CINCO

1205 Palavras
Iniciativa. Essa é a palavra que faz o mundo girar, metaforicamente claro. Diariamente, pessoas tomam decisões, às vezes banais e, outras tão importantes que podem afetar a vida de qualquer uma. Quando eu sai daquele quarto, com meu pijama predileto de bolinhas, a cara lavada e o cabelo molhado, estava indo para uma estrada que talvez não voltasse. Sempre odiei joguinhos e abominei arrodeios. Gostava de ser direta e amava quando isso era recíproco, traços de uma maturidade adquirida quando é preciso gerir um centro de lojas enormes e designar tarefas a pessoas. No entanto, se eu tivesse conhecimento do que aconteceria segundos após eu entrasse naquele lugar, talvez resolvesse dar meia volta e trocar de condomínio. De cidade. Quem sabe, até me mudasse para Marte? Comicamente, nesse dia, não fiz um tour despretensioso pela padaria, segui reto para parte dos frios. Encontrando um sorriso de canto e olhos verdes me analisando intensamente. Talvez assustado pelo vestuário ou por me ver aqui depois de toda aquela exposição. E como o esperado, ele provocou. — Quatrocentos gramas de presunto e, ah... Você. Ele tossiu e eu não sabia se estava rindo ou se realmente havia se entalado com a saliva. Será que eu o assustei? — Você quer o quê?! — Perguntou, como se não estivesse acabado de escutar. Revirei os olhos. — Quatrocentos gramas de presunto e voc... — Ok, essa parte eu entendi! — ergueu as mãos, me interrompendo. Fiz cara feia. Odiava ser interrompida. É impressão minha ou ele está com as bochechas meio rosadas? — Está envergonhado? — juro que tentei não rir. Mas, foi impossível. Marcel coçou a garganta, balançando a cabeça enquanto pegava algumas fatias lá embaixo... — Quais são suas intenções comigo? Rocei a língua nos dentes da frente, tentando controlar as palavras indecentes que provavelmente sairiam da minha boca se eu a abrisse sem pensar. Estávamos há quase duas semanas nessa dança, eu tinha que ser direta... Mas, fugindo um pouco, resolvi mexer no enorme freezer atrás de mim e, quando ia puxá-lo com mais força, escutei passos, vendo-o sair de trás do balcão. — Isso tem que colocar força? Jeito? — choraminguei ao tentar puxar mais forte e quase ir para do outro lado da parede. — Nenhum dos dois, o outro vidro está por cima desse, vai ser impossível abrí-lo desse jeito... — gargalhou baixinho e, frente a frente, me encarou. Os braços fortes e as veias levemente saltadas me fizeram desejar parar de encarar os seus olhos e admirá-las. No entanto, não dava. Ele sorriu e eu o encarei por alguns segundos. Os lábios, o perfume suave mas mesmo assim, bem presente... — Você está bem... Ri baixo, já sabendo o fim da frase. — Feia? Marcel me olhou como se o que eu acabei de falar tivesse sido um ultraje. — Natural... — ainda me olhando, ele destravou a portinha e a abriu. Tentando evitar aquela proximidade, arrodeei, indo mais para o lado e ficando em um ponto que, qualquer pessoinha ao passar na rua, poderia me ver ali. Medida de segurança. Não contra ele. Contra mim mesma. Resolvi olhá-lo e me surpreendi ao ver que me fitava, sorrindo. — Oh-Ah! — notei o presunto descansando nas enormes mãos. Rapidamente, o puxei, tomando a mesma distância. — Obrigada! — exibi um sorriso espalhafatoso e por pouco não meti a cara em uma das pilastras do corredor. Af! Já estava saindo de lá quando ouvi a voz grossa tintilar de um jeito que me fez rir: — É sempre um prazer, Joyce. É sempre um prazer. *** Depois desse acontecimento, fui para casa e tentei fatidicamente me aliviar comigo mesma. Não me julguem, sou bem resolvida o suficiente para saber o bem que faz o autoconhecimento. E, em todos esses anos, posso afirmar que sem onde fica cada zona erógena do meu corpo e onde realmente tocar para atingir o clímax tranquilamente. Não tinha falado mais com ele via mensagem e também não queria parecer desesperada ao correr atrás. Um tempinho para que ele sentisse minha falta era mais que necessário. E também para absorver a minha imagem de pijama e sem maquiagem. E hoje eu estava em um modo ser parecido com o dos ursos: comia-dormia-comia-bocejava-comia-dormia. Era quase um transe de hibernação quando tive a ideia de tentar fazer algo interessante. Queria cozinhar, dançar ou beber... Mas era melhor fazer algo fora. Sair para esquecer esse homem por algumas horas... Pensando nisso, liguei minhas músicas no pequeno amplificador e corri para tomar banho. A ideia era espairecer a mente e me concentrar em essa coisa de troca. Meu medo de que ele precise sair e volte pra marinha. Porém... Assim que entrei dentro do vestido azul-marinho levemente rodado e puxei meus fios cacheados com o secador, deixando-os lisos e cintilando de tanto brilhosos, pensei em algo que me beneficiaria. A mim, porque ele me veria e sorriria. E a ele, por dar de cara com esse mulherão da p***a. Sempre gostei de me maquiar. Não é atoa que a coleção de cosméticos é imensa, mas dessa vez... É como se o delineador e as sombras só fossem um complemento. Eu queria parecer mais eu mesma e menos... Sei lá. Não estou fazendo sentido. Os saltos se acomodaram nos meus pés e, calmamente, peguei as chaves do carro. Depois de uma guerra muda com a bagunça de papéis que se encontrava no banco do passageiro, liguei o motor e a música. Estacionei na frente da padaria, descendo calmamente. Assim que entrei no lugar, escutei um breve assoviar. — Perfume bom, viu... — Vítor indagou e eu revirei abertamente os olhos, indo para o meu destino principal desde a queda. Tudo bem, não sem antes olhar para o querido seu Antônio. — Boa noite, seu Antônio! — cumprimentei, lançando lhe um largo sorriso. Ele ergueu a cabeça, retribuindo. — Minha linda! Você está tão mimosa hoje! — brincou. Quem escuta pensa que ele está me comparando a uma vaca. Mas, claramente, sei que é uma maneira respeitosa de dizer que estou muito bonita. Sorri com aquele belo elogio. — Oh, muito obrigada! — Ri e entrei no corredor. Ele estava de costas, pendurando uma das peças enormes de queijo na estante e eu tentei não fazer barulho. Porém, assim que parei na frente de um dos freezers, Marcel ficou estático. Virando-se lentamente. Seu olhar se converteu em um pequeno sorriso assim que me viu. — Joyce! Uau! — riu. — Que perfume é esse?! — respirou e eu notei que havia um enorme ventilador e que, obviamente, deve ter batido em mim quando cheguei. — Vai aonde? — balançou a cabeça positivamente. Dei de ombros, sorrindo torto por ele ter gostado do perfume. — Sair... Ele me analisou e meneou a cabeça. — Não chega muito perto senão vou ser obrigado a te cheirar... — avisou e eu tive vontade de arrodear o balcão e me lançar em seus braços. No entanto, só prendi os lábios entre os dentes e me afastei, pegando rapidamente um suco de laranja em garrafa e saindo em seguida. O toc toc dos meus saltos ecoou pelo ambiente. Mas, meu coração conseguia bater ainda mais forte por aqueles olhos verdes.
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