Correndo

955 Palavras
Callebe chegou à fazenda às seis da manhã, porque tinha combinado com Aliah que iriam correr. Ele não entendia como aquele garoto conseguia correr como um maratonista. Algumas vezes, Aliah corria com Pavlo, mas ele gostava mesmo era de correr com o padrinho, porque Callebe não conversava quando ele não queria conversar. Era capaz de correr e fazer exercício físico sem dizer uma palavra, E, quando Aliah queria conversar, se sentia confortável para conversar com o dindo. Era um amor diferente… que tinha surgido sem Callebe nem perceber. Correram por quarenta minutos. Depois se sentaram numa praça para beber água. Aliah olhou em direção a algumas flores, ficou em silêncio por alguns segundos… e então perguntou: — Já descobriram quem mandou as flores para Dakota? A mamãe me proibiu de sair da fazenda e escondeu o meu notebook.. __ Por que a sua mãe escondeu o seu notebook, Aliah? __ Invadi o sistema do banco central, limpei as contas de Sérgio e Priscila, Dindo. Eles tinham pouco, agora, eles não têm nada, nada. Callebe se sentiu orgulhoso, mas se preocupou. __ Pode ser pego.. __ Não posso, se procurarem vão achar um IP do Canadá, um IP que leva ao computador de uma biblioteca. O garoto era muito bom mesmo, o abraçou.. __ Está proibido de fazer isso, proibido.. __ Mas eu queria descobrir mais coisas sobre Jacó Bourbon.. Talvez fosse uma boa ideia, Callebe pensou, iria falar com Olena.. Talvez conseguissem derrubar Jacó assim, descobrindo os podres dele. __ Quem mandou as flores para Dakota? Callebe ficou em silêncio. Ele sabia que podia mentir. Podia dizer que tinha sido alguma loja de roupa. Dakota costumava ser modelo de provador e era bem requisitada, seria fácil. Mas Callebe tinha um lema, ele não mentia. Não para filhos, nem para sobrinhos, nem para afilhados. Porque sabia que, quando se mentia para uma criança ou um adolescente… a confiança era quebrada. E confiança quebrada era difícil de recuperar. Então ele respondeu: — Não sabemos, Aliah. O garoto olhou para ele. — O que sabemos é que não foi ninguém da floricultura. — Como assim? Callebe bebeu um pouco de água antes de continuar. — O rapaz que entregou não era entregador de verdade. A roupa da floricultura foi roubada. O funcionário lavou, deixou no varal… e alguém pegou. O silêncio caiu entre eles, Aliah apertou a garrafa na mão. Callebe continuou: — Por isso estamos melhorando a segurança da fazenda. E, por enquanto, as meninas e as mulheres não estão saindo sozinhas. Aliah desviou o olhar. — Monalisa já está correndo perigo por causa de Jacó… — Callebe disse . __ E acreditamos que Dakota está correndo perigo por causa do genitor dela. Aliah ficou em silêncio por alguns segundos. — E a Dakota vai ficar segura, nã.o vai? Callebe olhou direto para ele. — Vai ficar segura dentro da fazenda. Aliah respirou fundo. — Deviam ter mat@do ele, deviam dindo, era só ter atirado. — Eu não quero que fale isso perto da sua mãe, ou vai para o castigo. A gente vai resolver. E, enquanto isso… — completou — ela vai ficar segura. Voltaram a caminhar, porque tinham o costume de correr e fazer o percurso de volta andando. Por Aliah, ele correria novamente, mas Callebe sempre dizia que ele era humano e não podia correr tanto, o garoto tinha um condicionamento que dava inveja, inclusive conseguindo acompanhar Calton em uma corrida tranquilamente. Quando passavam por um conjunto de casas — um projeto habitacional da prefeitura, onde casas eram distribuídas para moradores que não tinham onde morar — uma senhora começou a gritar por ajuda, desesperada. Talvez, se estivesse sozinho, Callebe tivesse seguido em frente, mas, com Aliah ali, sabia que precisava ser exemplo, então parou. Descobriram que uma pessoa lá dentro tinha desmaiado e batido a cabeça. Era médico e havia feito um juramento. Callebe entrou, ajudou a estabilizar o homem, colocou em uma posição adequada e chamou uma ambulância pública. Antes mesmo da ambulância chegar, o homem já tinha acordado e parecia bem. A mulher, nervosa, ofereceu água para Aliah e para Callebe. Aliah olhou o copo e balançou a cabeça. Callebe entendeu na hora: o problema não era a simplicidade da casa, mas a falta de limpeza. Havia copos no chão, muitas louças sujas na pia, e não eram do dia anterior, eram de dias acumulados, talvez uma semana. Aliah não aceitou a água, e Callebe também não. Não tinham problema com simplicidade, mas tinham, sim, com falta de higiene. Quando a ambulância chegou, saíram dali, e Aliah começou a fazer movimentos circulares com o corpo, tentando se regular, incomodado com a bagunça, com a sujeira, com o ambiente. Foi abraçado. — Está tudo bem… Manteve o abraço. — Lá na fazenda a gente tudo é organizado. Você só precisa respirar. Aliah foi se acalmando aos poucos. ___ Por que algumas pessoas vivem assim, dindo, por que? Ainda esquentava o coração ser chamado de findo, mesmo crescendo , o garoto continuava como termo. — Algumas pessoas vivem assim não porque querem, mas porque não tiveram ensino, não tiveram estrutura. Às vezes é pobreza, às vezes é falta de hábito… e, ao mesmo tempo, tem gente com muito dinheiro que também vive em sujeira. Então não existe uma resposta simples. Para que o garoto se acalmasse, voltaram a correr e cerca de dez minutos depois chegaram à fazenda. Foram direto para a piscina, e logo as outras crianças se juntaram a eles. Callebe fugiu logo da confusão e Aliah também. Durante a noite, ele e mais alguns motoqueiros fariam uma ronda pela cidade, talvez encontravam algumas respostas.. Porque, agora, já acreditavam… que era o pai de Dakota quem estava por trás de tudo.
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