golpe de uma foice.
Parei de imediato. A adrenalina inundou meu sistema, acendendo cada nervo do meu corpo. Virei a cabeça milímetros na direção da sombra que se projetava no final do corredor.
Alessio Marino caminhava na minha direção. Ele estava de roupão, mas a postura era rígida.
O que fez meu sangue gelar e o meu instinto assassino despertar não foi a presença do Capo, mas os dois homens armados que o flanqueavam. Guardas de elite da Famiglia, com as mãos repousando casualmente sobre as armas na cintura.
Em uma fração de segundo, minha mente calculou o m******e. O guarda da esquerda era destro e mais jovem; eu precisaria de um segundo para sacar minha arma, colocar uma bala na garganta dele e usá-lo como escudo humano.
O guarda da direita cairia com um tiro duplo no peito logo em seguida. Eu teria que matar Alessio por último, um tiro limpo entre os olhos, antes que o barulho acordasse a Villa inteira. E então, eu teria que pegar Aurora e fugir da Sicília para sempre.
Soltei a respiração lentamente, afrouxando os ombros e forçando os músculos a relaxarem. Se Alessio soubesse de nós, ele não estaria perguntando sobre insônia. Ele já teria dado a ordem de fogo.
— O peso dos números de Palermo costuma tirar o meu sono, Signor Alessio — respondi, o tom neutro, a mentira deslizando fácil pela língua.
— Compreendo o fardo. A mente de um homem que carrega os negócios da Cosa Nostra raramente descansa — Alessio parou a poucos metros de mim. — Já que ambos fomos abandonados pelo sono, acompanhe-me até o escritório. O silêncio da noite é o melhor momento para uma boa conversa.
Não era um convite. Era uma convocação.
Assenti e o segui, sentindo os passos pesados dos dois guardas logo atrás de mim. Entramos no escritório de visitas, o mesmo lugar onde, horas atrás, eu quase havia rasgado o vestido da filha dele.
Alessio sentou-se na cadeira de couro. Ele não me ofereceu bebida. Apenas cruzou as mãos sobre a mesa de nogueira, os olhos fixos nos meus, avaliando o homem que era o braço direito de Romeo Rossi.
— Messina é uma cidade peculiar, Mattia — ele começou, a voz baixa, preenchendo o ar pesado do cômodo. — Diferente de Palermo, que sempre foi um palco de guerras abertas, nós construímos o nosso império na fé, no silêncio e na ordem. Eu transformei a Famiglia Marino na maior força desta província porque entendo que o poder não deve apenas ser conquistado; ele deve ser mantido com o temor de Deus e a crueldade dos homens.
Mantive minha expressão impassível.
— Ninguém duvida da sua soberania aqui, Capo Alessio.
— Alguns já duvidaram — ele retrucou, um brilho letal cruzando as pupilas. — Conhece a história da Família Sparacio?
— Conheço o nome.
— Eles eram fortes. Tinham rotas, dinheiro e ambição. Ambição até demais — Alessio se inclinou levemente para frente. — Eles desejaram crescer além do que lhes era permitido. Cobiçaram um território que já tinha dono e tentaram ditar regras no lugar errado.
O Capo de Messina fez uma pausa, deixando o peso da ameaça assentar na sala.
— Eu matei o chefe dos Sparacio com as minhas próprias mãos. Cortei a cabeça da cobra e exterminei os herdeiros. Deixei apenas uma mulher liderar os restos do que sobrou daquela família. Uma mulher que hoje definha, doente e sem poder, para servir de lembrete vivo. Aqueles que tentam tomar o que é meu terminam rastejando ou enterrados.
O subtexto era brilhante de tão claro. Alessio não estava falando apenas de rotas portuárias. Ele estava enviando um recado direto a Romeo Rossi por meu intermédio. Ele sabia que Palermo era ambiciosa e estava deixando claro para que tirássemos os olhos de Messina.
A ironia da situação era quase palpável. Ele ameaçava o império de Rossi para proteger seus navios, enquanto o homem sentado à sua frente já havia profanado seu tesouro mais íntimo, debaixo do seu próprio teto.
— Romeo Rossi já tem o seu lugar ao sol em Palermo — Alessio concluiu, reencostando-se na cadeira. — E a Sicília é grande o suficiente para todos nós, desde que cada um respeite as cercas do vizinho. O próprio Don Vittorio sabe disso.
— Transmitirei suas palavras exatas a Romeo. Ele aprecia a clareza, assim como eu — respondi, sustentando o olhar dele sem recuar um milímetro.
A conversa se estendeu por mais uma hora, uma tortura estratégica onde eu precisei ter toda a paciência do mundo enquanto meus instintos gritavam para ir até o andar de cima. Quando Alessio finalmente me liberou, o céu lá fora já começava a perder a escuridão absoluta.
Eu não poderia subir para o quarto de Aurora com o dia prestes a amanhecer e os guardas agora em estado de alerta pela insônia do chefe. Voltei para a suíte de hóspedes, cerrei os punhos até os nós dos dedos estalarem e encarei a parede.
Meu vício queimava mais do que nunca. Eu precisava dela mais uma vez, e todas as vezes que eu conseguisse.
***
Aurora
A madrugada parecia ter estagnado. O ponteiro dos minutos no relógio de parede do meu quarto avançava com a lentidão de uma formiga preguiçosa e gorducha.
Três da manhã. Quatro da manhã.
Eu estava deitada no centro da cama, o corpo banhado por um suor frio de espera. Vestia a mesma camisola leve, a pele arrepiada pelo ar gelado que descia das montanhas, mas nada disso importava. O que me consumia era a febre que pulsava entre as minhas coxas e o latejar fantasma na minha garganta.
Meu corpo lembrava de cada toque bruto, de cada estocada sufocante da noite anterior. A dor e o prazer haviam se misturado em um vício que eu não conseguia mais ignorar. Eu queria o peso dele sobre mim.
Queria a mão calosa apertando o meu pescoço, queria o perigo de quase ser descoberta para me fazer sentir viva.
Meus dedos desceram lentamente pelo meu próprio corpo, deslizando sob a seda da camisola. Toquei minha i********e, já úmida pela mera lembrança dele. Esfreguei o c******s com a ponta dos dedos, fechando os olhos e imaginando que era ele quem me possuía ali.
O cheiro de cigarro, de homem, o som gutural da respiração dele contra o meu ouvido. Gemi baixinho, mordendo o travesseiro para abafar o som. O alívio veio fraco, raso e patético. Não era suficiente. Eu precisava do d***o.
Cinco da manhã. Seis da manhã.
A fresta da veneziana começou a sangrar uma luz pálida e cinzenta. O sol despontou no horizonte, iluminando os Colli San Rizzo, e com ele, a realidade c***l desabou sobre mim.
Ele não viria.
Sentei-me na cama, puxando os joelhos contra o peito. A porta permanecia fechada, intocada. Destrancada, apesar de eu ter a liberdade de trancá-la durante a noite.
O silêncio da Villa Marino era a prova da minha derrota. Mattia não havia conseguido escapar da vigilância do meu pai ou, pior ainda, ele não havia tentado o suficiente.
A decepção amarga queimou a minha garganta, descendo como veneno para o estômago. Eu não sabia por quanto tempo ele conseguiria enrolar o meu pai com aquela auditoria falsa. Talvez ele tivesse ganhado mais uma noite, talvez duas, inventando erros nos números apenas para permanecer sob o nosso teto.
Mas o fato imperdoável era que, nesta madrugada, ele não tinha vindo. Mattia Santoro me deixou esperando no escuro, queimando de febre e necessidade, enquanto o sol despontava para zombar da minha submissão.
Eu olhei para o espelho do quarto, onde a maquiagem gasta ainda cobria os vergões que ele me deu, e uma lágrima silenciosa de pura frustração escorreu pelo meu rosto.