Pré-visualização gratuita Capítulo 01
RAÍSSA
O morro nunca fica em silêncio. Sempre tem um som vindo de algum lugar: um baile acontecendo, uma moto cortando as vielas ou alguém gritando na rua. Mas naquela noite o barulho era diferente. Era o barulho do medo.
Matador tinha sido preso. Eu estava parada na varanda da casa dele, observando as luzes espalhadas pela Cidade de Deus. Parecia mentira. O homem que comandava tudo, o homem que nunca errava, agora estava atrás das grades. Apertei os dentes. Aquilo não fazia o menor sentido.
— Como ele foi pego? — perguntei.
Os homens reunidos na sala ficaram calados. Ninguém me respondeu.
— Eu fiz uma pergunta.
— Foi uma blitz... — alguém falou, finalmente.
Soltei uma risada seca, amarga.
— Matador não cai em blitz.
E não caía mesmo. Eu conhecia aquele homem há anos. Ele era cuidadoso demais para cometer um erro daqueles. Mas eu não tinha tempo para ficar procurando respostas agora; primeiro eu precisava resolver o problema. Cruzei os braços e encarei cada um deles.
— Escutem bem. Enquanto Matador estiver preso, ninguém faz nada sem passar por mim.
Vi alguns olhares atravessados, os mesmos olhares que eu conhecia desde a adolescência. Homens que não aceitavam receber ordens de uma mulher. Que pena, porque eu não estava pedindo a opinião de ninguém ali.
— Tem alguém contra? — perguntei, desafiadora.
Ninguém abriu a boca. Ótimo. Comecei a andar pela sala, impondo minha presença.
— A carga chega amanhã. Os pontos continuam funcionando normalmente. E se alguém achar que pode aproveitar a ausência do chefe pra fazer gracinha, eu mesma resolvo.
O silêncio absoluto respondeu por eles. Exatamente como eu queria.
Pouco depois a reunião acabou. Os homens foram embora e eu finalmente fiquei sozinha ou pelo menos achei que estava.
— Tá pensando demais — uma voz ecoou atrás de mim.
Revirei os olhos antes mesmo de me virar. Eu conhecia perfeitamente aquela voz.
— E você tá me observando demais, Relíquia.
Ele deu um sorriso torto, aquele sorriso irritante que parecia nascer grudado na cara dele.
— Alguém precisa ficar de olho em você.
— Eu sei me cuidar.
— É justamente isso que me preocupa.
Balancei a cabeça e voltou a olhar a paisagem. Por alguns segundos, nenhum de nós falou nada.
— O pessoal tá nervoso — ele comentou, quebrando o gelo.
— Eu também estaria.
— E qual é o plano?
Finalmente uma pergunta útil. Me virei de frente para ele.
— Tirar o Matador da prisão.
Relíquia arqueou a sobrancelha, surpreso.
— Simples assim?
— Simples assim.
— E como você pretende fazer isso?
Um sorriso surgiu no canto da minha boca.
— Amanhã eu vou visitar ele.
— Na cadeia?
— Quero ouvir da boca dele o que aconteceu.
Relíquia ficou me observando em silêncio.
— E depois?
Olhei diretamente nos olhos dele.
— Depois eu vou trazer meu chefe pra casa.
Pela primeira vez, ele não retrucou. Talvez porque soubesse que eu estava falando sério, ou talvez porque conhecesse bem aquele olhar o olhar que eu assumia toda vez que colocava uma ideia maluca na cabeça.
A verdade é que eu não sabia exatamente como faria aquilo, mas uma coisa era certa: Matador não ficaria preso. Não enquanto eu estivesse respirando. Eu devia minha vida àquele homem, e lealdade era uma das poucas coisas que eu nunca traía.