Ariana estava nervosa, mas não era um nervosismo discreto. Era daquele tipo impossível de ignorar — o tipo que faz a pessoa levantar, sentar, andar de um lado pro outro e, mesmo assim, sentir que esqueceu alguma coisa importante.
— Eu devia ter trazido outra roupa.
Olhei pra ela, encostada na porta do quarto, enquanto Ari analisava o próprio reflexo pela terceira vez em menos de cinco minutos.
— Você já falou isso.
— Porque é verdade — ela respondeu, ajeitando a barra da blusa de novo. — Isso aqui tá muito… sei lá.
— Normal?
— Exatamente. E se sua mãe achar simples demais?
Cruzei os braços, segurando o riso.
— Ari, você não tá indo conhecer a rainha da Inglaterra. É só a minha mãe.
Ela virou o rosto devagar, me encarando com uma expressão dramática.
— Justamente. É a sua mãe.
— E?
— E você fala dela como se fosse perfeita.
— Ela é perfeita — dei de ombros.
— Ótimo. Isso só piora.
Soltei uma risada e fui até ela, empurrando de leve seu ombro.
— Relaxa. Você já conhece eles.
— Por vídeo, Elena! — ela rebateu. — Por vídeo eu posso desligar a câmera se eu falar besteira.
— Então não fala besteira.
— Eu SEMPRE falo besteira.
— Isso é verdade.
Ela me encarou por dois segundos… e depois começou a rir.
— Você não ajuda em nada, sabia?
— Ajudo sim. Tô sendo honesta.
Ari respirou fundo, passando a mão no rosto como se estivesse tentando se recompor.
— Eu só quero que eles gostem de mim.
A forma como ela disse aquilo foi mais simples do que dramática. Sem exagero, sem teatro. Só… sincera.
Inclinei a cabeça, olhando pra ela.
— Eles já gostam.
— Como você sabe?
— Porque eles já te conhecem — respondi. — E porque você é você.
Ela fez uma careta leve, como se não estivesse totalmente convencida.
— Isso não é um argumento muito confiável.
— Funciona até hoje — dei de ombros.
— Questionável.
— Invejosa.
— Convencida.
Nos encaramos por um segundo… e começamos a rir de novo. O nervosismo dela ainda estava ali, claro. Mas já não parecia tão pesado.
Peguei a chave do quarto e fiz um gesto com a cabeça.
— Bora?
Ela respirou fundo mais uma vez, como se estivesse se preparando pra um grande evento.
— Bora.
Saímos do hotel juntas, com aquela sensação estranha de que o dia ainda tinha muita coisa guardada pra gente.
No caminho, Ari ficou mais quieta do que o normal. Não em silêncio total, mas naquele tipo de silêncio em que a pessoa claramente tá pensando demais.
— Você tá ensaiando o que vai falar? — perguntei, olhando de lado.
— Talvez.
— Quer que eu avalie?
— Não — ela respondeu rápido demais. — Porque você vai rir.
— Com certeza.
— Tá vendo?
Sorri, apoiando o braço na janela.
— Relaxa, Ari. Você só precisa ser você mesma.
— Isso nunca deu errado pra você?
Pensei por um segundo.
— Algumas vezes deu.
— Ótimo — ela murmurou. — Muito reconfortante.
— Mas hoje não vai dar — completei.
Ela me olhou de canto.
— Por quê?
Dei um pequeno sorriso.
— Porque você vai conhecer a melhor parte de onde eu vim.
Ari não respondeu na hora, mas eu vi o cantinho da boca dela subir, de leve. E, pela primeira vez desde que saímos do hotel, ela pareceu um pouco menos nervosa.
A porta se abriu antes mesmo que eu tivesse a chance de bater pela segunda vez.
— EU SABIA QUE ERAM VOCÊS!
Minha mãe apareceu praticamente saltando na porta, com um sorriso enorme no rosto. Antes que eu pudesse reagir, já estava sendo puxada para um abraço apertado.
— Mãe! — ri, meio sem ar.
— Meu Deus, hoje você está ainda mais bonita — ela disse, segurando meu rosto.
— Eu também senti sua falta, tá? E nem parece que nos vimos a poucos dias.
— Sentiu nada, você só liga quando precisa de receita — ela provocou. — E eu sempre sinto a sua falta.
— Calúnia.
— Confirmado — veio a voz do meu pai lá de dentro.
Revirei os olhos, sorrindo, e então dei um passo pro lado.
— Mãe… essa é a Ari.
Minha mãe nem deixou eu terminar.
— ARIANA! — ela praticamente gritou, abrindo os braços. — Finalmente!
Ari, que até então estava numa postura toda certinha, arregalou os olhos e acabou rindo.
— Oi! — ela disse, entrando no abraço. — Meu Deus, é muito estranho te ver fora da tela!
— Eu ia falar a mesma coisa! — minha mãe respondeu, ainda segurando ela pelos braços. — Você é mais baixa do que eu imaginava.
— E você exatamente como a Elena descreveu — Ari disse, sorrindo.
— Linda, maravilhosa e sempre certa? — minha mãe perguntou.
— Mãe…
— Ou dramática e mandona? — meu pai apareceu na porta da sala, cruzando os braços.
— Miguel! — minha mãe reclamou.
Ari soltou uma risada que saiu mais fácil do que qualquer palavra.
— Ok… agora sim eu tô me sentindo dentro das chamadas de vídeo — ela disse.
Meu pai se aproximou, olhando pra ela com um meio sorriso.
— Então você é a Ari que aguenta essa aqui todos os dias?
— Infelizmente, sim — ela respondeu, completamente natural.
— Ei!
— Corajosa — ele assentiu, estendendo a mão. — Gostei.
Ela apertou a mão dele, ainda rindo.
— Eu tento.
— Para de assustar a menina e deixa elas entrarem — minha mãe puxou Ari pela mão. — Vem, entra! Eu fiz uma coisa.
Eu já sabia exatamente o que era, e pelo brilho no olhar da Ari, ela também.
Assim que entramos, o cheiro confirmou. Ari parou no meio da sala, inspirando fundo.
— Não acredito…
Olhei pra ela, já sorrindo.
— A famosa.
Minha mãe apareceu na porta da cozinha, com um pano de prato no ombro.
— Torta de batata — ela anunciou, orgulhosa.
Ari levou a mão ao peitode um modo teatral.
— Eu esperei por esse momento.
— Eu te disse que era a melhor do mundo — falei.
— Você falou — ela concordou, ainda encarando a cozinha como se fosse um templo.
— E ela não exagera — minha mãe disse. — Vem provar.
Nos sentamos à mesa como se aquilo já fosse um ritual antigo. Nada de formalidade, nada de tensão — só conversa, risada e comida boa.
— Então — meu pai começou, apontando o garfo pra Ari — você confirma que a Elena ainda esquece panela no fogo?
— PAI!
Ari quase engasgou de tanto rir.
— Confirmo — ela disse. — E acrescento: ela também esquece onde deixa o celular… estando com o celular na mão.
Minha mãe bateu na mesa.
— EU SABIA!
— Vocês estão exagerando.
— A gente? — Ari me olhou. — Você já me pediu para te ligar para achar o seu celular com ele no bolso e no silencioso.
— Isso foi UMA vez.
— Foi ontem — ela respondeu, sem hesitar.
Meus pais caíram na gargalhada.
Traição. Pura traição. Mas no meio daquilo, eu só conseguia observar. Ari completamente à vontade, rindo, conversando, se defendendo, me entregando sem dó nenhuma. E meus pais… recebendo aquilo como se ela sempre tivesse feito parte dali.
— Tá, chega de expor minha filha — minha mãe disse, rindo. — Ari, me conta: ela é mandona no trabalho também?
— Muito.
— Eu não sou!
— Ela organiza até o pensamento das pessoas — Ari continuou. — Mas funciona, então ninguém reclama.
— Tá vendo? Liderança.
— Controle — ela corrigiu.
Meu pai apontou pra ela.
— Gosto dela.
— Eu também — minha mãe completou, naturalmente.
Por um segundo, o tempo desacelerou. Não foi um momento pesado, foi simples, leve e significativo. Ari sorriu, mais tranquila do que em qualquer momento desde que saímos do hotel.
— Eu tava nervosa pra vir — ela admitiu.
— Sério? — minha mãe perguntou, surpresa. — Mas a gente já conversa tanto!
— É diferente ao vivo — Ari respondeu. — Mas… vocês são exatamente como eu imaginei.
— Isso é bom ou r**m? — meu pai perguntou.
— Muito bom.
Minha mãe estendeu a mão por cima da mesa e tocou o braço dela com carinho.
— A gente gosta muito de você, sabia?
Ari piscou, meio pega de surpresa.
— Eu também gosto muito de vocês.
Olhei pra cena em silêncio, e naquele momento, não tinha tensão, nem dúvida, nem espaço pra insegurança. Só a certeza de que aquilo fazia sentido.
Quando saímos da casa dos meus pais, o céu já estava começando a escurecer.
Assim que entramos no carro, Ari se jogou no banco e soltou um suspiro longo.
— Eu sobrevivi.
Ri.
— Sobreviveu com louvor.
Ela virou o rosto pra mim, com um sorriso enorme.
— Eu amei eles.
— Eles te amaram também.
— Sua mãe… — ela balançou a cabeça — eu quero adotar ela pra mim.
— Eu não divido.
— Egoísta.
Ficamos em silêncio por um instante.
— Obrigada por me trazer — ela disse, mais calma.
Olhei pra ela.
— Obrigada por vir.
Ela assentiu, olhando pela janela, mas ainda sorrindo. E pela primeira vez no dia eu senti que tudo estava exatamente no lugar.
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À noite, o clima era completamente diferente. A degustação estava montada com perfeição. A mesa cuidadosamente organizada, cada detalhe pensado para impressionar.
Phillip já estava lá, acompanhado de algumas pessoas — provavelmente as madrinhas.
— Vocês arrasaram — ele disse, assim que nos viu. — Está incrível.
— Ainda nem provou — Ari respondeu, animada.
— Se está assim visualmente, eu confio no resto.
Sorri, agradecendo.
Enquanto todos se acomodavam, expliquei cada prato, cada combinação. O ambiente estava leve, cheio de expectativas.
Foi então que senti, antes mesmo de ver.
Algo mudou, um desconforto sutil, quase imperceptível, começou a crescer dentro de mim. Como um alerta silencioso.
Ouvi o som de passos se aproximando.
— Desculpem o atraso — uma voz feminina disse.
Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo que minha mente conseguisse processar.
Não, não podia ser. Levantei o olhar lentamente.
Primeiro, os detalhes. O jeito de andar, a postura, o cabelo caindo exatamente como eu lembrava.
Meu coração começou a bater mais rápido, ela se aproximou mais.
E então…
Os nossos olhos se encontraram. O mundo parou literalmente. Todo o som ao redor desapareceu. As vozes, os risos, o tilintar dos talheres — tudo foi engolido por um silêncio ensurdecedor.
Porque, de todas as pessoas que poderiam estar ali…
Era ela.
E pelo jeito que sua expressão mudou ao me reconhecer, ela também sabia exatamente quem eu era.
— Elena? — Ari chamou, ao meu lado, em um sussurro confuso.
Mas eu não consegui responder, porque naquele instante, o passado tinha acabado de voltar.
E ele estava bem na minha frente.