Capítulo 5

798 Palavras
NARRADO POR DIEGO A noite estava morna, mas com aquele ventinho gostoso que só existe no interior. O churrasco já tinha passado da metade, e a cerveja gelada corria solta. O som da viola tocando ao fundo e a risada solta da galera deixavam o clima leve, íntimo. Cristian tinha puxado algumas cadeiras e almofadas pro quintal. Fizemos uma roda informal perto da churrasqueira. Eu estava sentado ao lado dele, com minha taça de vinho ainda pela metade, ouvindo mais do que falando. Até porque… eu estava distraído demais. Ela estava a dois lugares de mim.
Elena. O nome parecia ter sabor quando pensei.
Sentada com as pernas cruzadas, o vestido florido delineando cada curva de um jeito sutil, sensual sem esforço.
A risada dela era doce, mas firme. E havia algo no olhar… uma mistura de segurança com mistério. A cada movimento dela, uma parte de mim queria entender o que ela pensava. Quem ela era fora dali. — Ah, eu tô pensando em trocar de carro — ela disse, puxando o assunto na roda. Todos viraram o rosto. Cristian foi o primeiro a responder: — Tá na hora mesmo, hein. Mas vai trocar o Uno? Aquele branquinho é tua marca registrada já! Ela riu, ajeitando uma mecha do cabelo atrás da orelha. — Eu gosto dele, Cristian. De verdade. É econômico, nunca me deixou na mão, e ainda encara a estrada pro sítio dos meus pais como um valente. — Mas você quer mais conforto, né? — Marina comentou, sorrindo. — Isso. Algo mais estável. Mas que não beba combustível como um trator — completou Elena, olhando pro vinho. Antes que eu pudesse abrir a boca, Olívia — uma das amigas da Marina, sentada quase ao meu lado — resolveu entrar no assunto com aquele tom de voz meio melado. — Ai, menina… mas o carro do Diego é perfeito! Um luxo. Todo mundo viu chegando, né? Um Corolla Cross pretinho, coisa mais linda! Ela girou os olhos pra mim, como quem jogava charme com força. — Você acertou demais na escolha, Diego. Tem bom gosto… em tudo, eu aposto. Soltei uma risada curta, sem graça.
Vi a cara do Cristian tentando disfarçar o riso. — É um carro excelente — respondi, direto. — Muito confortável e seguro. Mas depende do que a pessoa busca. Eu gosto porque ando bastante, pego estrada… e gosto de silêncio dentro do carro. Olívia passou a língua pelos lábios. — Nossa, silêncio… adoro homens discretos. É tão… maduro. Eu apenas sorri educadamente e virei a taça nos lábios. Não era a primeira vez que uma mulher se jogava assim depois de ver o carro, o sobrenome, ou a profissão. E sempre me dava a mesma sensação: vazio. Mas o que me intrigou mesmo… foi o olhar de Elena. Ela não disse nada.
Não revirou os olhos.
Não interrompeu. Mas observava. Cada detalhe. Cada palavra.
Como se estivesse pesando minha reação. Cristian quebrou o clima, percebendo o desconforto: — E você, Diego, já andou muito por aqui? Tá conhecendo a cidade a fundo? — Aos poucos. Hoje saí tarde do posto. Mas Jardins me surpreendeu. Tem seu charme. — Espera só chegar as festas juninas e a Festa do Laço — Marina completou, animada. — A cidade vira um arraiá gigante. É tradição. Elena então se mexeu na cadeira, apoiando o cotovelo no braço, e perguntou: — E você sempre quis trabalhar com ultrassonografia? — Na verdade, comecei na medicina querendo ir pra emergência. Trauma. Ação. Mas depois que estagiei com diagnóstico por imagem… percebi que queria enxergar por dentro. Entender antes de agir. — Hm — ela respondeu, com um som quase inaudível, mas curioso. — Gosto da precisão. Do silêncio da sala, da concentração…
— …e de não ter que ouvir paciente gritando? — ela provocou, com um sorriso nos lábios. — Tem isso também — admiti, rindo. Por um segundo, nossos olhos se encontraram.
E ali… havia algo.
Uma eletricidade baixa, mas intensa. Olívia tentou puxar meu braço, rindo de algo que não ouvi direito, mas eu me desviei educadamente, focando de novo na conversa geral. E, de novo, os olhos de Elena cruzaram os meus.
Dessa vez com um pequeno sorriso de canto.
Como se dissesse: "Eu vi tudo." E eu soube, naquele instante, que ela não era como as outras.
Não se jogava.
Não precisava disso.
Porque ela já tinha um poder natural… e sabia muito bem disso. — A roda seguiu, as conversas fluíam, mas minha atenção ia e voltava pra ela. Quando ela cruzava as pernas, quando ria baixo com Marina, quando desviava os olhos de Olívia com um certo desprezo silencioso… Tudo nela me provocava curiosidade e controle ao mesmo tempo. E eu, sinceramente, não sei quanto tempo mais consigo ficar só observando.
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