O inferno não era um lugar de fogo e enxofre, como Alessio Marino gostava de pregar em seus sermões intermináveis enquanto discutíamos taxas de importação. O inferno era aquela maldita sala de estar com cheiro de incenso, tendo que olhar para a filha dele e não poder tocá-la.
Sete dias.
Sete dias desde o incidente no banheiro. Sete dias em que eu fui obrigado a voltar àquela fortaleza nas colinas, dia sim, dia não, para finalizar o maldito acordo com aquele desgraçado.
Justo quando pensei que tudo tinha acabado, novas ordens vieram de Palermo. Don Vittorio Rossi, que morava em Trapani, passou as ordens para o seu filho na capital da ilha. E Romeo as repassou para mim.
Mais tempo em Messina significava mais tempo perto daquela louca.
Eu sou um homem prático. Sou o Sottocapo de Palermo. Já matei homens com as próprias mãos, já negociei carregamentos de armas que valiam mais que o PIB de pequenos países e já enterrei amigos.
Eu sei lidar com pressão.
Mas a pressão que Aurora Marino exercia sobre mim era diferente. Era uma lâmina encostada na carótida, o tempo todo.
— A taxa de atracagem para os contêineres vindos da Turquia deve ser ajustada — Alessio dizia, a voz monótona, sentado na poltrona de couro escuro como um rei em seu trono de poeira. — A ganância é um pecado, Mattia. Devemos ser justos aos olhos do Senhor.
— Claro, Capo Marino — eu respondia, a mandíbula travada, concordando com qualquer asneira que ele dissesse, apenas para encerrar o assunto.
Mas meus olhos... meus olhos traíam a minha disciplina.
Aurora sabia. A desgraçada sabia exatamente o que estava fazendo. Durante aquela semana, ela transformou a Villa Marino em um palco de tortura psicológica.
Ela passava pelos corredores "por acaso" quando eu chegava. Servia café na sala de reuniões, substituindo as criadas, com a desculpa de ser uma filha obediente.
Vestia roupas que cobriam tudo, gola alta, saias longas, o retrato da modéstia siciliana. Mas quando Alessio virava as costas para buscar um documento ou atender o telefone, a postura dela mudava.
Ela me encarava e mordia o lábio inferior até manchar de vermelho. Passava a mão pelo próprio pescoço, descendo devagar até o vale entre os s***s cobertos, imitando o toque que eu tinha dado nela no banheiro.
Era um desafio silencioso: Você vai fugir? Ou vai vir me buscar?
Certo dia, eu quase perdi o controle. Ela deixou cair um lenço perto do meu pé. Quando me abaixei para pegar, ela sussurrou, tão baixo que pensei ter imaginado:
— Covarde.
Eu me endireitei, entreguei o lenço e voltei a discutir rotas de tráfico com o pai dela, mas, por dentro, eu estava planejando como queimar aquela casa até o chão.
Agora, era o último dia naquela casa maldita. Sem novas ordens da capital.
O acordo estava assinado. As pastas estavam fechadas. Alessio Marino se levantou, estendendo a mão pálida.
— Foi um prazer fazer negócios com a família Rossi, apesar das nossas... diferenças filosóficas — ele disse, com aquele sorriso condescendente de quem se acha moralmente superior a um assassino, mesmo sendo um também. — Faça uma boa viagem de volta a Palermo.
Apertei a mão dele. A pele dele era fria, seca.
— O prazer foi meu, Capo — mentira. O único prazer que eu queria naquela casa estava proibido.
Olhei para a porta. Aurora estava lá, parada ao lado de uma estátua da Virgem Maria, irônica como sempre. Ela estava pálida, seus olhos azuis estavam arregalados, oscilando entre a fúria e o pânico. Ela achava que eu estava indo embora. Achava que eu tinha escolhido a vida em vez dela.
Eu não podia culpá-la. Qualquer homem com juízo teria entrado no carro, pegado a autoestrada de volta para Palermo e nunca mais olhado para trás. Aurora Marino era um problema. Um problema lindo, instável e mortal.
Eu acenei com a cabeça para ela, uma despedida formal.
— Signorina.
Ela não respondeu. Apenas virou as costas e deixou o escritório do pai, como uma criança mimada que teve o doce negado. Alessio suspirou, balançando a cabeça.
— Mulheres... Tão emotivas. Falta disciplina espiritual.
— De fato — concordei, segurando a vontade de dar um tiro no meio da testa dele.
Saí da Villa Marino. Entrei no meu carro e desci a Viale Panoramica, vendo o sol se pôr sobre o Estreito de Messina. As luzes da Calábria começavam a piscar do outro lado da água.
Dirigi por cinco quilômetros. Então, parei no acostamento, em um ponto cego das curvas da montanha.
Peguei o celular e disquei para o meu homem de confiança.
— Prepare a bagagem para amanhã de manhã — ordenei.
— Amanhã, chefe? O plano era sair hoje à noite.
— Houve um imprevisto. Tenho uma última pendência a resolver.
Desliguei. Tirei o terno caro de Sottocapo. No porta-malas, eu tinha uma muda de roupas que pareciam muito as de espiões de filmes estrangeiros. Pretas, leves, sem barulho.
Troquei os sapatos de couro italiano por botas de solado de borracha. Verifiquei minha pistola, anexando o silenciador. Não pretendia usar, mas invadir a casa de um Capo desarmado era suicídio, não ousadia.
Esperei a noite cair completamente. A lua estava encoberta por nuvens pesadas vindo do mar. Perfeito.
Voltei a pé pela floresta de pinheiros, evitando a estrada principal. A subida era íngreme, o ar gelado dos Monti Peloritani queimava meus pulmões, mas o esforço físico ajudava a focar. Eu não estava pensando com a cabeça de baixo agora. Eu estava em modo de operação.
Cheguei ao perímetro da Villa Marino às onze da noite.
A segurança era robusta, mas previsível. Alessio confiava demais em Deus e nas câmeras. Ele tinha dois guardas no portão principal e rondas a cada trinta minutos no jardim.
Eu não precisava passar pelos guardas. Eu precisava que eles ficassem cegos.
Localizei a caixa de força externa, escondida atrás de um arbusto de oleandros, perto do muro leste. Era um sistema moderno, mas tudo o que é elétrico tem uma falha: depende de continuidade.
Abri o painel com uma faca de combate. Não cortei os fios das câmeras — isso dispararia um alarme silencioso na central de segurança. Em vez disso, causei um curto-circuito na linha principal que alimentava a iluminação externa e o sistema de portões.
Zap.
Uma faísca azul iluminou a escuridão por um segundo, e então... breu.
A Villa Marino mergulhou na escuridão.
Ouvi gritos abafados vindo da guarita.
— O que houve?
— O gerador não...
— Verifique os disjuntores!
Enquanto os guardas corriam com lanternas para o lado oposto da propriedade, onde ficavam os geradores a diesel, eu me movi.
Escalei o muro de pedra calcária. O musgo tornava as pedras escorregadias, mas encontrei apoio nas fendas. Pulei para dentro do jardim, aterrissando silenciosamente na terra fofa dos canteiros de rosas.
A casa era uma sombra gigante contra o céu. Eu sabia onde era o quarto dela. Tinha estudado a planta da casa, observado as janelas durante minhas visitas. Terceiro andar, varanda voltada para o leste.
A treliça de heras era antiga e robusta. Testei o peso. Aguentava. Comecei a subir, os músculos dos braços protestando, o suor escorrendo pelas costas apesar do frio.
Cada metro era uma aposta. Se um guarda olhasse para cima... Se Alessio estivesse acordado rezando...
Cheguei à varanda. Estava vazia. A porta de vidro estava fechada, mas não trancada. Ela tinha deixado aberta.
Ela sabia.
Empurrei o vidro devagar. O quarto estava imerso em sombras absolutas, o cheiro dela — flores e algo doce — me atingiu como um soco.
Dei um passo para dentro, fechando a porta atrás de mim para abafar o vento.
Meus olhos se acostumaram com a penumbra. Havia uma figura sentada na beira da cama, rígida, segurando algo que parecia um castiçal pesado, pronta para atacar.
— Quem está aí? — A voz dela tremeu, mas havia agressividade nela.
Uma energia que seria direcionada para outra coisa.
— Você me chamou, principessa — sussurrei, minha voz rouca preenchendo o silêncio do quarto. — Eu vim pagar a minha dívida.
O castiçal caiu da mão dela, abafado pelo tapete grosso. Ouvi a respiração dela acelerar, um som irregular no escuro.
— Mattia?
— Em carne e osso — dei um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, trazendo comigo o frio da noite e o perigo da rua. — Você disse que se eu fosse embora, você gritaria. Eu não fui.
Ela se levantou. No escuro, eu m*l podia ver o rosto dela, mas sentia o calor que irradiava do corpo pequeno.
— Você cortou a luz... — Ela entendeu rápido. — Você é louco. Se meu pai te encontrar aqui...
— Se seu pai me encontrar aqui, eu morro — admiti, parando a centímetros dela. Podia sentir a respiração dela no meu queixo. — Mas eu preferia morrer com uma bala no peito do que voltar para Palermo sem saber qual o gosto da sua boca.
Ela não recuou. Em vez disso, as mãos dela, pequenas e macias, encontraram meu peito, sentindo meu coração acelerado por debaixo do tecido. Ela subiu as mãos, tocando meu pescoço, meu maxilar, confirmando que eu era real.
— Você veio — ela sussurrou, e havia um tom de vitória na voz dela. — Eu sabia que você viria.
— Você é uma bruxa, Aurora — segurei o seu rosto com as duas mãos. — Agora, pare de falar. Temos pouco tempo antes que os geradores voltem.
— Não aqui — ela disse de repente, os dedos apertando meus pulsos. — Os guardas... a primeira coisa que eles fazem é verificar as janelas dos quartos quando a luz volta. Se nos pegarem aqui, estamos mortos.
Franzi a testa.
— E onde, então? No telhado?
— Não — ela sorriu, e eu pude sentir a curva dos lábios dela sob meus dedos. — Na capela.
Eu congelei.
— Na capela do seu pai? O lugar onde ele reza?
— É o único lugar onde os guardas são proibidos de entrar armados. O único lugar onde a tranca é interna e só meu pai tem a chave extra — ela puxou minha mão. — E ele está no escritório, cuidando da emergência da luz. A capela está vazia.
Era uma loucura profana, a coisa mais arriscada e excitante que eu já tinha ouvido. f***r a filha virgem do Capo sob os olhos das estátuas dos santos dele.
— Guie o caminho — eu disse, sentindo meu sangue ferver. — Vamos para a igreja.
Glossário:
Messina: Cidade portuária no nordeste da Sicília, conhecida como a "porta da Sicília". É o domínio de Alessio Marino.
Palermo: A capital da ilha e centro de poder da Cosa Nostra, localizada na costa noroeste.
Trapani: Cidade na costa oeste da Sicília, base de operações do Capo dei Capi Don Vittorio.
Estreito de Messina: O canal de água que separa a ilha da Sicília da península italiana (o "continente").
Calábria: Região no sul da Itália continental, visível do outro lado do Estreito. Território da 'Ndrangheta.
Monti Peloritani: Cadeia de montanhas que cerca Messina. Local isolado e florestal onde a Villa Marino foi construída.
Viale Panoramica: Estrada sinuosa que percorre o alto das colinas de Messina, oferecendo uma vista completa da cidade e do mar.