“Eu achei que tinha seguido em frente… só não sabia que o meu passado ainda sabia exatamente onde me encontrar.”
Eu não estava pronta para aquilo.
Não importava o quanto eu tentasse manter a postura, o quanto eu repetisse mentalmente que aquilo era apenas um trabalho — meu corpo simplesmente não obedecia.
O vestido azul claro caía com leveza pelo corpo dela, acompanhando o movimento suave que ela fazia ao se inclinar para cumprimentar quem estava ali.
Foi ali que meu coração começou a acelerar. Não por entender, mas por reconhecer mesmo sem querer.
O som sumiu. O ar ficou pesado. E cada passo que ela dava na minha direção parecia ecoar dentro de mim como uma batida alta, forte, descompassada.
Meu coração doía, minha respiração falhou e tudo ao meu redor virou um borrão.
— Ariana, Elena — Phillip disse ao se aproximar. — Conheçam a minha noiva, Maya.
O nome atravessou meu peito como se tivesse sido guardado ali o tempo inteiro.
Ari reagiu primeiro.,
— É um prazer em finalmente te conhecer — ela disse, estendendo a mão.
Maya sorriu.
O mesmo maldito sorriso.
— O prazer é todo meu, Ariana.
Então ela olhou pra mim. E o tempo… travou de vez.
— Oi, Elena.
Engoli seco.
— Oi Maya.
— Vocês já se conhecem? — Phillip perguntou, olhando entre nós duas.
Antes que eu conseguisse organizar qualquer resposta, ouvi duas vozes familiares ao mesmo tempo.
— Elena?!
— Eu não acredito!
As duas mulheres altas que eu havia julgado serem as madrinhas e que antes estavam próximas à mesa, de costas para onde eu e Ari estávamos, nada mais eram do que duas amigas do passado.
Olhei para o lado e vi Naomi e Diana vindo em minha direção.
— Elena, eu não acredito que estou te vendo na minha frente depois de tanto tempo! — Naomi disse, abrindo os braços.
— Naomi, você está maravilhosa como sempre! — respondi, abraçando-a.
O abraço foi firme, quente, real. Por um segundo, aquilo quase pareceu normal.
— Diana, você também está incrível — falei, me virando para a loira.
— Pensei que nunca mais fôssemos te ver — ela disse, me puxando para um abraço apertado.
Respirei fundo, tentando me manter ali, presente.
— Alguém me explica o que está acontecendo? — Phillip perguntou, visivelmente perdido.
— A Elena é uma velha conhecida — Maya respondeu.
Velha conhecida. A escolha das palavras não foi por acaso.
— Vamos nos sentar? — ela completou.
Nos acomodamos à mesa.
Ari sentou ao meu lado, mais quieta do que o normal, claramente tentando entender o que estava acontecendo. Eu nem precisei olhar para saber que ela estava analisando tudo. Ela sempre fazia isso.
Do outro lado, Naomi e Diana se sentaram juntas, trocando olhares cúmplices, como se estivessem assistindo a algo que já conheciam bem demais.
Ao lado de Phillip, um casal que eu ainda não conhecia.
— Esses são Daniel e Sofia — ele apresentou. — Eles são padrinhos por minha parte.
— Prazer — Sofia disse, sorrindo com simpatia.
— Prazer — respondi automaticamente.
Mas minha atenção não conseguia se fixar ali. Maya estava à minha frente. Presente, real e perigosamente próxima.
— Então… vocês realmente se conhecem? — Phillip insistiu.
Respirei fundo.
— Nós estudamos juntas — respondi, mantendo o tom neutro.
— Há muito tempo — Maya completou.
Nossos olhares se cruzaram por um segundo. E havia história demais ali para caber em uma frase tão simples.
Ari encostou levemente o braço no meu.
— Depois você me explica isso — ela sussurrou.
Assenti de leve.
Se eu conseguisse explicar.
A degustação começou, ou pelo menos, era o que deveria estar acontecendo. Eu apresentei os pratos, expliquei combinações, falei sobre ingredientes e propostas. Minha voz soava firme, profissional e automática.
Por dentro, eu estava completamente fora de controle.
— Isso aqui está incrível — Sofia comentou após provar um dos pratos.
— Sério, está perfeito — Daniel concordou.
— Eu sabia que tinha feito a escolha certa — Phillip disse, satisfeito.
— Você sempre foi boa nisso. — A voz de Maya cortou o ar
.
Levantei o olhar e percebi que ela estava me observando. Não de forma intensa, mas presente, atenta.
— Obrigada — respondi.
Simples, seguro. Mas não neutro.
Naomi soltou um pequeno riso pelo nariz.
— Isso tá interessante.
— Muito — Diana concordou.
Maya lançou um olhar rápido para as duas.
— Vocês querem parar?
— A gente nem falou nada — Naomi respondeu, divertida.
Ari franziu a testa.
— Eu perdi alguma coisa?
— Muita coisa — Diana respondeu, antes de voltar a comer.
— Diana — Maya repreendeu.
— Tô quieta — ela disse, erguendo as mãos.
Mas o sorriso continuava ali. E o clima… também.
Em determinado momento, me levantei. Não pensei muito, só precisava sair dali por alguns segundos.
Ar, silêncio, qualquer coisa que não fosse aquela pressão constante no peito. Caminhei alguns passos para longe da mesa, tentando regular a respiração.
— Você sempre fazia isso.
A voz veio atrás de mim. Fechei os olhos por um segundo antes de me virar.
Maya.
Parada a poucos metros, como se sempre tivesse estado ali.
— Fazia o quê? — perguntei.
— Fugia.
Cruzei os braços.
— Eu não estou fugindo.
Ela deu um passo à frente.
— Tá sim.
Soltei um suspiro baixo.
— Você continua tirando conclusões.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— E você continua fingindo que tá tudo bem.
Aquilo me acertou. Direto.
— Eu estou trabalhando — respondi.
— Você sempre foi boa em se esconder atrás disso.
O silêncio caiu entre nós. Pesado, familiar.
— Você sumiu, Elena.
Minha garganta travou.
— Eu não sumi.
— Sumiu sim — ela insistiu. — Sem explicação. Sem despedida.
Engoli seco.
— Você também não ficou.
As palavras saíram mais baixas do que eu esperava, mas firmes. Ela desviou o olhar por um segundo e aquilo já dizia mais do que qualquer resposta.
— Engraçado — ela murmurou. — Eu nunca imaginei que fosse te encontrar assim.
— Nem eu.
— Trabalhando no meu casamento.
A palavra ficou suspensa no ar. Casamento. Como se eu ainda não tivesse entendido completamente o peso dela.
— Pois é — respondi, quase em um sussurro.
Ela me observou por mais alguns segundos.
— Você tá diferente.
— Você também.
— Melhor ou pior?
Pensei.
— Mais distante.
Ela não respondeu, mas também não discordou.
— Elena?
A voz de Ari veio de trás.
Virei o rosto.
Ela estava ali, olhando entre nós duas, claramente percebendo que algo estava errado.
— Tá tudo bem?
Olhei pra Maya e depois pra Ari.
Respirei fundo.
— Tá.
Mas não estava e Ari sabia disso. Pelo meu tom, pelo meu olhar, pelo silêncio que ficou depois. Maya também sabia, e pela forma como ainda me observava aquilo não tinha acabado. Não de verdade.
E agora…
Eu teria que encarar isso.
Ali.
No meio de um casamento que ainda nem tinha acontecido.
Mas que já parecia complicado demais.