O som da maçaneta de metal girando foi o barulho mais alto do mundo.
Eu parei de respirar. O peito de Mattia, pressionado contra o meu, travou num espasmo de tensão pura. Eu podia sentir o coração dele martelando contra as minhas costelas nuas, um ritmo frenético que espelhava o meu.
Ele não estava com medo de morrer — homens como ele aceitavam a morte como um risco ocupacional —, mas estava com medo de morrer agora, em um vaso sanitário, com a filha virgem do Capo sentada no seu colo.
Seria uma morte sem honra. Uma piada para ser contada em velórios da Cosa Nostra.
— Sottocapo? — A voz do guarda estava abafada pela porta de madeira do boxe, mas perto demais. — A porta está emperrada?
Mattia reagiu com uma velocidade que me atordoou. Em um segundo, o desejo nebuloso nos olhos dele desapareceu, substituído por um instinto de sobrevivência afiado.
Ele chutou a porta por dentro com a sola do sapato, fazendo a madeira vibrar violentamente e impedindo que a tranca cedesse por completo.
— Vaffanculo! — Mattia rugiu, a voz rouca e convincente, carregada de uma falsa agonia. — Me dê um minuto, p***a! A comida do seu chefe está me revirando o estômago pelo avesso. A menos que você queira entrar aqui e limpar a merda que eu vou fazer, sugiro que se afaste!
Houve um silêncio do lado de fora. Um silêncio pesado, onde minha vida e a dele estavam penduradas por um fio. Eu mordi o lábio inferior para não rir — ou gritar de pânico.
A mão de Mattia estava espalmada nas minhas costas nuas, os dedos cravados na minha pele, me segurando no lugar como se eu fosse uma boneca de pano.
— Ah... — O guarda pigarreou, o nojo evidente no tom. — Certo. Entendido. Vou esperar no corredor. Não demore, você já devia ter ido embora.
Os passos se afastaram. O som de couro contra o piso de mármore diminuiu até que restasse apenas o zumbido do exaustor e nossas respirações entrecortadas.
Mattia soltou o ar de uma vez, encostando a testa no azulejo frio atrás da minha cabeça. Ele fechou os olhos por um breve momento, recuperando o controle.
— Você é louca — ele sussurrou, abrindo os olhos verdes para me encarar. Não havia mais diversão neles. Havia perigo. — Você tem ideia do que acabou de fazer? Se ele entrasse...
— Ele não entrou — cortei, sentindo uma onda de adrenalina intoxicante. Era melhor do que vinho. Melhor do que rezar. — Você foi muito convincente. Quase acreditei que estava doente.
— Eu estou doente — ele rosnou, as mãos descendo para segurar meus quadris com força, os polegares pressionando a carne macia. — Doente da cabeça por não ter te jogado para fora deste boxe no momento em que te vi.
— Você não me jogou para fora porque não quis — provoquei, passando os braços ao redor do pescoço dele, colando nossos corpos novamente. — Você gostou da visão.
Ele não negou. O olhar dele desceu, varrendo meu corpo exposto. O vestido ainda estava embolado na minha cintura, e a nudez do meu tronco e da minha i********e brilhava sob a luz fluorescente barata do banheiro.
Eu nunca tinha sido vista assim por um homem. Os médicos me examinavam com frieza; meu pai me olhava como se eu fosse uma estátua de vidro.
Mas Mattia... Mattia me olhava como se eu fosse carne.
Carne suculenta, proibida e cara.
— Vista-se — ele ordenou, mas a voz não tinha força. Suas mãos não me empurraram; elas queimavam na minha pele, possessivas.
— Não — sussurrei, aproximando meus lábios do ouvido dele. Senti o estremecimento percorrer o seu corpo grande. — O guarda ainda está lá fora. Só vai embora quando você sair. E você só sai depois de... dar o meu pagamento.
Mattia franziu a testa, confuso e irritado.
— Pagamento? Eu salvei a sua vida, garota mimada.
— Eu te dei uma desculpa para ficar sozinho comigo — recuei o rosto para olhá-lo nos olhos, assumindo o controle que eu não deveria ter. — Você disse que eu era uma criada sem vergonha. Disse que eu era uma tarada. Talvez eu devesse provar que você estava certo.
— Pare com isso — ele tentou soar firme, o típico homem de autoridade, mas seu quadril traiu sua vontade, empurrando levemente para cima, roçando o volume duro das calças dele contra a minha virilha úmida. O atrito me fez soltar um gemido baixo, involuntário.
O som quebrou a última barreira de resistência dele.
— O que você quer? — Ele perguntou, a voz áspera, derrotada pela luxúria.
— Toque-me — exigi. Minha voz tremeu, não de medo, mas de expectativa. — Ninguém nunca me tocou, só eu mesma. Eu quero saber a diferença. Mostre-me o que um Sottocapo sabe fazer.
Ele me encarou por longos segundos, lutando contra o bom senso. Mas a tentação era grande demais. Eu era a fruta proibida no jardim do Éden do inimigo dele. Corromper a filha de Alessio Marino era, talvez, a maior vitória que ele poderia levar para Palermo.
— Deus me perdoe — ele murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer divindade.
A mão dele, grande e calejada, subiu do meu quadril. O toque era áspero, contrastando violentamente com a minha pele que só conhecia seda e óleos de banho. Quando a palma dele cobriu meu seio esquerdo, o ar fugiu dos meus pulmões.
Foi um toque firme. Ele apertou, medindo o peso, e seu polegar roçou meu mamilo com uma precisão que me fez arquear as costas.
— Você é sensível — ele observou, a voz rouca caindo uma oitava. — Tão pequena, mas tão reativa.
Eu fechei os olhos, a sensação explodindo em nervos que eu nem sabia que existiam. Quando eu me tocava, era uma busca rápida por alívio. Com ele, era uma exploração. Havia calor, havia a textura da pele de um homem, havia a intenção pecaminosa por trás do gesto.
— Mais — implorei, sem vergonha.
A mão livre dele desceu. Ele não hesitou dessa vez. Mattia sabia exatamente para onde ir. Seus dedos deslizaram pela parte interna da minha coxa, provocando arrepios, antes de encontrarem o calor úmido entre as minhas pernas.
Eu arfei, cravando as unhas nos ombros dele.
— Olhe para mim — ele comandou, e eu obedeci.
Os olhos dele estavam fixos nos meus enquanto os dedos dele separavam meus lábios. Ele não desviou o olhar. Ele queria ver minha reação.
Quando ele tocou meu c******s, não foi como a fricção mecânica das minhas escovas de cabelo ou a pressa dos meus dedos inexperientes.
Ele fez um movimento circular, lento e torturante, aplicando uma pressão que eu nunca teria coragem de usar em mim mesma.
— Ah! — O som escapou alto demais.
Mattia cobriu minha boca com a outra mão, abafando o grito, mas não parou o movimento lá embaixo. Pelo contrário, ele acelerou.
Ele sabia o que estava fazendo. Deus, como ele sabia.
Era uma técnica, uma arte profana que ele devia ter praticado em dezenas, centenas de mulheres livres. Mulheres que não viviam em conventos disfarçados de mansões.
Ele sabia exatamente onde pressionar, quando aliviar, quando deslizar o dedo para dentro da entrada apertada e quando voltar para o botão sensível que pulsava sob o comando dele.
Minha cabeça girou. O banheiro desapareceu. O cheiro de desinfetante sumiu, substituído pelo cheiro dele — tabaco, menta e almíscar masculino. Eu estava me desfazendo no colo dele, uma poça de sensações líquidas.
— Você gosta disso, principessa? — Ele sussurrou contra meus lábios, movendo a mão que cobria minha boca para segurar meu queixo. — Gosta de ser tocada pelas mãos sujas de um assassino?
— Sim... sim... — respondi, ofegante, sentindo a pressão aumentar na minha barriga. Eu estava perto. Tão perto. Era diferente de tudo. Era mais intenso, mais sujo, mais real.
Eu ia gozar. Ali mesmo, no colo de um estranho, no banheiro do meu pai.
De repente, a mão dele parou.
O choque da interrupção foi físico, como um balde de água gelada. Abri os olhos, atordoada, o corpo ainda vibrando com a necessidade de conclusão.
Mattia retirou a mão. Ele respirava com dificuldade, o rosto corado, mas havia uma determinação férrea na expressão dele.
— Não — ele disse, a voz falhando um pouco. — Não aqui. Não assim. Se eu fizer você gozar agora, você vai gritar tão alto que nenhuma desculpa vai segurar aquele guarda.
— Você não pode parar! — Eu quase chorei de frustração. Meu corpo doía pela falta do toque dele. — Por favor, Mattia...
Ele ajeitou meu vestido com movimentos rápidos, cobrindo minha nudez como se estivesse cobrindo a cena de um crime.
— Acabou, garota. Tenho que ir.
A rejeição bateu em mim e se transformou instantaneamente em fúria. A mesma fúria que me manteve sã durante anos de isolamento. Ele achava que podia me acender e ir embora? Ele achava que podia me dar uma amostra do mundo real e depois me trancar de volta na torre?
Segurei o colarinho da camisa dele antes que ele pudesse se levantar.
— Você não vai a lugar nenhum — sibilei, meus olhos fixos nos dele. — Não sem me prometer que vai terminar o que começou.
— As negociações acabaram — ele disse, tentando se soltar, mas sem usar força real. — Eu volto para Palermo amanhã.
— Se você for para Palermo... — minha mente trabalhou rápido, forjando a mentira. — Se você sair por aquela porta e nunca mais voltar, eu vou esperar dois minutos. Então, vou rasgar meu vestido. Vou arranhar meu próprio rosto. E vou sair gritando que o Sottocapo dos Rossi me arrastou para cá e tentou me violar.
Os olhos de Mattia se arregalaram. O choque genuíno estampou o rosto dele.
— Você não faria isso. Isso iniciaria uma guerra. Seu pai me mataria antes que eu chegasse ao portão.
— Exatamente — confirmei, sentindo o poder correr pelas minhas veias. Era melhor do que o orgasmo que ele me negou. Ter a vida de um homem poderoso nas mãos... era divino. — Então, Mattia de Palermo, sugiro que você encontre um jeito. Encontre um jeito de voltar. Encontre um jeito de me ver. Porque agora você me deve.
Eu me inclinei e beijei o canto da boca dele. Um beijo casto, mas carregado de veneno.
— Eu quero f***r com você, Mattia. E eu sempre consigo o que eu quero. Ou você me dá isso por bem... ou eu tomo a sua vida como pagamento pela frustração.
Ele me encarou, e pela primeira vez, vi algo além de desejo ou cautela. Vi respeito. E medo.
— Você é a filha do d***o — ele sussurrou, se levantando e me colocando no chão.
— E você é o homem que acabou de fazer um pacto com ela.
— Antes de eu ir... diga-me o seu nome. Quero saber quem me rende com desejos e ameaças.
— Meu nome é Aurora. Aurora Marino.
Um meio sorriso se abriu no rosto dele quando enfim nos apresentamos. Então ele ficou sério, ajeitou o terno, passou a mão pelos cabelos escuros para se recompor e verificou se não havia batom no rosto. Sem dizer mais nada, destrancou a porta.
— Arrivederci, Aurora.
Ele saiu, a postura rígida. Eu fiquei no boxe, ouvindo a voz dele dispensar os guardas com alguma desculpa arrogante.
Quando o silêncio voltou, levei a mão até onde ele tinha tocado. Meus dedos tremeram. Ainda estava quente. Ainda estava pulsando.
Eu sorri para o espelho acima da pia, ajeitando meu cabelo. Meu pai queria que eu fosse santa, queria que eu fosse salva dos pecados do mundo.
Ele que se fodesse. Eu só queria queimar.
E Mattia seria o meu fósforo.
Glossário:
Vaffanculo: Expressão vulgar italiana muito comum, equivalente a "vá se f***r" ou "vá tomar no cu".
Principessa: "Princesa".
Arrivederci: "Adeus" ou "até logo". Uma despedida.