O Azure ficava a menos de quarenta quilômetros de distância do Palms Hotel. Ele não era o lugar mais chique, e muito menos o mais caro, mas, sem dúvida alguma, era o mais bonito de toda Miami. Apesar do ótimo custo-benefício, não era um espaço muito procurado para eventos, já que a maioria das pessoas preferia locais mais centrais, próximos ao movimento intenso da cidade. Ainda assim, para mim, aquele lugar carregava um valor que nenhum outro conseguiria superar.
Quando eu era criança, meus pais frequentavam o Azure com certa frequência. Faziam reuniões de trabalho ou encontros casuais, enquanto eu me distraía admirando a vista do oitavo andar. De um lado, era possível ver a imensidão do mar azul se encontrando com o céu — que, em tardes mais frias, ganhava tons de rosa e laranja tão divinos quanto uma pintura. Do outro lado, era possível observar a grandiosa Miami, com suas luzes espalhadas por toda parte e os vultos dos carros apressados que cruzavam as ruas como pequenos riscos luminosos.
Era, sem dúvida, o meu lugar favorito.
Voltar ali depois de tanto tempo trouxe uma sensação estranha e reconfortante ao mesmo tempo. Como se uma parte de mim tivesse ficado guardada naquele cenário, esperando o momento de ser reencontrada.
O local não havia passado por muitas mudanças. O antigo muro de tijolos havia sido substituído por madeira, trazendo um ar mais moderno e acolhedor. As mesas e cadeiras, que antes também eram de madeira, agora eram brancas — provavelmente de ferro — com encostos vazados que davam um toque elegante ao ambiente. Ainda assim, o charme do lugar permanecia intacto. O reflexo das pontas das grandes árvores continuava criando um efeito romântico, quase cinematográfico.
Por alguns segundos — ou talvez minutos — me perdi completamente naquela mistura de memórias e sensações.
Fui despertada rapidamente quando senti o cotovelo de Ariana acertar minha costela, causando uma leve dor.
— Ari! — reclamei, esfregando o local atingido.
— Deixa a distração para depois — ela murmurou, sem esconder o sorriso. — Acho que aquele ali é o noivo.
Segui discretamente a direção que ela indicava com a cabeça e vi um rapaz se aproximando.
— Ariana? — ele perguntou, olhando diretamente para mim.
Franzi levemente a testa, percebendo o equívoco.
— Elena — corrigi com um sorriso gentil. — E essa é a Ariana.
— Senhor Clifford? — Ari perguntou, tentando confirmar.
— Por favor, podem me chamar de Phillip — ele respondeu, estendendo a mão. — Muito prazer!
Apertei sua mão, notando a firmeza do gesto.
— O prazer é nosso — respondi. — Podemos nos sentar? Posso te mostrar algumas referências enquanto sua noiva não chega.
Phillip soltou um pequeno riso, um pouco sem graça.
— Então… sobre isso. Hoje serei apenas eu. Minha noiva não conseguiu remarcar a prova do vestido, então deixou tudo nas minhas mãos.
Troquei um olhar rápido com Ariana. Aquilo era incomum, mas não impossível.
— Sem problemas — respondi com naturalidade. — Vamos fazer isso funcionar.
Nos sentamos em uma mesa mais reservada, em um dos cantos do espaço. O ambiente estava tranquilo, com uma brisa leve que tornava tudo ainda mais agradável.
Começamos com perguntas básicas: número de convidados, preferências culinárias, estilo do evento. Phillip respondeu tudo com atenção e cuidado, como se já tivesse pensado em cada detalhe inúmeras vezes.
Peguei meu tablet e comecei a apresentar o cardápio. Deslizei as imagens lentamente, explicando cada opção, cada combinação possível. Em seguida, mostrei algumas ideias de decoração que também oferecíamos para harmonizar com o buffet.
A cada nova imagem, era possível perceber o brilho nos olhos dele crescer.
No início, Phillip parecia um pouco inseguro, talvez até preocupado por estar tomando aquelas decisões sozinho. Mas, aos poucos, fui conduzindo a conversa de forma mais leve, garantindo que encontraríamos a melhor solução. Era nosso primeiro encontro, apenas para escolher as melhores opções para degustação. Então, caso alguma coisa não agradasse, ainda teríamos tempo para reorganizar.
— Queremos algo elegante, mas não exagerado — ele disse, apoiando os cotovelos na mesa. — Algo que seja… memorável, sabe?
— Memorável sem ser artificial — completei.
Ele sorriu, claramente aliviado por se sentir compreendido.
— Exatamente isso.
Quando perguntei sobre a decoração, ele começou a descrever cada detalhe com tanta riqueza que parecia estar vendo tudo acontecer diante de si.
— As mesas e cadeiras vão ficar nos cantos — explicou, gesticulando levemente. — Entre uma mesa e outra, vamos colocar grandes vasos de flores em vidro transparente.
Assenti, já imaginando a composição.
— No chão, ao redor do corrimão de madeira, pensei em algumas velas… nada muito exagerado, só para dar um clima mais íntimo.
— E o centro? — perguntei.
Por um instante, ele ficou em silêncio, como se aquela parte tivesse um significado especial.
— O centro será o caminho dela — respondeu, com um leve sorriso. — Onde ela vai caminhar até mim.
Troquei um olhar discreto com Ariana. Havia algo sincero ali. Algo bonito.
Depois de bastante conversa, ajustes e sugestões, Phillip finalmente tomou sua decisão. Ariana estava visivelmente animada — talvez até mais do que ele.
— Já está quase tudo certo! — ela disse, batendo palminhas discretas.
— Muito obrigado pela paciência, meninas — Phillip disse, sincero. — Eu estava realmente preocupado por estar sozinho hoje.
— Seu casamento vai ser incrível, Phillip — garanti. — Nós estamos animadas para o grande dia.
Ele sorriu, dessa vez com mais confiança.
— Quando podemos fazer a prova do buffet? — perguntei.
— Pode ser daqui a três dias?
— Perfeito. No mesmo horário?
— Sim. Vou reservar o local ainda hoje.
— Sua noiva virá? — Ariana perguntou.
— Vai sim. E estávamos pensando em trazer as madrinhas também… Tudo bem para vocês?
— Claro! — respondi. — Quanto mais gente, melhor.
— Então está combinado. Até breve! — ele disse, se levantando.
Observamos enquanto ele se afastava, deixando para trás uma energia leve e cheia de expectativas.
Era nosso primeiro trabalho em Miami.
E, naquele momento, eu tive certeza de que seria inesquecível.
Quando voltamos para o hotel, a empolgação tomou conta de nós duas. Assim que entramos no quarto, espalhamos ideias, referências e possibilidades por todos os lados.
— E se a gente fizer uma mesa de entrada com mini porções? — Ari sugeriu.
— Ou uma estação interativa… — completei, já pegando um papel para anotar.
Era como se, a cada minuto, uma nova ideia surgisse.
A bancada da cozinha rapidamente se encheu de papéis, rascunhos e anotações. Rabiscávamos, apagávamos, reescrevíamos. Testávamos combinações improváveis, discutíamos detalhes mínimos.
— Isso aqui pode ficar incrível — Ari disse, apontando para um dos papéis.
— Pode… mas ainda dá para melhorar — respondi, já pensando em outra possibilidade.
Naquela noite, simplesmente esquecemos do tempo.
A cidade lá fora continuava seu ritmo acelerado, mas dentro daquele quarto existia apenas nós duas, mergulhadas em criatividade, sonhos e planos.
O céu começou a clarear aos poucos, anunciando a chegada da manhã. Foi só então que o cansaço finalmente nos alcançou.
— A gente precisa dormir — Ari murmurou, se jogando no sofá.
Ri, sentindo o mesmo peso nos olhos.
— Só mais um ajuste… — falei, mesmo sabendo que não iria durar muito.
Minutos depois, desistimos. Deixamos os papéis espalhados, as ideias pela metade e a promessa silenciosa de continuar tudo mais tarde.
— Depois do almoço — Ari disse, já quase dormindo.
— Depois do almoço — repeti.
E, pela primeira vez desde que chegamos a Miami, dormi com a sensação de que estávamos exatamente onde deveríamos estar.
No começo de algo grande.