Cinco e meia da manhã.
Felix a muito não estava mais na cama. Da onde estava via o corpo nu de Sofia. Há dois meses ela vinha dormindo com ele, o sexo ainda era bom e quente. Mas era só isso. Ele mesmo desconhecia o sentimento chamado amor.
Depois do banho ele se arrumou, rumou para a cozinha e se assustou ao ver a empregada áquela hora.
- Bom dia Maria. Pensei que começasse o dia mais tarde.
- Bom dia menino. - A senhora lhe sorriu. - Teu irmão ligou aqui, disse que seu menino vem hoje para casa, eu achei que você gostaria de comer alguma coisa antes de ir buscá-lo. Além do mais, eu também estou ansiosa.
Maria era simpática, deveria desempenhar somente o cargo de doméstica, a cozinha ficaria por conta de Felix. Porém, todas as manhãs ela preparava o café, e quando Felix chegava em casa tinha sempre alguma coisa boa na geladeira.
- Achou certo Maria, - Ele se sentou na mesa. - Vou comer rápido e já vou indo. Devo chegar aqui antes do almoço.
- Certo. - Ela voltou a se movimentar na cozinha. - A mala do bebê está no sofá. Já preparei a cama da babá também. Disse que ela chega hoje.
- Obrigado Maria.
Maria somente moveu a cabeça, mesmo nos dias em que Felix estava nervoso ela não parecia se importar com ele. Continuava a fazer seu serviço, e as cinco horas partia para casa.
- Estava tudo muito bom Maria. - Felix se levantou. - A Sofia está dormindo agora, quando ela acordar faça-a comer e ir embora.
- Tudo bem.
Felix não sabia ser amável como o irmão, não ao ponto de beijar a empregada como uma mãe. Mas respeitava Maria e lhe tratava com o máximo de cuidado.
Assim que ele bateu a porta de casa Sofia apareceu vestindo somente uma camisa dele, se sentou na cadeira e lançou um olhar enojado á empregada.
- Pode me servir. - Não era um pedido. - Empregada..
Maria prendeu a respiração, precisava do dinheiro e temia que Felix não lhe desse ouvidos. Então, faria o que ela pedia rezando para Sofia ir logo embora.
Maria a serviu de café, um cubo de açúcar e uma fatia de cada bolo, que fez para Felix.
- Se continuar assim, Felix vai engordar. - Sofia resmungou. - Isso que dá contratar pobre. Só sabem fazer imundícias.
- O que me sugere, menina?
- Primeiro, respeito. Para você sou Sofia Menin. - Sofia limpou os dedos na toalha de mesa. - Depois, se você souber ler, use a internet ao seu favor. Cozinhe o que presta. Ou quando nos casarmos, te colocarei no olho da rua.
Maria riu internamente, sabia que Sofia era casada pois o marido já foi em um jantar na casa de Felix.
- Vai ficar aí? Se mova inútil..
Maria saiu da cozinha, os olhos lacrimejavam de tanta raiva que sentia. Se ocupou com o restante da casa, até ouvir os saltos altos de Sofia na sala.
- Estou indo pobre. - Sofia sorriu diabolicamente. - Quando voltar para casa dê um abraço em cada um por mim, e diga que na minha opinião, nada teria mudado.
- Não entendi. - Maria se aproximou.
- Sua casa ué. - Sofia passou pela porta. - Não mora na senzala?
Propositalmente Sofia fechou a porta, assoviava quando entrou no carro e deu partida, deixando Maria aos prantos dentro de casa.
***
- O Luca está pronto para ir para casa. Seu irmão está cuidando dos exames neurológicos que enviei mais cedo. Por hora lhe deixarei alguns encaminhamentos.
- Como assim? - Felix se ajeitou na cadeira.
- Ainda é muito cedo para fechar um diagnóstico. O Luca é um bebê prematuro, vai precisar de acompanhamento de um fisioterapeuta, pediatra constantemente e muita dedicação.
Felix refletiu por um momento. Agora teria mais uma responsabilidade.
- Vem comigo. Estamos acabando de prepará-lo.
Felix não tinha pensado ainda que sairia dali carregando um bebê, na verdade estava sozinho, já que Fernando precisou viajar para a Argentina e levou consigo a esposa. Felix enviou uma mensagem rápida para Maria, era a única que lhe salvaria naquele momento. Como sempre, a resposta foi rápida.
"Me espera na porta. Logo estarei aí."
Ele desligou a tela do celular aliviado, acompanhou a médica até a sala onde Luca estava sendo preparado, mas não entrou. Olhou para o corredor vazio, as mãos tremiam e suavam tanto que ele precisou colocá-las nos bolsos. Em dois meses nunca foi ver o filho, não tinha coragem de olhá-lo e saber que a mãe dele estava morta.
- Você não vem? Ele está pronto.
-Ah, claro.
Felix prendeu a respiração e passou pela porta. A enfermeira acabava de abotoar um macacão, o cheiro de bebê enchia o ambiente. Quando ela virou ele olhou diretamente para o filho.
Luca era pequeno, miúdo, mas era lindo. Tão lindo que Felix se aproximou e praticamente arrancou o menino dos braços da enfermeira.
- Oi. - Ele sorriu bobo. - Me desculpa filho. Eu não tive coragem de ver você todo esse tempo.. Já vi pessoas mortas por demais.
Luca era rosadinho como a mãe, mesmo daquela idade havia sardas nele, e o cabelo era ruivo, e arrepiado.
- Vou sentir falta do arrepiadinho. - Ele escutou a enfermeira fungar.
- Ele é um anjo. - A Doutora lhe disse. - Lutou bravamente pela vida todo esse tempo. Espero que seja feliz.
- Ele vai ser. - Felix afirmou. - Nem que para isso tenha que dar a minha vida á ele. Meu filho vai ser feliz.
Maria chegou pouco tempo depois, com muito custo pegou o menino do colo do patrão. Felix teria de assinar a alta do menino, e ligar para Hélio.
- Alô.
- Hélio, ainda está em pé a nossa conversa?
- Sim. - Hélio disse. - Ele sai hoje?
- Já estamos indo para casa.
- Perfeito. Quando posso mandá-la na sua casa?
Felix analisou as horas no relógio. Ainda era cedo, tiraria o dia para cuidar das coisas do filho, e poderia conversar com a tal babá.
- Bom, se ela estiver livre pode ir hoje mesmo na minha casa. Vou precisar de alguém para passar a noite com o Luca. Pode ser?
- Ótimo. Me mande o endereço. Levo a Cecília aí para o café da tarde.
Hélio era um excelente médico, não apresentaria alguém despreparado para cuidar de Luca.
Maria já havia ido para o carro, segurava Luca com todo o cuidado. Felix entrou no carro um tanto apreensivo e dirigiu lentamente, quando olhava pelo espelho via os olhos tristes de Maria.
- O que está acontecendo Maria? Está triste.
- Nada. - Ela sorriu triste. - Nada não. Ele é tão delicado né?
- Ele é lindo.
Maria tinha mudado de assunto, sofrera preconceito e não soube como reagir na hora. E o pior de tudo, Sofia não ia parar.
- Maria, teremos visita para o café da tarde. Prepare a mesa para três. Vou entrevistar a babá do Luca. Se der tudo certo, você terá companhia.
- Que bom. - Maria sorriu. - Uma amiga para mim, e uma mãe postiça para o Luca.
Como a enfermeira havia dito, Luca dormia bastante. Maria ensinou como trocar o pequeno caso a babá não estivesse por perto. Preparou a fórmula e mostrou á ele como dar ao pequeno.
Já era quase quatro horas quando a portaria do condomínio de luxo ligou. Hélio estava entrando, trazendo consigo a babá. Cecília.
- Vou indo para o meu escritório. Diga para ela ir direto para lá. Logo em seguida tomaremos o café.
- Sim senhor.
Ele se sentou na cadeira, tentava analisar alguns dados quando escutou dois toques secos na porta.
- Pode entrar.
- Senhor Smith?
Felix levantou tirou os olhos da tela do notebook, a sua frente havia de fato uma mulher. Nada comparada com a que ele havia pensado.
Ela era baixa, tinha olhos grandes e a boca em formato de coração. O cabelo cacheado caía sobre os ombros.
- Sente-se. - Ele ficou em pé.
Quando Cecília se moveu o cheiro do perfume dela foi até ele. Felix inalou o perfume doce e leve, sentiu a garganta secar quando ela se sentou e o encarou com atenção.
- Cecília?
- Sim....