Capítulo 4

843 Palavras
NARRADO POR ELENA O sol já começava a tocar o fim da tarde quando desliguei o ar-condicionado do meu espaço, ajeitei a última maca e deixei o ambiente pronto para o dia seguinte. A correria no Laser Day tinha sido intensa — como sempre. Cinco atendimentos pela manhã, mais três na hora do almoço, e mais quatro clientes à tarde. Algumas vieram de fora, de cidades vizinhas. A fama tem crescido, e com ela, a responsabilidade. Mas eu gosto disso.
Gosto de saber que o que faço transforma, melhora a autoestima de outras mulheres.
Me sinto forte ali dentro. Poderosa. Tranquei a porta de vidro e caminhei até o meu Fiat Uno branco, duas portas, com a pintura ainda intacta e brilhando. Ele pode não ser o carro mais luxuoso da cidade, mas me acompanha firme: leva meus aparelhos quando atendo em domicílio, me leva até o sítio dos meus pais quando quero desligar do mundo… e também me leva aos encontros da vida. Como hoje. Entrei no carro, liguei a chave e suspirei. Já era quase seis da tarde. Tinha pouco tempo pra me arrumar antes do churrasco na casa da Marina e do Cristian. Eles são mais que amigos. São família.
Cristian é aquele irmão que a vida me deu, e Marina… bem, ela me conhece como ninguém.
Sabe das minhas dores. Dos meus medos.
E das cicatrizes que ainda escondo sob a pele. Estacionei em frente à minha casa — uma construção simples, mas moderna, com tons neutros e janelas grandes. Sempre tem cheiro de baunilha, flores e lavanda aqui. Meus três perfumes preferidos. Tudo organizado, limpo. Meu templo de paz. Joguei as chaves sobre a mesinha da entrada e fui direto pro quarto. Tirei a roupa com pressa e entrei no banho.
A água quente caiu sobre meu corpo, escorrendo por cada curva que conheço bem. Meu corpo… ah, ele sempre chamou atenção. Desde nova.
Quadril marcado, cintura fina, s***s fartos e pele bronzeada naturalmente.
Mas aprendi a controlar isso. A não oferecer demais.
Porque sei o que atrai olhares… e também o que atrai intenções erradas. Me sequei com calma e fui até o closet.
Escolhi um vestido rosa claro, florido, com decote generoso e alças finas. Ele era leve, delicado, mas com aquele toque que não passava despercebido. Passei um hidratante de cheiro doce na pele, deixei o cabelo liso solto, e finalizei com um batom nude. Me olhei no espelho.
“Pronta”, pensei. Mas no fundo, sabia que havia algo diferente hoje.
Uma sensação que não sei explicar. Um pressentimento. Calcei uma sandália confortável, peguei minha bolsa pequena e saí.
A cidade já tinha aquele brilho de noite de sexta-feira: postes acesos, risadas pelas calçadas, e o som distante de uma música sertaneja tocando em algum bar de esquina. Cristian mora num bairro mais afastado, numa casa espaçosa com quintal e varanda de madeira. Já estive lá dezenas de vezes. E mesmo assim, hoje parecia diferente. Quando parei o carro, o som da festa já invadia a rua. Desci com cuidado, alisei o vestido e caminhei até o portão. Marina veio ao meu encontro, sorrindo de orelha a orelha. — Mulher! Tá linda! — disse, me abraçando com força. — E você então? Tá uma musa do churrasco — brinquei, e rimos juntas. — Vem, vou te apresentar alguém hoje… — Não começa com essa história — cortei rápido. — Só quero vinho, carne, e uma noite de risada. Ela me lançou aquele olhar de “calma que você vai entender”. Entrei. A casa estava cheia de gente querida, rostos conhecidos. Música boa, mesa farta, Cristian dominando a churrasqueira com uma cerveja na mão. — Chegou a mais bonita da festa! — gritou ele ao me ver. Cumprimentei todos, ri, brinquei, peguei minha taça de vinho. Estava tudo leve. A noite perfeita pra não pensar em nada. Até que eu vi ele. Estava encostado na parede perto da varanda, segurando um copo de vinho, camisa branca impecável, mangas dobradas até os cotovelos, calça escura justa na medida certa… e aquele ar de homem que sabe o que quer. Os óculos no rosto davam um charme intelectual, mas era a postura dele que prendia.
Seguro. Silencioso.
Mas com um olhar que atravessava distâncias. — Quem é ele? — perguntei, sem disfarçar muito, sussurrando no ouvido da Marina. Ela sorriu com gosto. — Diego. O novo médico do posto. Amigo do Cristian. Separado, sem filhos… e extremamente educado. — Hm. Só isso saiu da minha boca. Fingindo naturalidade, dei mais um gole no vinho e olhei pra outro lado. Mas sabia que ele já tinha me visto. Era como se nossos olhares tivessem se cruzado mesmo sem se tocarem. Por um segundo, ele arqueou uma sobrancelha.
Um gesto sutil.
Mas foi como se dissesse: “Eu vi você.” E naquele instante, alguma coisa dentro de mim… se acendeu. Mas eu não corro atrás de homem.
Principalmente depois de tudo que já passei. Se ele quiser falar comigo…
Vai ter que vir até aqui.
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