1
Gregory entendeu o que estava acontecendo sem eu precisar explicar, então começamos a chamar por ela.
— Ester! — Gritei primeiro. Nada.
— Ester! Vem aqui! — Gregory também gritou. Novamente não tivemos resposta.
Olhei para ele e seus cabelos negros voavam enquanto os olhos arregalados me olhavam. Tenho quase certeza que fiquei pálido naquele momento. Nos olhamos mais uma vez e entendemos o que tínhamos que fazer. Correr. Correr por todo lugar atrás de Ester, antes que fosse tarde de mais. Fomos os dois na mesma direção, o vento fazia meus olhos arderem. Acho até que lacrimejei, só não sabia se era por conta do vento ou do medo.
Paramos ao mesmo tempo, quando vimos Ester na beira de um riacho de água azul. Mais na frente haviam estradas de pedra que levavam para uma vila. Era lindo. A grama verde, a água mais azul do que nunca, Os peixinhos alaranjados saltando formando um arco na frente de Ester que sorria e tentava tocá-los.
Corremos até lá, descendo um morro. Peguei Ester rapidamente, eliminando qualquer chance que teria de cair no riacho. Estava pronto para dar um sermão para minha irmã, mas aquela vila no início da floresta era linda. Muito linda. E era possível ver pessoas sorrindo e brincando, algumas trabalhando e outras voltando com veados mortos, provavelmente o caçaram para vender a pele e ter o que comer durante dias.
— Quer ir lá? — Perguntei para Gregory.
Antes dele responder, Ester tomou a frente. — Sim. Eu quero! —Ela falou, sorrindo e bagunçando meu cabelo enquanto eu a segurava no colo.
— Ah, por mim pode ser... O sol deve se pôr em poucas horas. — Meu irmão falou.
— Tudo bem então. — Falei, procurando algo para ajudar a atravessar o riacho e chegar ao outro lado onde estava a vila. — Como passamos?
— Não aprendeu nenhum feitiço de levitação na escola? — Gregory perguntou, sorrindo.
— Sou um bruxo de linhagem tradicional, Não um bruxo gravitacional ou elemental. — Respondi, rindo. — Tive uma ideia. Vamos gritar para eles nos ajudarem, vamos falar que estamos perdidos há alguns dias e precisamos de abrigo e alimento. Quando conseguirmos descobrir para onde temos que ir exatamente, fugimos. O que me dizem? — Falei baixo, por precaução.
— Será que eles sabem da existência de seres sobrenaturais? Será que eles são seres sobrenaturais? — Meu irmão questionou, arrumando a mochila nas costas.
— Não sei, mas acho que não... Nunca nos falaram sobre outros tipos de seres mágicos fora os vampiros, e eles não parecem vampiros. Não mesmo.
— Tudo bem... vamos então. — Dava para sentir o medo de Gregory.
Baguncei o cabelo deles e passei um pouco de terra do chão no nosso rosto, para nossa história ser mais convincente.
Gritei. Nós gritamos. Fingimos estar desesperados. Enquanto meus irmãos ajudavam gritando, eu fechei os olhos e usei magia para entrar na mente de Ester e fazer ela chorar. Tentei fazer a menor quantidade de névoa em minhas mãos possível. Foi quase que no mesmo segundo o choro e as lágrimas escorrendo pelas bochechas de Ester. Senti culpa por fazer isso, mas era preciso para convencer os moradores da vila. Logo voltei a gritar por ajuda.
Fomos notados. Um homem que devia ter aproximadamente uns quarenta anos se aproximou rapidamente, e logo algumas pessoas, como mulheres e crianças vieram atrás.
— Quem são vocês? O que fazem aqui crianças? — O homem perguntou se aproximando da outra extremidade do riacho.
— Nós estamos perdidos há 2 dias, nos ajude, por favor! — Falei, encenando como nunca havia encenado. Aparentemente estava perfeito.
— Por favor, senhor! Queremos nossos pais! Por favor! — Gregory começou. Me surpreendi, sua atuação estava impecável. — Temos uma criança aqui, ela tem apenas 6 anos!
O homem e as pessoas atrás olharam todos para Ester, que ainda chorava até soluçar.
— Passem para cá. — Curto e direto, o homem falou.
— Como? — Perguntei, segurando a v*****e de sorrir.
— Romus. Traga a tábua. — Ele falou para um homem que nos olhava assustado.
Romus assentiu e saiu rapidamente. Demorou muitos segundos para voltar, já estava difícil manter o personagem com todos aqueles rostos nos encarando. Ester ja estava parando de chorar, apenas soluçava agora.
O jovem Romus chegou com uma tábua de madeira e ferro muito comprida. Dava para atravessar uns 3 riachos daquele de uma única vez. O rapaz apoiou a tábua na grama, atravessando o riacho e pisou para conferir se estava segura.
— Passem. — O homem mais velho voltou a falar.
Olhei para Gregory que também me olhava. Assentimos um ao outro e ele foi na frente, pois eu estava com Ester no colo. Quando chegou ao outro lado, todos olharam ele de cima a baixo, até uma senhora pegar sua mão e levá-lo para dentro da floresta, em direção a vila. Ele olhava para trás. Para mim.
Respirei fundo, sequei as lágrima que ainda restavam na bochecha de Ester e fui. Coloquei o primeiro pé, a tábua rangeu um pouco. Tirei o pé, assustado.
— Pode passar, é seguro. — O homem falou, estendendo a mão para mim.
Respirei fundo de novo e fui, tentando não olhar para baixo e chegar logo no final da tábua e segurar a mão do homem. Consegui. Cheguei no final e o homem segurou minha mão. Seus calos arranhavam a palma de minha mão, mas era melhor que me desequilibrar e cair.
— Obrigado. — Falei.