Eu sei que dormir em uma cama macia podia ser inúmeras vezes melhor, mas acho que eu estava sentindo tanta falta de Malekith quanto podia admitir. Minhas noites de sono não eram mais as mesmas, sempre sentia que faltava algo e nunca dormia bem. Deve ser por isso que babei e ronquei como uma gazela refinada. Quando abri os olhos, Malekith me olhava com olhos cuidadosos, mas ao mesmo tempo admirando algo.
Sentado ao lado da esteira, ele segurava um pedaço de um pão e o mastigava mirando sua atenção para mim, que imediatamente tratei de limpar o canto da baba e tentava arrumar os cabelos loiros, que foram para todos os lados no meio da bagunça.
— O monstro que habita dentro da divindade é barulhento demais. — reclamou, mascou um grande pedaço de pão e me olhou duro.
— Monstro? — repeti com o raciocínio fraco, até entender que ele falava do meu ronco. — Que s*******m! Ronco, eu? Eu só dormi bem. Você não?
— Coma. — respondeu seco, e me passou a bandeja, me olhando de um jeito cuidadoso demais. — Não irei lhe responder sobre os meus modos de acolher. A divindade pode usá-la para algum tipo de ataque.
— Nem um beijinho de bom dia? — perguntei na tentativa, o mesmo cerrou os dentes e rosnou grosso, ficou me olhando como um predador perigoso e notou que eu não me importei. — Jura que acha que vou fazer alguma coisa com você enquanto você dorme?
Ele pareceu se irritar com o assunto casual e eu acabei sorrindo. Acordei viva, com Malekith me olhando sem se conter e sabe se lá quais pensamentos está tendo. Uma coisa é certa, ele precisa ficar por perto. Com todos os problemas da ilha, ele deveria estar ajudando seu povo, mas estava aqui. Lá no fundo, bem lá no fundo, ele não quer se afastar.
— Paciência Stella… — murmurei para mim mesma, peguei a bandeja de prata ao lado da esteira e mordi o pão adocicado, fechando os olhos de saudade. Mesmo que eu comesse bem no outro mundo, até disso senti falta.
Enquanto saboreava o pão, senti o olhar de Malekith sobre mim. Era um olhar penetrante, cheio de mistério e sentimentos complexos que eu ainda estava tentando decifrar. Ele não podia negar que havia uma conexão entre nós, algo que ia além das circunstâncias que nos trouxeram a esse mundo desconhecido. E só isso podia explicar sua insistência em não entender.
Era estranho, porque sei que ele estava desconfiado. Decidi quebrar o silêncio que pairava no ar, sabendo que era importante estabelecer uma comunicação clara entre nós, ao menos eu precisava tentar.
— Malekith, eu sei que nossa situação é complicada e…
— Grande Líder. Seu senhor. — rosnou entre os dentes — A Fêmea não possui este direito.
— Entendi. — suspirei, sentindo que estava falhando em minha tentativa de novo, mas ainda insisti — Enfim, sei que não posso ignorar os problemas que estão acontecendo aqui e precisamos encontrar uma maneira de conciliar nossos objetivos. Me deixa te contar o que realmente aconteceu, e talvez você entenda. O que existe entre nós só vai te fortalecer, não vai te machucar.
Ele permaneceu em silêncio por um momento, ainda observando-me. Então, finalmente suspirou e recostou-se um pouco, parecendo mais relaxado.
— Minha ilha está passando por tempos difíceis, mas também não posso ignorar a conexão que sinto com você. É algo que não compreendo completamente, mas não posso negar sua influência em minha mente. — Fiquei surpresa com a honestidade de suas palavras. Era um vislumbre da vulnerabilidade que Malekith raramente mostrava. Percebi que, apesar de sua fachada fria e distante, ele também estava enfrentando dilemas internos, assim como eu. E isso me deu esperanças, no entanto, elas se derreteram logo em seguida. — Já comunguei com os feiticeiros, espíritos conectados com os Deuses. A fêmea será entregue para um ritual religioso a fim de estipular uma troca, para minha liberdade. Vais me livrar destas malditas amarras poderosas custe o que custar!
Na minha bünda ninguém quer fazer carinho, né? Ele realmente acabou de admitir que sente algo por mim e que por isso eu vou me föder num ritual macabro para ele se libertar? Ele não faz ideia de como isso acaba comigo. Se ele me desse uma chance de saber do passado, não iria me culpar, eu acho.
— Talvez possamos ajudar um ao outro. — respondi com cara de bünda, mas tentando conversar. — Porque ao invés de pensar em ferrar a minha vida, você não tenta fazer as coisas pacificamente? Se eu realmente for uma Deusa, você pode estar ferrando com sua opção! — Ele franziu o cenho, se aproximou como um cão observador e eu enchi a boca de pão, pouco me ligando pros seus rosnados. — Você quer jogar esse jogo, eu jogo. Mas é só você quem está perdendo, e a sua ilha!
Malekith crispou os olhos lentamente, como se estivesse considerando minhas palavras. Ele fervia, não sei se de raiva ou por perceber que seu maldito plano não é inteiramente racional. Até que ele finalmente abriu a boca.
— Maldita Deusa astuta. — soltou entre os dentes, franziu o cenho e se levantou, dando-me a perfeita visão do triângulo do seu corpo e dos músculos das costas. — Se pensa que irá conseguir me persuadir com seus métodos de sedução, engana-se! Não irei ceder minha vida e nem meu povo. Irás me libertar, sob qualquer circunstância!
Enquanto ele falava, vi um lampejo de determinação em seus olhos. Era como se ele estivesse disposto a superar suas próprias barreiras para alcançar um objetivo maior. Era uma visão completamente diferente do homem que conheci inicialmente, e isso me fez acreditar que talvez houvesse mais a descobrir sobre o atual Malekith do que eu podia imaginava.
Eu mastiguei calmamente o último pedaço de pão, estudando o cachorro de raça com um olhar de desafio e curiosidade. Era evidente que nossa relação estava longe de ser simples, e as camadas de mistério que envolviam tanto ele quanto eu parecia estar piorando a cada palavra trocada.
— Meus métodos de sedução? — ri suavemente, levantando uma sobrancelha. — Não seja tão convencido, Malekith. Não é minha intenção seduzi-lo, mas sim encontrar um meio de resolver esse impasse sem mais derramamento de sangue. Se há uma maneira de você alcançar seus objetivos sem sacrificar vidas, por que não considerá-la? Porque me culpar por algo que pode ser a sua solução? Não é sedução. É um pouco óbvio, não acha?
Malekith bufou, claramente irritado por não ter conseguido provocar a reação que desejava. Ele se virou para me encarar, perdido em pensamentos por um momento. Mas, não cedeu.
— Não compreende a gravidade do que está em jogo. A magia que flui em minhas veias é essencial para a sobrevivência do meu povo. Não posso simplesmente desistir disso.
— Acredite, Malekith, a solução não precisa ser binária. Há sempre alternativas, possibilidades que ainda não foram exploradas. Se ambos estivermos dispostos a encontrar um terreno comum, quem sabe o que poderíamos alcançar juntos?
Ele permaneceu em silêncio por um momento, como se ponderasse minhas palavras. Senti que havia uma chance real de mudar sua perspectiva, de mostrar a ele que nem tudo estava perdido.
— É uma fêmea intrigante, Deusa ou não. — Ele finalmente falou, sua voz carregada de uma mistura de frustração e ódio. — Mas nunca, jamais, espere de minha parte uma rendição. Jamais irei ceder a esta maldição que me impôs.
Sorri, satisfeita por ter pelo menos plantado a semente da dúvida em sua mente. Não era uma vitória completa, mas era um começo. Enquanto o sol nascia no horizonte, eu sabia que as próximas etapas dessa jornada seriam desafiadoras, mas eu estava determinada a encontrar uma solução que beneficiasse a todos, Deusa ou não, Malekith só precisava enxergar o óbvio: o nosso fio do destino.