Capítulo 20

539 Palavras
Falação 📍 Cidade de Deus – Dia seguinte Raíssa Acordei com o barulho da rua diferente. Não era tiroteio, não era sirene — era burburinho. A favela falando de mim. De novo. Levantei da cama e fui direto pra janela. Uma senhora lavava a calçada com a mangueira. Dois moleques de bicicleta passaram cochichando, olhando pra minha porta. Um segurança do Relíquia fez sinal de respeito com a cabeça. Bruce já tava sentado no sofá, com café na mão e a TV desligada. — Cê viu, né? — ele soltou, me encarando. — O quê? — O Naldo. Já rodou nos grupos do zap. Vídeo dele no chão, gritando, os joelhos sangrando. Voz do povo é só uma: "Raíssa voltou." Suspirei, esfregando o rosto. Não era isso que eu queria. Mas também não era como se eu tivesse escolha. — E tão dizendo o quê? — perguntei, indo até a cozinha. — Que tu é sangue no olho. Que mexer contigo é pedir caixão. Que o Matador segura o morro, mas quem ainda mete medo é tu. Ri sem vontade. — E a Júlia? — Tá dormindo. Tranquila, pela primeira vez em dias. Assenti em silêncio. ** Mais tarde, fui até a padaria. Não andava nem dois metros sem alguém parar pra comentar. — “Ô Raíssa, já era hora de botar ordem!” — “Vi o vídeo, cê é f**a mesmo.” — “Cadeirante por sua causa! Mulher que mete respeito.” — “Se fosse comigo, fazia o mesmo, rainha.” E eu só sorria de canto, agradecia, mas por dentro... Era como se cada elogio fosse uma corrente me puxando de volta pro trono que eu tentei largar. ** À tarde, subi pra laje da casa do Relíquia. Ele tava no radinho com um dos vigias, rindo. Quando me viu, desligou. — Deu bom, hein? — ele disse. — Cê nem precisou falar nada. Tua resposta foi barulho. — Eu não queria barulho. Só queria proteger a Júlia. — Aqui não tem como separar uma coisa da outra, Raíssa. Tu pode largar o comando, o fuzil, o radinho... Mas teu nome, esse ninguém esquece. Tu é a história viva do morro. Suspirei, encarando a vista da favela lá embaixo. Crianças jogando bola, mulheres estendendo roupa, uns moleques fazendo rima no portão. — E se eu quiser só viver? Só isso... viver? Ele ficou em silêncio por uns segundos, depois respondeu: — Vai ter que lutar por isso também. Mas dessa vez, é uma guerra diferente. Mais difícil ainda. ** Desci a escada com o peso disso nas costas. Lá embaixo, vi Júlia sentada no degrau, com os cabelos presos e um sorriso leve, como se tivesse começando a respirar. — O morro todo falando de tu — ela disse, com um brilho nos olhos. — Que novidade — respondi, sentando ao lado. Ela pegou minha mão. — Obrigada por não ter me deixado sozinha. Apertei os dedos dela. — Por você, eu volto até pro inferno. Mas se depender de mim, hoje... A gente vai ficar aqui. Na calçada. No silêncio. Só vivendo. E pela primeira vez, mesmo com a favela em falação, o que me importava mesmo... Era quem tava do meu lado.
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