Capítulo 23: Aurora

1544 Palavras
A claridade invadiu o quarto humilde através da fresta da cortina encardida, ferindo os meus olhos que já estavam acostumados à penumbra. Espreguicei-me no colchão fino e gasto, o tecido áspero roçando na minha pele sensível. Meus músculos protestaram imediatamente com uma dor surda. O lado esquerdo da cama estava vazio, os lençóis amarelados completamente amassados e frios ao toque. Mattia já tinha ido embora. A pequena janela basculante do banheiro, com a dobradiça enferrujada, estava destrancada e semiaberta — a rota de fuga silenciosa que ele usara antes que o sol despontasse no horizonte de Messina. Não importava por onde o Sottocapo havia escapado pelas vielas do bairro miserável. Ele estava a salvo, e a essência dele ainda estava espalhada por cada centímetro do meu corpo. O cheiro de cigarro forte, suor masculino e sexo cru impregnava o ar abafado do cubículo. Levantei devagar da cama, sentindo uma fisgada pesada e úmida entre as pernas a cada passo em direção ao banheiro minúsculo. A água da torneira da pia estava gelada quando lavei o rosto e o meio das pernas, encarando o meu reflexo no espelho trincado. Meus lábios estavam visivelmente inchados. Havia marcas avermelhadas nos meus ombros e uma mordida feia na base do meu pescoço, lembranças da violência controlada com a qual ele havia me tomado de madrugada. Vesti o meu vestido recatado de algodão escuro com cuidado redobrado, abotoando o colarinho até o limite absoluto da garganta para esconder o mapa de brutalidade e prazer que ele havia desenhado na minha pele. Ajeitei a trança loira, agora desfeita e embaraçada, tentando lhe dar um ar de quem passou a noite inteira ajoelhada no chão em penitência, e não de quatro no colchão implorando por mais. Peguei o terço de madeira caído no chão poeirento, limpei a sujeira das contas e destranquei a porta da frente. O calor da manhã siciliana já castigava a rua de terra batida. Carmine e Salvatore estavam exatamente onde eu os havia deixado na noite anterior. A postura deles denunciava a exaustão de uma madrugada inteira em pé, alertas e tensos, vigiando as sombras daquele bairro hostil. Os ternos estavam amassados, os rostos marcados pelo sono pesado e pelo suor. Assim que a porta de madeira rangeu, no entanto, os dois endireitaram as espinhas quase por instinto, as mãos pairando perto das armas escondidas sob os paletós. Salvatore abaixou a cabeça em uma reverência curta e rígida, prestando o seu respeito cego à filha pura e imaculada do Capo. — Bom dia, Signorina Aurora. A vigília foi tranquila? — Carmine perguntou, a voz rouca por causa do cansaço, caminhando para abrir a porta traseira do carro para mim. — Muito abençoada, Carmine. Obrigada por cuidarem do meu isolamento com tanta dedicação a noite inteira — respondi, o tom de voz perfeitamente manso, forçando um sorriso cansado, porém sereno. Entrei no carro e afundei no banco de couro macio. Fechei os olhos por um segundo enquanto o motorista dava a partida. Se eles soubessem que, enquanto suavam na calçada vigiando a rua deserta contra ameaças imaginárias, eu estava do outro lado daquela madeira fina, gemendo abafado contra a mão de um assassino e quicando sem piedade em um p*u provavelmente muito maior do que o deles, os dois teriam um infarto fulminante ali mesmo na sarjeta. A viagem de volta para a montanha foi diferente de tudo o que eu já havia experimentado. O confinamento do Lancia escuro não me sufocava mais. Messina não parecia mais a prisão cinzenta dos últimos anos. Enquanto deixávamos o bairro pobre para trás e começávamos a subir as estradas sinuosas dos Colli San Rizzo, o sol de julho refletindo nas águas do Estreito parecia brilhante, absurdamente vivo. A cada solavanco suave do carro na estrada irregular, eu sentia o atrito entre as minhas coxas, a dor latejante me lembrando da espessura dele, do peso do corpo dele me espremendo contra a porta, contra a parede descascada do banheiro e contra as molas do colchão. Eu me sentia energizada. Completamente corrompida e, pela primeira vez na minha vida inteira, dona das minhas próprias correntes. Eu havia dobrado a Famiglia Marino à minha vontade usando apenas mentiras e religião. Quando o Lancia cruzou os portões de ferro imensos da Villa Marino, os mastins de guarda latiram ao longe nos canis. O meu pai já estava de pé no pátio de mármore claro, ladeado por outros dois homens de confiança da sua guarda pessoal. Alessio usava um terno cinza sob medida, alinhado como sempre, as mãos cruzadas nas costas. A postura dele era a de um rei recebendo a sua santa padroeira de volta ao altar. Desci do carro e caminhei até ele. Mantive os olhos baixos, a respiração ritmada e os passos propositalmente curtos e contidos, perfeitamente consciente de que, debaixo daquele tecido caro, o meu corpo cheirava e pertencia ao homem que ele nem imaginava que permanecia na cidade. — Como foi a noite, minha filha? — Alessio perguntou. A voz grossa, geralmente fria e autoritária, carregava um tom brando e reverente que ele quase nunca usava conosco, exceto em datas sagradas. — Encontrou a paz que procurava no meio da escória? Ergui o rosto devagar e olhei direto nos olhos escuros do meu pai. Não vacilei, a mentira não exigia mais nenhum esforço da minha parte, se é que já exigiu. — Eu senti a presença de Deus, meu pai — respondi, a voz branda, as palavras saindo da minha boca com uma fluidez cínica. — Foi como se os céus tivessem se aberto no escuro daquele quarto humilde. Eu senti o paraíso me invadindo, preenchendo cada espaço dentro de mim com uma força indescritível. Os olhos de Alessio brilharam de puro orgulho cego. As rugas severas ao redor da boca dele se suavizaram. Ele deu um passo à frente e me envolveu em um abraço. Era um gesto raríssimo na nossa dinâmica. O aperto dele era rígido, cheirando a charuto importado, embora ele dissesse que não fumava, e loção de barba amadeirada. Fiquei ali, imóvel contra o peito do homem que me mantinha presa naquela fortaleza de pedra, saboreando a ironia macabra de ser abraçada e celebrada pela minha pureza inabalável logo após ter engolido cada gota do inimigo dele até me engasgar. A farsa ruiu no exato segundo em que cruzei a porta do meu próprio quarto. Joguei o terço em cima da penteadeira de mogno com um estalo seco e soltei o primeiro botão do colarinho restritivo, precisando desesperadamente de ar. A porta se abriu com violência às minhas costas, batendo contra o batente. Beatrice entrou como um furacão, os passos rápidos afundando no tapete persa. Logo atrás dela, uma Caterina terrivelmente pálida e ansiosa se esgueirou para dentro, tratando de fechar a madeira espessa e colocar uma cadeira na frente o mais rápido que pôde, as mãos tremendo. — Você acha que a gente não sabe? — Beatrice disparou, a voz falhando de raiva contida, os olhos castanhos cravados em mim como lâminas. — Bea, para com isso... as paredes têm ouvidos — Caterina sussurrou, andando para lá e para cá, esfregando os próprios braços com nervosismo. — Não, Caterina! — Beatrice apontou o dedo na minha direção, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante. — Ela está fazendo besteira e vai arrastar todas nós para o buraco. Você entende muito bem isso. Olha pra ela! O jeito como ela anda, o pescoço abotoado até o queixo no meio de julho. Você não estava rezando porcaria nenhuma naquele quarto, Aurora! — Sim, Bea, é óbvio que ela não estava, mas se o papai escutar a gente brigando aqui, vai fazer perguntas e vai mandar os homens dele investigarem — Caterina implorou, aterrorizada com a possibilidade real da nossa ruína coletiva. A caçula sabia o preço cobrado por se acobertar uma traição daquele tamanho. Ignorei o desespero de Beatrice. Terminei de abrir os três primeiros botões da gola e deixei o tecido ceder para as laterais. O hematoma escuro e roxo em formato de boca na base do meu pescoço, acompanhado das marcas fundas de dentes na minha clavícula, ficaram expostos sob a luz cristalina da manhã. Caterina tapou a própria boca com as duas mãos, abafando um som agudo de espanto. Beatrice arregalou os olhos, o choque absoluto roubando o resto da cor do rosto dela. Ela recuou um passo, como se estivesse diante de um cadáver. Fui até a borda da minha cama e me sentei devagar, sentindo os meus músculos cederem de vez no colchão macio da Villa Marino. Olhei para as minhas duas irmãs, a minha expressão tão fria, vazia e desprovida de remorso quanto a do assassino de Palermo que havia me marcado horas antes. — Ninguém vai ver nada e ninguém vai brigar — decretei, a voz baixa, cortando o pânico histérico das duas pela raiz. — Estou exausta. Passei a noite inteira em vigília pelos coitados... e assim que o sol se puser, nós vamos repetir tudo de novo. A segunda noite já está marcada. Beatrice balançou a cabeça lentamente, os olhos marejados transbordando o pavor de quem enxerga um abismo escancarado sob os próprios pés. — Nada disso vai terminar bem, Aurora. Ele vai acabar matando todas nós.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR