Eu não pude acreditar que aquelas palavras estavam saindo da boca de Brandon Collen.
Não o mesmo Brandon que proíbe pessoas diferente do “padrão” de entrar em sua empresa, não o Brandon grosseiro e despreocupado com o que acontece dentro dessa fábrica, não o Brandon petulante incapaz de se importar com qualquer coisa além do seu lindo nariz.
Mas ainda mais inesperado e surpreendente é o que sai da boca da Ava.
Com os olhos crescidos eu olho para baixo, pisco duas vezes e chego a apertar meu pulso apenas para confirmar se estou sonhando ou não. Ainda estou aqui.
— Pode repetir? — Eu a questiono, incrédula.
— Você será transferida para a sede da Mademoiselle por ordens do Sr. Collen.
Como?
Por que?
Isso não me parece possível.
— Por qual motivo?
— Ele é o chefe, não precisa de um motivo.
Paro um pouco para pensar, isso é o que sonhei por muito tempo. Reconhecimento, a chance de mostrar que eu posso fazer mais que embalar vestidos, de mostrar tudo que eu aprendi. Mas agora é tão estranho, a sensação não é mais a mesma que eu imaginei.
— Não! Eu não quero. — Respondo com o máximo de firmeza possível. É claro que isso é mentira, mas eu quero vê-la implorar. É isso que ela merece depois de tudo que fez comigo, com Cristiana e com todos nós.
— Você bateu com a cabeça em alguma caixa? Essa é chance da sua vida. Você vai trabalhar diretamente com Brandon Collen...
— Isso é exatamente o motivo de eu não querer ir.
— O que disse? — Se choca. Eu preciso me segurar para não gargalhar, mas é um momento tão prazeroso que é difícil. — Pelo amor de Deus, Maria Alexandra, essa ordem é direta do todo poderoso. Se você recusar, ele irá comer o meu fígado até eu explicar o porquê e sinceramente, como eu explicaria isso?
— Eu passei meses da minha vida trabalhando para o d.emônio, esse é você, diga-se de passagem. Agora querem me colocar para trabalhar diretamente para o ca.peta em pessoa? Não. De preconceituosa, xe.nofóbica, grosseira e desumana já basta você que já estou acostumada. Não sei se quero embarcar no desconhecido.
Ah eu quero, eu quero muito.
— Eu faço o que você quiser, qualquer coisa, só não me dê a missão de dizer não a Brandon Collen. Quer que eu me ajoelhe? Eu ajoelho. Quer que eu implore? Eu imploro. — Como eu esperava.
Ouvir essas palavras me dão até mesmo uma sensação de paz. Talvez eu até devesse agradecer a Brandon por isso, esse momento está acontecendo graças a ele – nunca, eu nunca vou agradecer a Brandon Collen. Para começar, tudo que passei aqui foi graças a ele, eu passar meses aqui sendo explorada, sofrendo abu.sos psicológicos, desenvolvendo crises de ansiedade, tudo isso só aconteceu porque ele me colocou nesse buraco. Aquele preconceituoso de me.rda não merece nada além do meu desprezo.
Mas, eu sou uma profissional.
E a Mademoiselle ainda é a Mademoiselle.
Ter que trabalhei nessa fábrica no meu currículo é um bom ponto, mas fazer um upgrade e ter no histórico que eu estive na empresa mesmo, na sede, trabalhando e aprendendo com o melhor – porque o desgraç.ado é bom no que faz – é muito maior.
— Não será necessário, Ava, seu desespero já foi o suficiente para mim. Pode preparar seja lá o que for necessário para a transferência e avise ao Sr. Collen que eu aceito.
Algo me diz, que esse “eu aceito” será um divisor de águas na minha vida. Muita coisa vai mudar daqui pra frente. Como um voto de casamento, eu dou a minha palavra que farei o meu melhor, agora trabalhando diretamente com o CEO que eu odeio.
— Ótimo. — Respira aliviada, chegando a fechar os olhos. — Ele a quer ainda hoje na empresa, então acho melhor se apressar.
— Hoje? Eu não estou pronta para ...
— Então sugiro que se prepare. — Me interrompe. — Pode ir, arrume suas coisas e faça o que tem que fazer. Vou cuidar de enviar seu contrato e documentos para o RH de lá.
Isso só me lembra uma pessoa, Izabela. A minha última memória foi péssima, mas não pretendo deixar isso estragar esse momento.
Apenas aceno com a cabeça e deixo a sala de Ava.
Droga, minhas mãos tremem.
Meu coração beira a um colapso nervoso.
Para alguns instantes, olho para o teto e respiro fundo. O que deu com Brandon Collen para me requisitar na sede e com tanta urgência?
Talvez tenha percebido o erro que cometeram há um ano.
Do que estou falando? Um homem como ele é incapaz de reconhecer ou achar que cometeu algum erro. Mas qual outro motivo teria? Ainda estou procurando a lógica da coisa.
— VOCÊ VAI SER OFICIALMENTE DA MADEMOISELLE LUXO?
— Fale baixo, mulher, acho que devem ter ouvido você falar até de lá da sede. — Eu coloco um sorriso amarelo no rosto e tento controlar Cristiana. — Mas sim, é isso mesmo. Eu também estou tentando digerir ainda.
— Não é algo tão difícil de acreditar, Alexandra, se um de nós tinha a chance de sair daqui e ser alguém, essa pessoa é você. Todos sabíamos disso, você sabia disso.
— Não é para tanto, não fale assim.
— Eu vou sentir muito a sua falta, minha sonhadora. — Sorri, sem se importar em estar no seu horário de trabalho e resolvendo me abraçar assim mesmo. — Mas eu vou estar torcendo daqui.
— Não se despeça, trabalhando juntas ou não você não vai se livrar de mim assim tão fácil.
— Tenho certeza que não. — Nós nos afastamos. — Mas você não vai para a empresa vestida nesses trapos velhos, vai?
— É claro que não! — Me ofendo, não pelos trapos velhos mas por ela realmente pensar que eu poderia ir assim. — Da última vez eu estava me escondendo, não cometerei o mesmo erro.
— Isso aí, garota! É hora de brilhar.
— Comemoração hoje a noite? — Sugiro. — Por minha conta.
— Eu topo — Já vejo a empolgação no olhar de Cristiana.
Faz um tempo que não temos uma noitada e eu acredito que achamos o motivo perfeito, fora que é sexta feira. Hoje nada pode estragar o meu dia, a minha noite, a minha vida.
— Certo. Eu te mando a localização, eu tenho um lugar em mente que já queria ir há um tempo mas vou confirmar assim que tiver um tempo. Agora eu preciso ir, não vou conseguir me despedir de todo mundo, mas ...
— Não se preocupe, eu cuido disso. Vou dizer as meninas que você deixou um abraço para todas.
— Você é a melhor! — Dou um beijo estado em seu rosto, e sorridente, vou até o refeitório onde ficam os armários.
Enquanto recolho as minhas coisas do armário eu tenho lembranças do que vivi aqui, de todos os lugares da empresa é esse refeitório que me deixará saudades. Nós sorrimos, brincamos, comemoramos e choramos juntas. Uma sentiu a dor da outra a cada humilhação – e claro que imaginamos várias tor.turas contra Ava também.
Saindo da fábrica dou uma última olhada nesse lugar, e digo um adeus silencioso.
Assim que chego em casa depois de um percurso difícil no transporte público vou direto para um bom e demorado banho quente. É disso que preciso primeiramente para começar a transformação de gata borralheira na Cinderela. Tudo bem, minhas roupas não são caras, mas eu tenho coisas bonitas o suficiente para estar a altura daquelas patricinhas.
O escolhido é um vestido preto, justo e sexy na medida certa. O tecido sedoso marca bem as curvas que tentei esconder a primeira vez que pisei os pés naquela empresa, em especial os quadris largos na f***a que vai até o meio da coxa – não muito curto pois ainda é um lugar de trabalho, mas como as outras não pareciam se importar, por que eu deveria? O decote não mostra a pele, mas mostra o tamanho dos meus peito.s pela seda bem alinhada, e as alças dão um ar bem feminino.
Seco meus cabelos depois de um bom protetor térmico com cheiro de chocolate para deixá-los mais volumosos além de cheirosos e os deixo soltos com as leves ondulações nas pontas chegando um pouco abaixo dos meus ombros.
Na maquiagem eu realço os olhos que considero o ponto forte do meu rosto, um bom lápis de olho e rímel já marcam bem meu olhar. Na boca, eu contorno o formato para destacar e completo com um nude simples.
Um sapato labotim falsificado completa a elegância e sensualidade que preciso, não importa se eu não vendi meu rim por um sapato, mas sim como brilham e como o vermelho na sola dão o detalhe final.
Dessa vez eu não preciso estudar, ler um roteiro pronto, me preparar.
Eu já sei exatamente o que fazer.