Capítulo 3

1529 Palavras
A claridade que atravessava a enorme fresta da janela batia diretamente em meu rosto, tornando praticamente impossível manter os olhos fechados por muito mais tempo. Resmunguei baixo antes de me levantar com certa dificuldade, ainda sentindo o peso do sono em meu corpo. Caminhei lentamente até o banheiro e liguei o chuveiro, na esperança de que a água fria levasse consigo a preguiça que parecia grudada em mim. Na noite anterior, depois do banho, eu havia decidido aproveitar por alguns minutos o conforto daquela cama enorme. A ideia era apenas descansar um pouco antes de organizar minhas coisas, mas acabei pegando no sono quase imediatamente. Sorri de leve ao lembrar disso, percebendo que, em meio a toda a correria da viagem, eu sequer havia avisado meus pais que estava em Miami. Provavelmente eles já estavam se perguntando por que eu tinha simplesmente desaparecido. Depois do banho, vesti a primeira peça de roupa que caiu da minha mala quando a abri: um short de pijama já bastante surrado e uma camisa larga que claramente já tinha visto dias melhores. Peguei meu celular, que estava jogado ao lado da cama, e desbloqueei a tela ainda meio distraída. Foi então que vi as notificações. Dezessete chamadas não atendidas de Laura. Duas de Keana. Arregalei os olhos imediatamente. Entrei na conversa de Laura e enviei um áudio que durou pelo menos três minutos, pedindo desculpas por não ter atendido. Expliquei que havia dormido assim que cheguei ao quarto e que meu celular estava no silencioso. Terminei dizendo que estava bem e que ligaria para ela mais tarde. Depois disso, respirei fundo antes de digitar o número do meu pai. Ele atendeu já no segundo toque. — Oi, pai. Como está? — perguntei. — E a mamãe? — Estamos bem, Elena. — Ele respondeu, com a voz levemente apreensiva. — Aconteceu alguma coisa? — Na verdade, liguei para avisar que estou em Miami. Mal terminei a frase e não consegui ouvir mais nada além dos berros da minha mãe ao fundo. Era como se ela estivesse gritando com o telefone inteiro. Alguns segundos depois ouvi passos apressados, como se alguém estivesse correndo pela casa. Os gritos ficaram mais distantes, então veio o barulho de uma porta batendo… e silêncio. — Querida, está me ouvindo? — papai perguntou, calmo como sempre. — Sim, pai. Estou aqui. — Perdoe os gritos da sua mãe. Viva-voz, você sabe como é… — ele disse, com um tom meio sem graça. — Mas como assim você está em Miami? Está no aeroporto? Precisa que eu te busque? Por que não avisou que viria? Depois de tantas perguntas seguidas, sem qualquer espaço entre uma e outra, finalmente ele fez uma pausa que me permitiu explicar o que havia acontecido nas últimas horas. Contei sobre o trabalho, sobre a viagem e sobre o hotel onde eu estava hospedada. No fim da conversa, combinamos de almoçar juntos mais tarde. Papai disse que daria a notícia para mamãe — provavelmente tentando acalmá-la um pouco antes do nosso encontro. Desliguei o celular e desci para a cozinha em busca de qualquer coisa que pudesse silenciar o meu estômago. — A Bela Adormecida acordou! — Ariana anunciou dramaticamente assim que me viu entrar. — Eu já estava começando a considerar chamar um médico. — Laura me ligou? — perguntei, ignorando o drama. — Ligou. Depois de inúmeras tentativas de falar com você. — Eu acabei pegando no sono ontem e meu celular estava no silencioso. Já mandei mensagem para ela, mas ainda não respondeu. O que você disse? Ari deu de ombros, completamente despreocupada. — Disse que, se eu começasse a sentir um cheiro estranho vindo do seu quarto em algumas horas, ligaria para a polícia buscar seu cadáver em decomposição. — Ari! — exclamei, indignada. Ela riu. — Calma, eu estava brincando. Depois expliquei que provavelmente você estava em coma e por isso não atendia. Revirei os olhos. — Quanto à Keana — ela continuou —, ela ligou avisando que hoje teremos um encontro com os noivos para conhecê-los. Talvez eles já queiram discutir algumas ideias para a recepção. — E essa reunião começa…? — Às 19h no Azure, que é o local da cerimônia. — Alyson respondeu, me interrompendo antes que eu terminasse. Peguei uma xícara de café e me sentei à mesa ao lado dela. Enquanto bebia o primeiro gole, contei sobre a ligação com meus pais e sobre o almoço que tínhamos marcado. — Meu sonho de conhecer os Rivera pessoalmente está cada vez mais perto de se tornar realidade! — Ari disse, batendo palminhas animada. — Por que você não vem comigo? Ela balançou a cabeça. — Vocês não se veem há anos, Elena. Esse é o seu momento com eles. E, considerando que vamos ficar aqui por um tempo, oportunidades não vão faltar. Apesar de viver conversando com minha mãe por telefone ou vídeo, Ari ainda não os conhecia pessoalmente. Mesmo assim, ela sempre mencionava o quanto queria experimentar as famosas tortas de batata da dona Carmen — que, segundo eu mesma, eram simplesmente as melhores do mundo. Passei o restante da manhã entre ansiedade e saudade. Era estranho perceber o quanto tempo havia passado desde a última vez que abracei meus pais. O embrulho no estômago permaneceu durante toda a manhã, enquanto os ponteiros do relógio pareciam girar mais devagar do que o normal. Para tentar me distrair, passei horas assistindo a um documentário sobre o Holocausto em um hospital psiquiátrico no Brasil. Era pesado, mas curiosamente aquele tipo de conteúdo sempre conseguia me tirar do mundo real por algumas horas. Quando finalmente percebi, já estava perto da hora do almoço. O dia estava lindo e ensolarado. Tomei outro banho, vesti um short jeans rasgado, uma regata florida e um tênis surrado. Depois saí caminhando em direção ao restaurante marcado, que ficava a poucas quadras do hotel. Durante o caminho, fiquei imaginando como seria aquele reencontro. Mesmo sabendo que a realidade quase nunca correspondia exatamente ao que criamos na cabeça. Cheguei alguns minutos mais cedo. Sentei-me à mesa reservada e logo um garçom apareceu com o cardápio. — Por enquanto, só uma água, por favor — pedi. Ele assentiu com a cabeça e se afastou. — Elena! A voz da minha mãe soou quase desesperada atrás de mim. Virei rapidamente e a vi vindo em minha direção com os braços abertos. Levantei-me e fui ao encontro dela. Mamãe me envolveu em um abraço tão forte que parecia querer compensar todos os anos de distância de uma só vez. Ela repetia várias vezes que não acreditava que eu realmente estava ali. Depois de alguns segundos, dona Carmen finalmente me soltou. Papai, com os olhos marejados, veio em seguida. — Que saudade, querida — disse ele, me abraçando com carinho. — É tão bom ter você aqui. — Eu também estava com saudade, pai. De vocês dois. Tentei conter a lágrima que insistia em escapar. — Você está tão bonita, Elena. Ainda mais linda do que da última vez que a vimos pessoalmente — ele disse. — Miguel, você diz isso todas as vezes — mamãe comentou, rindo. — Já está ficando repetitivo. Depois voltou a olhar para mim . — Mas me diga: por que não avisou que viria? Nós teríamos te buscado no aeroporto. E por que não foi direto para nossa casa? — Foi tudo muito de última hora, mãe. Eu não tive tempo de avisar. Troy nos buscou no aeroporto e levou todo mundo para o hotel. É tudo organizado pela empresa. — Ariana também veio? — ela perguntou, animada. — Veio sim. E está extremamente ansiosa para conhecer vocês. Principalmente para provar as suas famosas tortas. Mamãe sorriu orgulhosa. — A última vez que vi sua mãe tão animada com uma amiga sua foi no seu colegial — papai comentou. — Isso porque ela ainda não conheceu Keana — respondi. — Tenho certeza de que elas vão se dar muito bem. O almoço foi tranquilo, embora minha mãe tenha feito perguntas suficientes para preencher uma entrevista inteira. Era quase impossível responder tudo na velocidade que ela gostaria. Papai, apesar de mais quieto, parecia tão feliz quanto ela. Seus olhos brilhavam enquanto me escutava contar sobre os últimos meses, sobre o trabalho na Dreams e sobre as experiências incríveis que eu vinha vivendo. Eles ficaram extremamente orgulhosos. A conversa estava tão boa que, diferente da manhã, eu nem percebi o tempo passar. Mamãe insistiu várias vezes para que eu fosse para a casa deles, mas papai interveio com calma. Ele explicou que provavelmente era melhor eu ficar no hotel com o restante da equipe, já que estava ali a trabalho. Ainda assim, deixou claro que as portas da casa estariam sempre abertas para mim. Depois de muita conversa — e uma promessa de mindinho de que eu iria visitá-los assim que tivesse um tempo livre — finalmente consegui me despedir dos dois. Quando olhei o relógio, já eram quase quatro da tarde. Eu ainda precisava me preparar para o encontro com os noivos. Voltei caminhando para o hotel, com um sorriso tranquilo no rosto e o coração leve depois daquela tarde maravilhosa com meus pais.
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