Capítulo 7

1146 Palavras
O silêncio dentro do quarto do hotel era alto demais. Eu joguei a bolsa sobre a poltrona e tirei os sapatos sem muita delicadeza, sentindo finalmente o cansaço do dia pesar no corpo. Mas não era um cansaço físico. Era outra coisa. Algo que parecia ter voltado de repente, algo que eu passei anos tentando enterrar. — Você vai me contar o que foi aquilo? A voz de Ari veio atrás de mim, firme. Eu fechei os olhos por um segundo antes de me virar. Ela estava parada perto da porta, braços cruzados, me olhando com aquela expressão que eu conhecia bem demais. Ela já sabia. Ou pelo menos… sabia o suficiente. — Aquilo o quê? — tentei, mesmo sabendo que era inútil. Ari soltou uma risada curta, sem humor. — Sério, Elena? Eu desviei o olhar, caminhando até a janela. A vista de Miami à noite era bonita. As luzes da cidade piscavam em diferentes tons, os carros passavam como pequenos rastros de movimento lá embaixo. Tudo parecia distante, controlado. Diferente do que estava dentro de mim. — Você travou — Ari continuou. — Na hora que viu ela. Não respondi. — E não foi um “ah, conheço de algum lugar” — ela disse, se aproximando. — Foi… outra coisa. Respirei fundo. — Ari... — Não, Elena — ela me interrompeu, mas o tom não era agressivo. Era preocupado. — Você não precisa fingir comigo. Aquilo me desmontou mais do que qualquer confronto. Porque Ari sempre esteve ali. E eu sabia disso. — Ela é a Maya — falei, finalmente. O silêncio que veio depois foi imediato. Pesado. — A Maya… — Ari repetiu, mais baixo. — Aquela Maya? Assenti. Não precisei dizer mais nada. Ari passou a mão pelo rosto, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos. — Você tá de brincadeira comigo. — Queria muito estar. — Eu soltei um suspiro fraco. Ela começou a andar de um lado pro outro. — Então… deixa eu ver se eu entendi — disse, apontando pra mim. — A sua ex. O seu primeiro amor. A pessoa que você nunca superou… — Ari... — …É a noiva do cara que contratou a gente pra fazer o casamento? Fiquei em silêncio. Porque… sim. Era exatamente isso. Ari soltou uma risada incrédula. — Não, isso não é real. — Eu também achei — murmurei. Ela parou na minha frente. — E você não fazia ideia? — Nenhuma. Ari me observou por alguns segundos. — E você vai fazer o quê? A pergunta ficou no ar. Simples, mas impossível. — Eu vou trabalhar — respondi, automático. Ela arqueou a sobrancelha. — Ah, claro. Óbvio. Super simples. — Ari... — Não, eu quero entender — ela insistiu. — Você vai simplesmente agir como se nada tivesse acontecido? — Não é como se eu tivesse escolha. — Sempre tem escolha, Elena. Balancei a cabeça, negando. — Não dessa vez. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Me analisando. — Você ainda ama ela? A pergunta veio direta. Sem preparação, sem espaço pra fuga. Meu peito apertou. — Isso não importa. — Importa sim. — Não importa — repeti, mais firme. Porque se importasse… Eu estava perdida. Ally cruzou os braços. — Você não respondeu. Eu desviei o olhar. — Eu tenho uma vida em Paris. — Eu não perguntei isso. — Eu tenho um relacionamento. — Elena — ela disse, mais calma agora — eu não tô perguntando da sua vida. Eu tô perguntando de você. — Eu não sei — respondi, por fim. E aquela era a verdade. A mais honesta que eu tinha. Ari suavizou um pouco a expressão. — Você nunca falou muito sobre ela. Soltei uma risada baixa. — Não tinha muito o que falar. — Tinha sim — ela rebateu. — Você só nunca quis. Encostei na janela, cruzando os braços. — Foi… complicado. Ari revirou os olhos de leve. — Isso eu já percebi. Apesar de tudo, um pequeno sorriso escapou de mim. — A gente era nova — continuei. — Intensa demais. Tudo era demais. — E acabou m*l. Não era uma pergunta. — Acabou — confirmei. Ari me observou com mais atenção. — Você foi embora por causa dela? Engoli seco. Aquilo… ninguém nunca tinha perguntado daquele jeito. — Em parte. — Em parte? — ela repetiu. Suspirei. — Eu fui embora porque ficar tava me destruindo. Ari ficou em silêncio. Esperando. — A gente se amava — falei, mais baixo. — Mas não sabia fazer isso direito. Ela assentiu lentamente. — Isso acontece. — A gente brigava muito — continuei. — Coisas pequenas viravam enormes. E mesmo quando tava tudo bem… parecia que não ia durar. — E aí você foi embora. — Eu fui embora. As palavras ainda tinham peso, mesmo depois de seis anos. Ari inclinou a cabeça. — E você falou isso pra ela? O silêncio respondeu antes de mim. — Elena… — ela disse, quase em um suspiro. — Eu não consegui. — Você simplesmente… foi? — Não foi assim. Mas, no fundo… foi. Ari passou a mão pelo cabelo. — Agora eu entendo. — Entende o quê? — O jeito que ela te olhou. Aquilo fez meu coração acelerar de novo. — Como? — Como alguém que não teve um ponto final — ela respondeu. — Só ficou… no meio da frase. Fechei os olhos. Porque era exatamente isso. — E agora você tá aqui — Ari continuou. — No casamento dela. Soltei uma risada fraca. — Ironia, né? — Crueldade — ela corrigiu. O silêncio voltou. Mas dessa vez… menos pesado. Mais pensativo. — E a Laura? — Ari perguntou, de repente. Abri os olhos. — O que tem ela? — Ela sabe disso tudo? — Não. — Vai contar? Demorei um pouco pra responder. — Eu nem sei o que “isso tudo” é ainda. Ari assentiu. — Justo. Ela se aproximou um pouco mais. — Só… não se perde, tá? Olhei pra ela. — Eu já me perdi uma vez. — Então não faz isso de novo... — Ari suspirou, descruzando os braços. — Tá, agora eu preciso de um banho porque esse dia foi um caos emocional que eu não pedi. Aquilo me arrancou um sorriso de verdade. — Bem-vinda à minha vida. — Tô começando a achar que eu devia ter ficado em Paris — ela disse, indo em direção ao banheiro. — Tarde demais. — Muito tarde — ela respondeu, antes de fechar a porta. Fiquei sozinha, de novo. Mas não era o mesmo tipo de silêncio de antes. Agora tinha consciência, peso, memória. Caminhei devagar até a cama, sentando na beirada. Minha mente voltou automaticamente para aquela noite. Para o olhar dela, para a voz dela. “Oi, Elena.” Fechei os olhos, e pela primeira vez desde que cheguei em Miami eu não tentei afastar.
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