— Não é possível! Quantos motoristas de caminhão nós temos?
— Três.
— Temos três, e todos esses três estão ocupados no dia de hoje? Então a carga pode vir sozinha. — Esbravejo.
— Brandon, respire. Deixe de ser um c.uzão uma vez na sua vida. — Edward é muito corajoso para me confrontar em uma hora dessas. Juro, eu poderia matar alguém quando estou com raiva. — Temos apenas três porque você demitiu cinco mês passado, do que está reclamando então?
— Eu deveria ter demitido você junto, assim eu teria mais paz. — Ameaço. — E se eu o fiz, foi porque houve um bom motivo.
— Atraso, Brandon, atraso. O que faremos agora sem a carga inteira já que estava tão preocupado com um atraso de meia hora?
— Edward, respire. — Devolvo sua frase com o máximo de ironia possível. — Mande preparar o caminhão, eu mesmo irei buscar a carga.
— Você vai dirigir? — Sorri irônico.
— Se me encher a paciência eu vou mandar você fazer isso.
— Eu não sei dirigir aquela coisa.
— Ótimo, então faça o que eu mandei e se prepare, você vai me acompanhar.
— Eu?
— Você é meu assistente pessoal para que, homem? Para sentar na minha sala e beber o meu whisky? É claro que você vai comigo.
— Deus me ajude a terminar o dia de hoje, vivo de preferência. — Revira os olhos antes de sair da minha sala. Decido ignora-lo por enquanto.
Como se eu já não tivesse assuntos o suficiente para resolver, ainda mais essas, precisarei ir pessoalmente buscar a carga. Por Deus!
Tudo bem, tentarei pensar positivo, que é o fato de eu não ir pessoalmente na fábrica faz mais de dois anos. Tenho pessoal responsável por isso, e com uma empresa do tamanho da Mademoiselle eu claramente preciso delegar tarefas e confiar que elas serão cumpridas – por isso só posso contar com os melhores. Não há lugar para fracassados na minha empresa.
Termino o meu café, pego minha carteira e vou em direção ao estacionamento privativo da Mademoiselle.
— Brandon, espere! — Antes que as portas do elevador se fechem, Izabela consegue me alcançar para o meu azar.
— Bom dia, Izabela. — Digo sem muita vontade.
— Eu entrei em contato com a imprensa para confirmar a entrevista e já temos uma data.
— Bom. Lembrou de informar que isso é sobre a Mademoiselle e não sobre a minha vida pessoal? Não quero perguntas idiotas, eu vou anunciar a nova coleção e é isso.
— Claro, eu fiz o meu máximo para que entendam, mas sabe que isso está além do meu controle.
— Apenas faça o seu trabalho.
— Claro. — Sorri amarelo. — Onde está indo?
Apenas saio do elevador sem achar que é necessário dar uma resposta audível a ela, apenas olho para Izabela deixando claro que isso não é da conta dela.
Para o meu próprio bem a fábrica não fica muito distante daqui, e assim que encontro Edward nós seguimos um caminho tranquilo até lá. Felizmente, o trânsito não estava dos piores nesse horário e pude conduzir a máquina com maestria. Já faz um tempo que eu não pegava numa dessas, nem tinha percebido o quanto eu senti falta.
— Não sei não, algo me diz que a Izabela ficou com inveja do caminhão.
— Cale a boca, Edward.
— E se você não toca a mulher o tanto de tempo que não pegava um caminhão, a coitada vai precisar de um milagre. — Santo Deus, eu vou perder o meu réu primário, definitivamente.
— Minha vida s****l não te diz respeito.
— Claro que não, mas eu lamento por ela, a pobrezinha venderia um familiar por você.
— Foi apenas uma noite, droga! Eu não prometi para ela que haveria mais que aquilo. — Deixo claro.
— Mulheres ... Sempre tão sentimentais.
— Elas deveriam saber que não é porque queremos a b.oceta delas que precisamos levar o coração junto, não é um combo do Mc. Donalds.
— Por isso eu não me envolvo com ninguém do meu círculo, é mais fácil não ter que olhar para elas novamente. — Dá de ombros, isso é verdade.
— Essa única vez me custou bem caro. — Até o sorrisinho da Izabela me irrita, mas ela tem sorte de ser tão boa profissional. — Enfim, nós estamos chegando.
— Vamos lá, pa.u de mel.
— Não me chame assim, c.aralho. — Eu devo ser uma piada para Edward, porque ele apenas gargalha me fazendo revirar os olhos. — Todos os loucos entram na minha vida, Deus, eu devo ter muitos pecados a pagar.
Eu estaciono o caminhão na entrada do galpão gigantesco que é onde acontece a parte mecânica da empresa. Esse lugar parecia menor na minha cabeça, pelo menos no que eu me lembrava. Já aperto o botão para destravar a traseira para receber a mercadoria que será transportada.
Edward é o primeiro a sair, já acompanhando todo o processo de perto.
— Você aqui? Há algo errado? O Sr. Collen gostaria de enviar algum recado?
— Sim, há algo errado, Ava. — Desço do carro antes mesmo de Edward ter a chance de responder e vejo os olhos da mulher ficando ainda maiores, nesse momento até me divirto. Eu gosto de ser respeitado, temido. — Mas nada que você precise saber. O que importa é que eu estou aqui, vim buscar a minha mercadoria.
— Claro, senhor. A carga já está pronta, quer dizer, quase toda ela. Nós tivemos um contratempo e...
— Cuide do que falta. — Eu a interrompo. — Vou aproveitar para andar um pouco pela fábrica, já faz um tempo...
Aceno para ela e deixo que Edward fique cuidando do carregamento enquanto Ava cuida do seu trabalho.
Para falar a verdade, aos poucos começo a ter memórias daqui. O lugar não mudou tanto quanto eu pensava, aqui de dentro não parece tão grande. As pessoas são todas desconhecidas para mim, sim, não faço ideia se já trabalhavam aqui desde a minha última visita ou não.
Observo atentamente a forma que trabalham, e é claro, eu sou bem mais observado que elas. Sou a atração do lugar, a cada passo meu, cada vez que eu ajeito o cabelo que escorre pela testa quando ando, cada olhar que dou, a cada respiração mais forte sou encarado.
— Você, o que está fazendo? — Paro ao lado de uma das costureiras. Essa não é a minha área, mas é bem perceptível que esse corte está totalmente fora do padrão. — Isso está torto.
— Tor...torto? — Gagueja, voltando a se concentrar no que fazia ao invés de mim.
— Tem noção de quanto custa um único metro desse tecido? — Meu sangue começa a ferver só de lembrar. Não, é claro que ela não tem noção de nada. — Olhe com mais cuidado e verá, essa parte aqui.
Preciso curvar o meu corpo para perto da mulher que deve ter seus trinta anos, assim eu consigo apontar onde está o defeito, fazendo o caminho de como deveria ser o corte dela.
— Mas ...
— Você ainda não percebeu? — Isso é inadmissível, ao menos para alguém que não use óculos.
Tudo bem, é um defeito milimétrico, mas como eu disse só posso ter os melhores. Não vou estar aqui todas as vezes que forem cortar os vestidos, o que vão fazer? Mandar torto para a distribuição? Não entra na minha cabeça como alguém trabalha com isso mais de oito horas por dia, e ainda assim, não consegue notar um erro desse – e eu nem sou um expert no assunto.
— Claro, eu já irei corrigir. Não sei como eu não percebi antes, mas... — Sorrio irônico com a sua falsidade, nem para mentir serve. — Não iremos perder o tecido, vou resolver.
Aceno com a cabeça, concordando, e não respondo nada em alto som antes de continuar meu percurso. Os homens são mais concentrados pelo que posso ver, eles não correm risco de quebrar o pescoço a cada passo que eu dou.
Dou a volta em toda a fábrica, avaliando, pensando em se é necessário fazer mudanças e se sim, quais. É uma parte importante que eu infelizmente deixo um pouco de lado, não por opção, mas por necessidade.
Esse é o tempo que Ava teve para terminar de preparar toda a carga para mim, que na verdade, já deveria estar pronta e esperando a chegada do caminhão há muito tempo. Em nome de Deus, por quê eu emprego tantos irresponsáveis e incapazes de realizar o seu trabalho?
É o que fica claro quando chego no setor final, onde ainda noto vestidos na mesa, esperando para serem embalados. Minha carga ainda não está pronta.
Então, me preparo para cobrar a responsável, mas algo me faz parar no lugar antes mesmo de chegar na mesa da dupla de embaladeiras em questão.
Tudo bem, já faz mais de dois anos que estive aqui, mas eu nunca esqueceria se meus olhos tivessem pousado sobre essa mulher antes.
A roupa é péssima, os cabelos estão despenteados, as feições estão caídas e os olhos estão cheios de lágrimas. A mulher é definitivamente uma bagunça, devo dizer.
Eu apostaria que a qualquer momento ela irá desmaiar pela força que faz para continuar respirando.
Mas ainda assim, é a beleza mais chamativa que eu conheci – até agora.
As roupas gastas e sujas não são suficientes para esconder as curvas perfeitas do corpo que se destaca. É possível notar a cintura tão fina que parece que vai quebrar, a ponto de me fazer desejar pôr a mão para ter certeza se é de verdade. Os quadris largos são o contraste perfeito, milimétrico e proporcional.
A pele?
Por Deus, não há uma única mancha ou espinha em seu rosto. A pele dela brilha, reluz, é como se tivesse uma energia própria e unicamente dela.
Os cabelos castanhos em um coque desalinhado despencam em ondulações que parecem tão macios quanto o tecido que ela toca. Já os olhos chorosos, são grandes, enormes e verdes. De onde essa mulher saiu?
— O que eu faço com vocês duas? — O grito de Ava faz as duas abaixarem a cabeça, e então, eu acordo do meu transe e resolvo me aproximar mais. Que diabos eu estou pensando? — De todos os dias, hoje era o que menos vocês poderiam atrasar. Você, deveria ter chegado mais cedo se estava tão atrasada.
— Eu não consigo acordar mais cedo, senhora, chego muito tarde da faculdade. — Ela se explica. Bom, trabalha e estuda, é um bom sinal.
— Ainda nisso? — Ava sorri irônica. — Você não é capaz nem mesmo de embalar alguns vestidos, acha que essa faculdade vai fazer de você alguém na vida? Isso é o topo da sua vida, Maria Alexandra, é o máximo que você vai alcançar. Você é só uma estrangeira que nasceu para servir e nem isso consegue fazer bem.
Maria Alexandra, esse é o nome dela.
Eu não sei o que toma meu corpo por dentro ao assimilar cada palavra que Ava descasca em cima da menina. Só sei que algo em mim entendendo que não é justo, ferve, eu não gosto de ouvir essas palavras.
Ver a menina trabalhando enquanto derrama lágrimas e ter que ouvir essas palavras ao mesmo tempo de alguma forma mexe comigo, e para falar a verdade, eu nem mesmo sabia que dentro de mim existia algo que era capaz de ser mexido.
Mas foi.
Muito.
E eu estou furioso
— O caminhão não sairá daqui, não enquanto as peças da senhora Maria Alexandra não ficarem prontas e você não se desculpar com ela por tamanha ignorância e falta de liderança. Eu ficarei esperando. — Eu mesmo faço questão de responder, e essas palavras surpreendem até a mim mesmo.
Eu tenho trabalho a fazer na empresa, droga! Eu nem mesmo deveria estar aqui.
Mas a única coisa que eu consigo olhar é para essa desconhecida, que parece me hipnotizar como a po.rra de uma sereia, em especial quando ergue os olhos marejados e eles encontram os meus.
Puta merda!
Sinto meu p*u latejar imediatamente. Os olhos são enormes, lindos, marcantes. Neles ela carrega a dor de ter sido humilhada, mas a força de uma lutadora e a sensualidade de uma deusa.
— O que disse, senhor? — A voz de Ava novamente é a responsável por trazer meus pensamentos de volta. — Ela deveria ter...
— Cale a boca, eu não quero perder o profissionalismo assim como você o fez e tirar sua autoridade na frente dos funcionários. Você me ouviu bem. — Eu a interrompo, mas não desvio os olhos dos de Maria Alexandra nem por um segundo, é impossível. Ela também não rompe o contato. — Se desculpe, de um jeito que me convença e também a senhorita.
O silêncio se torna constrangedor, mas ninguém ousa rompe-lo.
— Perdoem-me, as duas. Em especial você, Maria Alexandra, sei que minhas palavras são duras as vezes mas espero que entenda que não é por m*l, eu apenas sei que você pode fazer mais. Me desculpe. — É possível notar como as palavras parecem arranhar sua garganta para sair.
— Você acreditou? — Me dirijo a Maria, apenas porque desejo ouvir o som da sua voz.
— Não. — É sincera. A voz é doce, carregada de mistério, é como se ela me deixasse curioso para saber o que está em seus pensamentos agora. — Mas foi o bastante para mim. Agora, se nos derem licença, nós vamos finalizar o pedido.