Capítulo 13

790 Palavras
Algumas palavras nunca foram feitas para serem ditas em voz alta. Talvez por medo, talvez por covardia, ou talvez porque no fundo, a gente sabe que quando elas finalmente saem, não existe mais volta. O quarto estava em silêncio, mas não era um silêncio confortável. Era denso, pesado, carregado de tudo o que eu passei anos evitando revisitar. Eu estava sentada na beira da cama, com o papel dobrado entre os dedos. Amassado nas pontas, com algumas palavras riscadas, gasto pelo tempo, mas ainda inteiro, mesmo sendo o rascunho da carta original. Assim como tudo aquilo que eu nunca tive coragem de enfrentar. Respirei fundo uma vez, duas, mas o ar parecia não ser suficiente. Porque no fundo eu sabia, a partir dali, não dava mais pra fingir. Abri a carta com cuidado, como se ela fosse quebrar ou como se, ao fazer aquilo, eu quebrasse junto. E talvez quebrasse mesmo. “Maya, Gostaria de começar essa carta pedindo minhas mais sinceras desculpas. Eu sei que tivemos os nossos altos e baixos e sei também que eu tenho uma grande parcela de culpa em tudo o que nos aconteceu. As coisas tomaram um caminho diferente do que nós esperávamos e a única saída foi desmanchar o "nós" que em promessas dissemos que não se acabaria nunca. Promessas que no momento saíram de nossas bocas com a intenção de eternizar o que estávamos vivendo, e que hoje tranquei em meu coração junto aos meus sentimentos. Sei que talvez eu não tenha o direito de lhe escrever depois de todas as palavras m*l ditas no meu maior momento de fraqueza. É difícil fingir indiferença sabendo que mesmo depois de tantas brigas e desentendimentos, o meu coração continua a acelerar os batimentos sempre que ouço o seu nome. Eu não queria que uma história tão bonita tivesse tido o final que me obriguei a dar, mas percebi que o desgaste emocional já tinha levado todas as nossas forças. A verdade é que nós duas sempre fomos intensas demais. Desde o começo. Cada olhar, cada toque, cada palavra… tudo entre a gente sempre foi grande, forte, impossível de ignorar. E talvez esse tenha sido o nosso maior erro. A gente nunca soube amar com calma, nunca soube amar sem se machucar. Eu não estou indo embora por falta de amor, estou indo embora porque amar você está nos destruindo. Você merece ser feliz, por isso deixarei que seja, sem mais insistir. Agora me encontro dentro de um avião a caminho de Paris, trazendo comigo apenas uma mala e a esperança de que eu encontre de novo a essência que eu perdi um dia tentando me moldar para ser o suficiente pra você. Agora preciso me redescobrir, ser o suficiente para mim mesma e só assim ser capaz de me permitir ser feliz novamente. Nesse momento, é a única decisão que eu consigo tomar sem sentir que estou me destruindo — ou destruindo você. Eu espero, de verdade, que um dia você consiga me entender. Mesmo que não me perdoe. E, se algum dia a vida fizer com que nossos caminhos se cruzem de novo… eu espero que a gente seja mais forte, mais maduras, mais inteiras e com o coração mais decidido. Espero que tenha inúmeros motivos para sorrir, e que encontre alguém inteligente o suficiente para enaltecer e fazer por merecer o seu sorriso. Se cuida pequena. Com amor, Elena." Minhas mãos tremiam levemente quando terminei de ler, mas não era como se eu não conhecesse aquelas palavras. Eu conhecia cada uma delas porque fui eu quem escreveu. E ainda assim doía como se fosse a primeira vez. Fechei os olhos e por um momento, tudo voltou. As brigas, as reconciliações, os olhares que diziam mais do que qualquer palavra. O jeito que ela me puxava de volta, mesmo quando eu insistia em me afastar. A forma como a gente nunca conseguia realmente ir embora uma da outra. Até que, dessa vez, eu fui e não voltei. Soltei o ar devagar. Dobrei a carta com cuidado, como se aquilo ainda tivesse algum tipo de valor que eu precisava preservar. Mas a verdade era outra. Eu não estava protegendo a carta, eu estava protegendo a versão de mim que ainda acreditava que aquilo tinha sido a escolha certa. Passei a mão pelo rosto. Cansada, exausta. Não fisicamente, mas de carregar algo que nunca foi resolvido. Olhei ao redor do quarto e tudo parecia igual. Mas eu sabia que não estava, porque agora não dava mais pra fingir que aquilo tinha ficado no passado. Maya estava ali, na mesma cidade, no mesmo lugar, na mesma história que eu tentei encerrar sozinha. E pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia o que fazer.
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