Capítulo 05

1468 Palavras
- Cecília. - Ela escutou a voz do pai do outro lado da linha. - Onde você está? - Estou chegando pai. Ela encerrou a ligação e parou o carro ao lado do pai. Hélio travou o próprio carro e entrou no da filha. Não disse nada, mas notou que ela havia mudado algumas coisas no visual, assim como ele havia pedido. - O Senhor Smith me ligou á pouco. Disse que o bebê está de alta hospitalar. - Que bom. - Ela assentiu. - Hoje resolvi sair um pouco. Deve ter notado que cortei o cabelo. - Preferia seus cachos até a cintura.- Hélio deu de ombros. - Mas eu também gostei desse novo corte. É, jovial. - Obrigada. - Cecília sorriu um pouco. O pai nem imaginava que ela havia feito algumas tatuagens também. Parou o carro e esperou que o pai descesse, entraram juntos no elevador. Ambos calados. Quando ela abriu a porta Hélio se assustou mais uma vez. Todas as coisas estavam encaixotadas. - Onde você vai? - Vou começar a vida em outro lugar. - Cecília deu de ombros. - Pensei que você.... - Eu vou. - Ela encarou o pai. - Faz alguns dias que deixei tudo organizado, joguei algumas coisas fora, doei outras. Comigo irá somente a pulseira do Miguel, que eu ganhei de uma enfermeira. Minha mala já está pronta. Vou fechar o apartamento, pode ser que eu alugue com o tempo. Ainda não sei. Hélio respirou aliviado, a filha teria outra chance para viver. - Então vamos almoçar fora, ele nos receberá a tarde. - Claro. Vamos. *** As quatro horas Hélio passou pela portaria do condomínio com as mansões enormes dos mais ricos da Cidade. Cecília começava a sentir um frio na barriga. Tinha medo de não dar conta de uma criança. Ao entrar, deu de cara com uma senhora simpática. - Boa tarde. - Ela sorriu. - Me chamo Maria, o Senhor Smith pediu para levá-la até o escritório dele. Vamos? - Boa tarde Maria. me chamo Cecília. Se tudo correr certo seremos colegas de trabalho. - Cecília sorriu contida. - O Doutor Hélio Gasparini pode esperar aqui, ou no jardim, será rápido. Cecília deixou o pai na sala e seguiu a senhora, passou por um corredor coberto de quadros que iam até quase o chão, e se deparou com uma porta dupla. - Pode bater. Ele está te esperando. Ela deu dois toques curtos, escutou a voz grave lhe convidando a entrar. abriu a porta e entrou. O patrão era um belo homem. Alto, e másculo, o cabelo perfeitamente alinhado era loiro, e lembrou a Cecília a cor da areia mais fina e pura. Ele olhava diretamente para a tela do notebook, e mesmo daquela distância Cecília percebeu que os olhos dele eram azuis como o mar. Felix desviou os olhos do notebook, sem expressão alguma ele se levantou e a mandou se sentar. Ela caminhou confiante, pelo menos por fora, sentou-se e o encarou. Precisava ver mais de perto aquelas gotas douradas dentro os olhos dele, pintando o azul como o sol brilhante na água. - Cecília? - Sim. - Ela lhe respondeu. - O Doutor Hélio me indicou você. - O Doutor Hélio é meu pai. - Ela disse. - Não gosto de mentiras Senhor, então antes que descubra por si só eu faço questão de esclarecer essa parte. - Sim. - Felix sorriu de lado. - Que bom que foi sincera. Então. Tem experiência com bebês? - Trabalhei no hospital Smith depois que me formei em enfermagem, atuava na área neonatal. Então sim. Eu tenho experiência com bebês. Felix cruzou os dedos em cima da mesa. Só por isso já a considerava contratada. Porém, algo nele o fez perguntar mais coisas. - Disse que trabalhou. Porque saiu? - Sofri um acidente á um ano atrás. Desde esse tempo fiquei em casa na esperança de me recuperar. - Conseguiu? - Felix analisou com certo fascínio os movimentos dos lábios dela. - É o que vamos ver. - Cecília respirou fundo. - Certo. Bom. Por último, meu filho não terá a assistência da mãe, acho que seu pai lhe contou o motivo. - Sim. Ele me contou. Se não quiser, não falaremos sobre isso Senhor Smith, Surpreso, Felix encarou aquela bela mulher á sua frente. - Ele tem poucos dias, é pequeno e frágil. Seu marido ou sei lá, não se importaria se você precisasse dormir aqui? - Não sou casada senhor. - Cecília desviou os olhos para a janela. Ainda doía falar de Diego. - E já sabia que teria de vir sobre essa condição. Por mim está tudo bem. - Sobre as folgas... - Não preciso delas. - Cecília o interrompeu. - Fiquei tempo de mais parada. Posso sair com o Luca, não tem nada que eu não possa fazer na companhia dele. Felix analisou a mulher a sua frente. Cecília era bonita, e apagada. Era como se ela fosse uma foto borrada, um desenho sem cor. Ele alisou a gravata em um gesto de nervosismo, se levantou e ela fez o mesmo. - Venha. Vai conhecer o Luca. Felix a levou pela escada de vidro, passou por algumas portas de quartos tão grandes como a do escritório, a por fim parou em uma, era azul com pequenas nuvens. Cecília engoliu a dor que sentiu por constatar que era igual a porta do quarto de Miguel. Felix abriu a porta com cuidado, ela o seguiu com o coração aos pulos, o cheiro de bebê era como uma faca afiada no peito dela. O berço ficava no centro do quarto, como uma cama de um Rei, em tons de branco de Dourado. Nas paredes pequenas nuvens, morros verdes e no fundo deles um desenho do pequeno príncipe ao lado da raposa. Cecília só entendeu o motivo daquela decoração quando tomou coragem e olhou para dentro do berço. Luca era ruivo, e tinha o cabelo arrepiado. - Pode pegá-lo. - Felix deu passagem para ela. - Ele não chora muito. Ainda. Cecília esticou a mão automaticamente, pegou o pequeno querendo dentro de si que Miguel tivesse essa chance também. Luca era pequeno de fato, e bem abaixo do peso, mas agarrou-lhe a mão com força, como se aquele aperto estivesse vindo de Miguel, do seu Miguelito. As lágrimas pingavam e molhavam o macacão dele. Se Felix reparou, nada disse. - Oi. - Cecília sussurrou. - Vamos ser amigos. Eu e você. Pode me chamar de tia, ou de Ceci. Vou estar aqui para você. Como se entendesse o que ela havia dito, Luca sorriu, um sorriso sem dentes, e cheio de pureza, que fez o peito dela inflar como na noite que viu Miguel pela primeira vez. Ela o pousou no berço e fechou a tela. Voltou os olhos para Felix que a encarava com olhos meio arregalados. - Onde vou ficar? - Ah sim. - Felix voltou do torpor. - Pensei em colocá-la no mesmo ambiente que ele. Mas o meu irmão me disse que seria r**m para vocês, então pedi que ajeitassem o quarto ao lado. Você pode entrar pela porta ao lado do armário dele. Tem uma babá eletronica ao lado da sua cama. Felix abriu gavetas, mostrou onde ficava cada coisa do pequeno, mostrou também a relação de remédios que Luca deveria tomar, e os dias de consulta com cada profissional. - Entendi. - Cecília analisou a agenda do pequeno. = Bom, vou colocar minhas coisas no quarto e me despedir do meu pai. - Eu já pedi que ele e a Maria colocassem suas coisas no seu quarto. Vamos descer para tomar um café. Você será a tutora do meu filho, preciso passar uma boa impressão. Os olhos frios de Felix causavam uma reação estranha em Cecília, um nervosismo que se concentrava no ventre. Quando ele falava, a voz grave lhe fazia ter palpitações. Felix era másculo e mesmo com camisa via-se os músculos bem torneados. O café da tarde foi mais uma conversa entre os homens. Hélio era respeitado pelos amigos e logo ganhou o respeito de Felix. Hora ou outra Cecília trocava olhares com ele. Felix muitas vezes se demorava no rosto triste de Cecília. - Preciso ir. - Hélio se levantou. - Volto para ver minha filha assim que a minha vida se acalmar. - Claro, Volte quando quiser. Quando Hélio se foi Felix se trancou em sua sala, encabulado por ter sentindo coisas por uma funcionária. Ele não era Fernando, iludido. Além do mais, havia feito um pacto consigo mesmo, que não se envolveria com funcionárias, pior ainda se essa estiver nos domínios dele. - Preciso ocupar a minha mente. - Ele pensou alto enquanto sacava o celular e digitava uma mensagem. "Ocupada mais tarde?" "Não. Na verdade estava esperando mensagem." "Ótimo. Passo aí as dez."
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