Pré-visualização gratuita Capítulo Um - Traição
Felícia
E aqui estava eu, olhando para todas aquelas fotos, em cada foto, uma mulher diferente. Provas. Provas da traição do homem que era tudo para mim, o homem que mais amava. Tão grande era a dor da decepção que m*l conseguia respirar, as lágrimas escorriam pelo meu rosto sem controle.
Fiquei meia hora trancada no banheiro do restaurante onde eu trabalhava, não sabia o que fazer, estava sem chão, era como se estivesse caindo em um buraco profundo e antes de me chocar contra o chão meu corpo fosse perfurado por várias facas afiadas. Eu precisava sair dali, eu precisava respirar e foi o que eu fiz.
Sai do banheiro e sem dar satisfação a ninguém peguei minha bolsa, deixando o avental sobre o balcão, ignorando os gritos dos meus colegas de trabalho me chamando. Deixei que o vento me levasse, e sem rumo, caminhei pelas ruas movimentadas e frias. Estava muito frio e Londres enfrentava o seu pior inverno. Depois de alguns minutos caminhando sem direção cheguei à praia e o vento gelado colidiu contra o meu rosto, trazendo o cheiro da maresia que invadiu minhas narinas, me fazendo respirar fundo. Eu estava cansada e só queria acordar daquele terrível pesadelo.
Sentei na areia da praia e deixei que as lágrimas voltassem a fluir dos meus olhos. Encarei o círculo brilhante envolta do meu dedo anelar, retirando ele em seguida. A peça que carregava uma pequena pedrinha transparente em seu topo, e que por muito tempo foi o símbolo de um amor que eu acreditava ser verdadeiro, agora era o símbolo de uma mentira, uma mentira que estava me destruindo por dentro. Olhei mais uma vez o anel, jogando-o no mar que trazia algumas ondas revoltadas, na esperança que junto daquele a ele, ele também levasse a minha dor.
O céu começou a escurecer, ainda era cedo, mas as nuvens escuras anunciavam uma grande tempestade, para fazer companhia a mesma que invadiu meu coração. Nada melhor que uma tempestade para combinar com os meus sentimentos mais recentes. Decidi que era hora de ir para casa, mas meu desejo era fugir. Fugir para o mais longe que meus pés pudessem me levar, onde tudo isso que estou sentindo não passasse de um terrível pesadelo. Decidi ir para casa, faria do meu quarto o meu refúgio.
Cruzei a porta do elevador, entrando naquele cubículo de aço e frio, digitando o número do andar do apartamento, o qual eu divido com minha mãe e a Alice, minha irmã mais nova. Encarei o meu reflexo no espelho do elevador, eu estava um trapo, olhos inchados, bochechas vermelhas e um semblante sofrido, mas tudo aquilo era o reflexo do meu atual estado. Sem falar que nesse estado eu teria que enfrentar milhares de perguntas da senhora Meredith, minha mãe, talvez ela não se importasse, mas ela iria querer saber o motivo do meu choro.
O elevador parou no andar indicado, andei vagarosamente até o meu apartamento, minhas pernas caminhavam por conta própria, estranhei pois o meu apartamento estava com a porta aberta. Me aproximei rapidamente ao ouvir vozes alteradas que vinham de dentro do lugar. Ao chegar na porta reconheci a voz daquele que por muitos anos foi o motivo dos meus sorrisos e hoje foi o causador de tamanha dor e decepção, era o Peter, meu atual ex-noivo. Além de sua voz, também reconheci a voz de Alice e da minha mãe, todos bastante alterados.
— Você não pode esconder isso dela, Peter ela precisa saber de tudo. — Disse Alice alto.
— Vocês não podem continuar com essa mentira, ela vai descobrir a qualquer momento. Peter, conte a verdade para ela, quanto mais cedo melhor. — Disse mamãe.
— O que esse crápula tem para me falar? — Perguntei assustando os três, que me olharam espantados.
— Felicia, meu amor. Faz tempo que chegou? — A expressão de Peter era de medo, pânico e tudo que eu queria era nunca mais ouvir a voz dele e ver o seu rosto.
Meu estômago revirou só ao ouvi-lo me chamar de amor.
— Cheguei a tempo suficiente para ouvir minha mãe falar sobre algo que eu preciso saber. O que vocês tem para me dizer de tão importante? — Dividi meu olhar entre Peter e Alice que estava chorosa enquanto segurava um papel em suas mãos. Vendo o estado que estavam, eu deduzi do que se tratava. Mais uma decepção me aguardava.
Um silêncio tomou conta da sala e eles se olhavam como se estivessem cometido um crime gravíssimo, e talvez, realmente estivesse e eu iria sofrer com o que eles estavam prestes a me revelar.
— Felicia, eu não posso esconder mais isso de você. Como mãe, é meu dever te contar tudo que está acontecendo. — Sim, minha decepção teria um tamanho bem maior, a mamãe também estava envolvida no que fosse que eles estivessem escondendo de mim.
Não demonstrei nenhuma reação. O que poderia ser pior do que eu já tinha vivido nas últimas horas. Mas eu estava enganada, meu ex-noivo e minha irmã queimaram os restos do meu coração que estava em pedaços.
— Eu estou grávida, Felicia. — disse Alice, travando a mandíbula.
— E o pai é o Peter. — Conclui vendo as expressões dele. Ganhando a confirmação de Alice com um aceno de cabeça. — E você sabia disso mamãe? Como foi capaz de esconder uma coisa dessas de mim? — Indaguei vendo a face de minha mãe empalidecer e seus olhos se inundaram de lágrimas.
— Amor, eu posso explicar. — O maldito ainda ousa me chamar de amor, é muito cara de p*u.
— Não me chama de amor nunca mais, seu desgraçado. — Não aguentei e bati em seu rosto. — Eu tenho nojo de você. Eu já sei de todas as outras traições suas, mas essa eu não esperava. Jamais imaginei que minha própria irmã fosse capaz de fazer isso comigo. — disse, deixando as lágrimas invadirem meu rosto mais uma vez. Lágrimas de raiva, decepção, tristeza e dor.
— Eu sinto muito, minha filha. — A voz da minha mãe soou fraca na sala.
— Não, você não sente. Se você sentisse, você teria feito o que é certo. Teria me contado sobre os dois assim que ficou sabendo do que eles tinham. — Suspirei e voltei minha atenção para minha irmã. — Quanto a você Alice, eu não sei nem o que falar. Você é minha irmã, minha amiga, a única pessoa que eu confiava na minha vida para contar todos os meus segredos, e você me traiu. — A pior dor é a da decepção de alguém que amamos.
— Eu sinto muito, irmãzinha. Mas eu sempre fui apaixonada pelo Peter, muito antes de vocês começarem a namorar eu já o amava, você que se intrometeu em nossas vidas, você o roubou de mim. — Confessou, apontando o dedo em direção ao meu rosto.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo, eu jamais ficaria com alguém sabendo que minha irmã sentia algo por ele.
— Eu não o roubei de você, Alice, vocês não tinham nada e eu não sabia dos seus sentimentos por esse desgraçado. — Expliquei. — Mas, quer saber, faça bom proveito. — Eu estava com nojo do Peter, e por mais que sentisse algo por ele, eu jamais queria ele de volta.
— Você é muito sonsa, Felícia. — debochou. — Quer saber, eu sabia de todas as traições do Peter, fui eu que te enviei as fotos, e fazem seis meses que estamos juntos. Enquanto você estava trabalhando no restaurante ou enfiada naquela maldita ONG, cuidando dos seus remelentos, eu estava nos braços do Peter, dando a atenção que ele precisava e você negava. — Alice cuspiu toda verdade, mostrando sua verdadeira face. — E tem mais, a mamãe sempre soube de nós.
Senti minhas pernas fraquejarem, quase perdendo o equilíbrio. Mas eu não podia deixar que eles vissem o quanto eu estava quebrada, que por dentro eu estava morrendo. Eu me matando de trabalhar para ajudar em casa mesmo, a mamãe e a Alice me traiam.
— Já chega, Alice. — Peter gritou. — Felícia, vamos conversar. Tudo vai ficar bem, tudo vai ser como antes. — Eu não conseguia entender como o Peter conseguia ser tão falso e pensar que depois de tudo que ele fez, as coisas ainda poderiam ficar bem.
— Peter, nada vai ser como antes, coloca isso na sua cabeça. Você foi um canalha comigo, me humilhou da pior forma. Você era meu noivo e agora é o pai do filho da minha irmã, você acha mesmo que tudo vai ser como antes? Eu não quero te ver na minha frente nunca mais, na verdade, eu não quero ver a cara de nenhum de vocês. — Confessei. — Para mim, vocês morreram, eu quero esquecer que um dia vocês existiram na minha vida. — Gritei assustando eles.
Gritei, deixando vir à tona toda a raiva que estava sentindo por ser traída pelas três pessoas mais importantes da minha vida. Sai do apartamento sem me importar com os gritos do Peter e da minha mãe me chamando, entrei no elevador e vi que a Alice o segurava para que ele não viesse atrás de mim, ela não sabia o quanto eu fiquei agradecida por isso.
Como havia imaginado mais cedo, uma chuva terrível caía sobre Londres. Não me importei com a chuva, muito menos com o frio que fazia lá fora. Senti cada pêlo do meu corpo se eriçando quando o vento frio entrou em contato com minha pele quente.
Os pingos da chuva se misturavam com minhas lágrimas. Continuei caminhando sem direção, as ruas estavam vazias, mas também quem se atreveria a sair de casa embaixo de uma tempestade daquelas, só alguém que estava totalmente quebrada, alguém que já não sentia mais nada, e esse alguém era eu. Acabei parando no parque onde vi Peter pela primeira vez e também onde demos nosso primeiro beijo.
Fechei meus olhos lembrando do dia que o conheci. O dia estava lindo, era início da primavera, a cidade estava colorida, flores que exalavam um perfume único traziam calmaria ao meu coração. Eu estava sentada embaixo de uma grande árvore de cerejeira, enquanto lia mais um de meus romances preferidos.
Mas uma gargalhada tirou toda minha atenção, seus olhos brilharam quando encontraram-se com os meus. Fechei o livro e fiquei observando o jovem que brincava com seu cachorrinho, seu sorriso era encantador e seus cabelos negros caídos sobre sua testa o deixava ainda mais lindo. Quando sorria seus olhos formavam apenas dois risquinhos deixando o garoto ainda mais belo.
Fiquei admirando a brincadeira dele com o seu cão, por alguns minutos, quando fui descoberta, os olhos dele se encontraram com os meus, esse encontro de olhares me fizeram sentir algo diferente, as famosas borboletas no estômago. Ele me encarou por alguns segundos e em seguida me deu o sorriso mais lindo e sedutor. Era o que Peter era um grande sedutor.
Eu não me importava mais com o livro, a cena à minha frente estava mais interessante, e pensando em guardar aqueles momentos únicos de um desconhecido, tirei minha câmera da bolsa e comecei fotografar cada momento daquela brincadeira entre Peter e seu cãozinho. Eu era uma garota ingênua, e não imaginei que aquele sorriso lindo e sedutor iria se tornar a minha desgraça.
Continuei andando sem saber para onde ir, minhas roupas estavam encharcadas, meu sobretudo e meu tênis estava pesando o triplo. Sem prestar atenção e confiante de que a rua estava deserta, atravessei a mesma sem me importar de olhar para os lados.
Apenas vi duas luzes fortes vindo em minha direção, logo sentindo um impacto sobre meu corpo. Fechei meus olhos imaginando o pior. Mas para minha sorte o motorista conseguiu desviar o carro, pegando apenas de raspão no meu corpo, o qual foi jogado ao chão mais pelo susto do que pelo impacto, acabei torcendo meu pé esquerdo e cortando minha mão.
A dor era forte, não conseguia me levantar, e minha mão que tinha cortado na hora da queda ardiam com o contato com a água.
— Só faltava essa para fechar com chave de ouro o pior dia da minha. — resmunguei sentindo meu pé latejar.
— Você está bem? — Uma voz rouca me fez olhar para cima.
Me perdi encarando as duas luzes brilhantes que o estranho carregava, duas luzes que se destacavam naquela noite escura e tempestuosa, nem mesmo as estrelas que eu costumava observar tinham o brilho que aqueles dois oceanos azuis tinham. Foi a primeira coisa que chamou minha atenção naquele homem, e dentro de mim eu sentia que aquele lindo olhar, carregado de preocupação, ainda iriam me surpreender muito.
— Moça, fala alguma coisa. Você está bem? — Abaixou-se ficando cara a cara comigo, me encarando com aquelas duas orbes que eram ainda mais lindas de perto.
— Torci o pé, dói muito e cortei minha mão. — Mostrei a mão para ele que estava ensanguentada.
— Me desculpa, por favor! — Implorou preocupado. — A visibilidade está péssima, e você apareceu do nada, por sorte consegui desviar de você, nem quero imaginar o que poderia ter acontecido com você caso viesse em alta velocidade. — Desculpou-se muito preocupado.
— Tudo bem, relaxa. Eu também sou culpada, estava distraída, e atravessei a rua sem olhar para os lados. — Falei tocando sua mão que estava sobre meu joelho.
— Vem eu te ajudo, vamos para o hospital. Precisamos saber o que aconteceu com esse pé e fazer um curativo na sua mão, para não infeccionar. — Pensei em recusar a ajuda dele, mas eu estava sentindo muita dor e meu corpo já estava reagindo ao ser exposto por tanto tempo no frio.
Ele me ajudou a levantar, me levando até o carro. Mas antes de sairmos ele ligou para alguém, contando o que tinha acontecido e sobre o meu estado. Mas pela sua expressão, a conversa não tinha sido muito boa.
— Eu não tenho boas notícias. — Disse me encarando, e eu só conseguia admirar os olhos dele. Mas uma notícia r**m nesse dia de cão que eu estava vivendo não faria a menor diferença para mim. — Liguei para meu irmão que trabalha no hospital mais próximo daqui, e o hospital está lotado. Aconteceu um acidente envolvendo alguns veículos, deixando muitos feridos. E se eu te levar para lá corre o risco de você nem ser atendida hoje. — Informou. — O próximo hospital fica mais longe daqui, e com a chuva e o trânsito vai demorar horas para chegarmos. — Disse me encarando. — Eu posso te deixar em casa e posso cuidar do seu machucado, e imobilizamos seu pé até amanhã. — Sugeriu, mas eu não tinha para onde ir e não queria voltar para casa.
— Eu estou muito longe de casa, e nesse momento quero ficar ainda mais longe daquele lugar. — disse com a voz embargada, lembrando de tudo que aconteceu para eu estar ali, naquele estado.
— Você está fugindo de alguém? Alguém te fez algum m*l? Se quiser podemos ir até a polícia, eles podem te ajudar — Disse com um semblante preocupado.
— Sim, sim e não. As pessoas que me fizeram m*l não podem ser punidas pela justiça. — Exclamei, sentindo calafrios percorrerem pelo meu corpo.
— Já entendi. Bom, diante da situação que se encontra e a essa chuva que parece que fica mais forte a cada minuto, eu sugiro irmos até a minha casa, é o lugar mais próximo que eu conheço e que posso cuidar de você. E se continuar com essa roupa molhada por muito tempo, seu corpo entrará em hipotermia, e não queremos que isso aconteça, não é mesmo? — Indagou e eu neguei com a cabeça.
— E sua esposa vai gostar de ver você chegando em casa com uma estranha? — Indaguei preocupada, não queria causar problemas para ele.
— Não se preocupe, eu não sou casado, moro sozinho. — Confessou dando partida no carro.
Fiquei um pouco apreensiva, eu não o conhecia. Não sabia o que ele poderia fazer comigo. Eu nem mesmo sabia o nome dele.
— Não precisa ter medo, eu não vou te machucar, pelo contrário vou cuidar dos seus machucados. — Me assustei, parecia que ele estava lendo meus pensamentos. — A propósito eu sou Carter, Carter Williams. — Se apresentou.
— Meu Deus, você é o Carter Williams, da construtora Williams? Responsável pela reforma da ong Crescer com Virtude? — Me empolguei com a revelação , eu não o conhecia, apenas fiquei sabendo do grande ato que ele fez para aquelas crianças carentes.
— Sim, sou eu mesmo. E você quem é? — Ele sorriu.
— Me chamo Felícia Cooper. Sou voluntária na ong, eu adoro aquele lugar. — falei e ele continuava sorrindo, que por sinal era um belo sorriso.
Carter é um homem lindo, não é jovem, talvez já tenha passado dos trinta. Mas tem um porte atlético que poucos novinhos que conheço têm, pude notar pelos braços fortes marcados na camisa quando ele tirou o casaco que estava molhado e suas costas largas.
— Eu me sinto um pouco m*l, por não ter tempo para visitar a ong sempre. Fiquei muito feliz em poder ajudar aquelas crianças e com as novas instalações, mais crianças tiveram oportunidade de fazer parte dos projetos. — Disse prestando atenção no caminho.
Ele falava das crianças com muita alegria e sinceridade, com certeza ele tinha um bom coração.
— As crianças iriam gostar de conhecer você, elas sempre falam que o Tio Carter devolveu a esperança a elas. — Falei com a voz um pouco trêmula por causa do frio.
A ong oferece cursos para crianças e adolescentes de famílias carentes, dando uma chance para eles terem um futuro melhor. Além de brincadeiras e lazer.
— Não sabia que era tão famoso entre eles. — falou me olhando rapidamente. — Chegamos. — Avisou enquanto o portão da casa se abria. Que por sinal era uma linda e grande casa.
Ele estacionou o carro na garagem e eu m*l conseguia retirar o cinto, eu tremia demais, e por um minuto me arrependi por ter saído durante uma tempestade.
— Deixa que eu te ajudo. Você precisa tirar essas roupas e vestir algo quente. — Falou preocupado. — Se algo r**m acontecer com você, prometo procurar os responsáveis por você está nesse estado e fazê-los pagar por tudo. — Falou ríspido e não controlei a risada.
— Não vai precisar, eu vou ficar bem. Mas se algo acontecer, na minha bolsa tem o meu antigo endereço, faça eles pagarem por tudo. — disse a última frase mais para mim do que para ele.
Carter abriu a porta com uma certa urgência, passamos pela sala e ele me levou diretamente para o banheiro de um quarto. Me ajudou a tirar o sobretudo, o casaco e com muita delicadeza e cuidado tirou o tênis do meu pé machucado. Que já estava bastante inchado.
— Eu vou pegar algo quente pra você vestir, consegue tirar o resto das roupas sozinha? Tem toalhas limpas aqui e um roupão, pode usá-lo para você se sentir mais confortável. Irei deixar a roupa sobre a cama. Será que você consegue chegar até lá? — perguntou com o cenho franzido. No pouco tempo que passei com ele, notei que era uma pessoa que se preocupava bastante com os outros.
— Pode ficar tranquilo, eu consigo. Qualquer coisa eu grito. — sorri. — É bom você também trocar de roupa, elas estão molhadas. — Não queria que ele pegasse um resfriado por minha causa.
— Eu vou sim, irei pegar uma roupa pra mim e outra pra você. Vou usar o banheiro do quarto de hóspedes e já venho cuidar desse pé e dessa mão. Fica a vontade, e pode usar o que quiser. — Disse e me deu um pequeno sorriso.
Carter saiu do banheiro e eu pude notar que ninguém me tratava bem desse jeito, desde quando meu pai saiu de casa, quando eu tinha nove anos.
Com dificuldade tirei minhas roupas e segurando nas paredes consegui ir até o chuveiro, deixando a água morna cair sobre mim. Terminei o banho e peguei uma toalha enrolando ela nos meus cabelos, em seguida vestindo um roupão azul marinho que tinha um cheiro suave.
Saí do banheiro e pude observar o quarto, tinha uma decoração simples, porém moderna. Paredes em cor azul marinho e bege, assim como as roupas de cama. Sentindo muita dor no pé e o corte que não parava de arder fui até a cama, pegando o conjunto de moletom cinza que estava sobre a cama. Vesti e percebi que cabiam duas de mim dentro da peça, mas estava bastante confortável e com um cheiro muito bom, que apesar de estar limpa e com um cheiro de amaciante, o aroma do perfume era bem mais notável.
Demorei bastante para conseguir vestir a roupa, cada movimento era uma pontada no meu tornozelo. Tenho quase certeza que eu não apenas o torci. Sentei na cama apoiando meu pé sobre ela, logo escutando batidas na porta.
— Pode entrar. — Gritei autorizando a entrada de Carter. Ele estava vestindo também um conjunto de moletom, só que preto.
— Pelo menos o moletom serviu — sorriu, entrando no quarto com um copo d'água e uma cartela de comprimidos. — É um analgésico, meu irmão me pediu que te desse, ele falou que vai ajudar a amenizar a dor até amanhã. — Explicou.
— Obrigada — Falei pegando o medicamento.
Carter começou a fazer a assepsia da minha mão com muita destreza e cuidado, terminando com um curativo. Permaneci calada durante o processo revivendo alguns momentos do meu dia. Carter estava com sua atenção voltada para meu pé que ele já tinha colocado sobre um travesseiro deixando ele um pouco elevado.
— Você quer conversar sobre o que aconteceu? — perguntou, levantando uma sobrancelha, enquanto me encarava.
Suspirei me questionando se deveria contar a ele tudo que se passou comigo. Ele estava sendo muito atencioso comigo, e talvez falar com ele seria bom pra mim.
— Você não precisa falar se não quiser — ele começou a dobrar a perna da calça do moletom até metade da minha perna.
— Eu fui traída — falei e ele me olhou — Meu noivo me traiu várias vezes, com várias mulheres diferentes, e uma dessas mulheres está grávida, e é a minha irmã. Minha mãe sempre soube do envolvimento com os dois e nunca me contou. Aquelas que deveriam ser meu apoio, minhas amigas, me apunhalaram pelas costas. — Falei tudo antes que faltasse coragem.
— Eu sei como se sente. E tudo isso você descobriu em apenas um dia. E como se não bastasse o que estava passando, ainda teve o desprazer de ser atropelada por mim. — brincou e eu sorri.
— Não diga isso, não foi um desprazer. Talvez se não fosse esse incidente eu ainda estaria lá fora, na chuva. Eu não tinha para onde ir. Eu poderia até estar morta agora. Morrer de frio não seria uma morte legal. — Sorri encarando seus lindos olhos azuis.
— Morrer não é legal, independente da maneira. Mas não vamos pensar nisso, agora você está bem, tirando esse pé machucado e um coração quebrado, de resto você me parece bem. Até sorriu, isso já é um bom começo. — Falou segurando meu pé passando uma faixa nele. — Eu vou deixar seu pé imobilizado, amanhã eu te levo para o hospital e eles examinam se tem algo quebrado. — Avisou.
— Obrigada por tudo, de verdade — Ele me observou sorrindo em seguida.
— Não precisa agradecer. Vou colocar suas roupas na secadora e pegar alguma coisa para nós comermos, eu não jantei e tenho certeza que você também não. — Ele era um homem gentil, mas porque estava sozinho?
— Eu não comi nada o dia todo — Confessei.
Carter saiu do quarto me deixando sozinha. Aproveitei para pegar meu celular. Verifiquei as notificações e tinha apenas chamadas do Peter e da mãe dele, que era também a minha chefe, nenhuma chamada da minha mãe ou da Alice. Nunca se importaram comigo, não seria agora que iam se importar. Desliguei o celular para não ser perturbada.
— A Rose deixou sopa de legumes, espero que goste — Carter entrou com uma bandeja e duas tigelas sobre ela.
— Eu como de tudo, não tenho frescuras com comida. — Não existe uma comida sequer que eu não goste.
— Isso é ótimo, eu também sou assim. Tenho um paladar fácil de agradar. — me entregou a bandeja e o cheiro estava ótimo, tomei uma colherada cheia, fechando meus olhos aproveitando o sabor maravilhoso daquela sopa.
— Vida longa a pessoa responsável por algo tão delicioso. — Ele sorriu.
— A Rose vai amar saber disso. — disse divertido.
Tomei toda a sopa em um piscar de olhos e Carter fez o mesmo. Parecia que não tinha me alimentado a dias. Sem falar no quanto eu estava confortável com aquele homem, era como se já nos conhecêssemos a anos.
— Você precisa descansar agora, pode ficar aqui mesmo. Vou deixar a porta entreaberta e irei fazer o mesmo com a do quarto ao lado, onde estarei. Qualquer coisa é só chamar, eu tenho um sono leve. Boa noite. — desejou.
— Boa noite e mais uma vez obrigada. — Ele assentiu e saiu com a bandeja em mãos, apagando a luz deixando apenas o abajur ligado.
Me sentia exausta, e apesar de tudo que aconteceu comigo eu não me permiti mais chorar. Eles não mereciam uma lágrima sequer. Estava na casa de um desconhecido que me tratou melhor em poucas horas do que minha família em anos, de certa forma eu me sentia segura.
Observei pelo pequeno espaço aberto da cortina do quarto que ainda chovia, o céu estava caindo sobre Londres. Aos poucos o cansaço foi tomando conta do meu corpo e inalando aquele aroma gostoso que agora não só vinha do moletom, mas também do travesseiro, eu peguei no sono e dormi tranquilamente, como a muito tempo não dormia.