SEIS

1733 Palavras
O problema de querer tanto alguém é que, inevitavelmente, em algum momento, você vai se atropelar no meio dos seus desejos e fazer alguma merda. No meu caso, mais besteiras do que as que eu já fiz. Bem, eu já cai só porquê me distrai com a cor dos olhos dele, fui mordida por um gato, apareci de pijama e mandei fotos nuas, — que nem tiveram muita reação — e não sei mais como mostrar a esse bendito homem que não preciso de relógio para saber que já passou da hora de nos beijarmos. Tô passando perto de cogitar dançar a ragatanga em cima de um dos freezers com uma plaquinha escrita "pelo amor de Deus, me pega já!". E mesmo assim, ainda acho que Marcel vai arranjar um jeito de não entender. Logo eu, que sempre odiei arrodeios, tenho que aguentar um marinheiro de olhos verdes e sorriso brincalhão, sem saber o que quer. Minha mente já está começando a processar "porquês" para toda essa demora. E o primeiro da lista é "falta de interesse". Ele pode, simplesmente, não me querer... Isso é possível, certo? — Eu te pago pra trabalhar. Não recebe um número entupido de zeros para ficar devaneando — Guilherme comentou, ríspido. Na noite anterior, eu tinha bebido um pouco além do normal e ligado, perguntando se poderia me buscar e depois buscar o meu carro. — E eu sou seu chefe, dono da p***a de um shopping, não seu Uber! Ok, ele está bem irritado. — Quando foi a última vez que bebeu? Na sua formatura na Universidade?! — gesticulou de maneira exagerada. Eu comecei a trabalhar aqui muito nova e, passo a passo, subi na hierarquia de cargos. Sem trapaças, só com meu suor e esforço. — Seja lá o que estiver acontecendo com você, preciso que pare já! Ergui as sobrancelhas. — Por que está tão irritado? Está com inveja por não ter me afetado do jeito que ele está conseguindo? — descansei o rosto no dorso da mão. Estava cansada, a maquiagem escondia as olheiras e a cara de destruída depois da bebedeira de ontem. — Eu sou uma bêbada bem sã, Fragoso. Lembro que te irritei durante duas horas falando sobre como o Marcel é lerdo e que você até tentou tirar minha roupa na desculpa de "me dar banho"... — fiz as aspas no ar. O i*****l nem fazia questão de esconder o sorriso safado. — Temos que aproveitar as oportunidades que o nosso Senhor dá! — levantou as mãos, olhando para cima. Deus, essa é a hora de fazer um raio cair na cabeça dele! — Mas, por favor, se falar mais uma letrinha sobre esse cara, eu juro que... Sei lá, te demito! Ele vai acabar afetando o seu desempenho no trabalho! — meneou a cabeça. Eu tive que rir. Enxuguei as lágrimas que caiam dos meus olhos e puxei o ar. — Afetar o meu trabalho?! — puxei as enormes pastas de trabalho já feito e juro que, por um milésimo, não as joguei em cima da mão dele. — As planilhas detalhadas com o desenvolvimento e estimando o crescimento das lojas no próximo mês... Guilherme franziu o cenho. — Mas isso é para daqui a três meses... — Justamente! Então, pense muito antes de, nas entrelinhas, me chamar de estúpida apaixonada e incompetente. — cruzei os braços. Eu poderia estar sentindo um abismo (nem posso chamar mais de queda) pelo carinha dos frios, mas isso nunca mexeria na forma que cuido da minha carreira. Não lutei tanto para me perder por causa de uma atraçãozinha boba. — Estamos entendidos, Dr. Fragoso? Ele revirou os olhos, se jogando na poltrona enorme perto da janela. — Tinha me esquecido que você subiu até essa cadeira com as unhas e latindo para todo mundo, Ribeiro. — tinha o olhar perdido em algum canto na paisagem magnífica da cidade. O último andar da Imperium era super privilegiado, tínhamos uma das melhores vistas. — Me desculpe. — suspirou, bagunçando os fios negros. — Meu ego está ferido. — deu de ombros. Prendi a risada e me levantei, ainda sem saber como estava me aguentando em cima desses saltos. Calmamente, pressionei meus lábios na testa dele. Os olhos de coloração âmbar levantaram, encontrando os meus. — Gui, você tem mulheres bem melhores que eu... — ri sem graça. — Só sou uma gorda que veste roupas que favorecem e você bem sabe a desgraça que tem debaixo desses três quilos de argamassa na minha cara... Meu chefe enfiou o rosto nas mãos, grunhindo. — Sua autoestima é uma montanha russa, Joyce. Fiz bico, me encostando na mesa. — A de toda mulher é, Guilherme. Ainda mais quando somos acima do peso ou, infelizmente, não viemos com o cabelo ao nosso gosto — apontei para a raiz que já queria ficar volumosa e cachear — no meu caso, os dois. É complicado lidar. Uma batalha diária com o espelho... — soltei o ar ao me afastar e lançar-lhe um sorriso torto. — Enfim, chefão... Vá para uma das suas baladas e esqueça isso. Você só se fixou em mim porque sabe que não vai me ter. O risinho safado reapareceu. — Nunca diga "dessa água não bebereis", querida Superintendente... — ergueu-se da poltrona e me ofereceu uma piscadela. — A vida pode te surpreender... Larguei meu corpo na cadeira e o fitei sair, suspirando forte. Naquele instante eu não sabia e nem fazia a mínima ideia de que sim, a vida pode realmente trazer surpresas. Às vezes, boas... Porém, a maioria, ruins. *** Assim que entrei em casa, chequei pela quinquagésima nona vez para ver se tinha alguma mensagem dele no meu celular. É que, quando gosto de alguém e conversar com a pessoa me faz bem, eu meio que fico sem limites. Quero sempre estar com ela, falar sobre como é incerto essa afirmação de que o céu é azul ou... Sei lá, sobre como Aristóteles tinha teorias boas sobre a amizade. E detesto quando demoram para responder. É quase uma afronta. Isso pode, facilmente, ser confundido com carênc... Foda-se, é carência mesmo. E, em relação ao Marcel, eu sabia que estava prestes a comprar uma cadeira de praia e estacionar na parte dos frios da padaria, só para poder ver aquele sorriso e dar umas risadas com as caretas confusas dele com as nossas conversas. Fechando os olhos, poderia facilmente vislumbrar os olhos verdes levemente puxados e me encarando com uma expressão "você realmente existe, garota?". Eu causava essa reação imediata nele. Não sei porquê. Nick abanou o r**o e quase me derrubou ao pular em mim. — Oi, garotão da mamãe! — ri, acariciando o pelo alvo. O saco enorme de ração estava ainda estava cheio e a minha geladeira bem abastecida. Eu não tinha nenhuma desculpa ou pretexto para ir vê-lo. Além de comprar o pão e rezar para a Santa Afrodite que, por um acaso, ele estivesse estirando as pernas e conversando com o Vítor. No entanto, a minha mente está condicionada para achar saídas até nos becos mais escuros. Rapidamente, brinquei com o Nick e sai novamente. Dessa vez eu nem precisava de carro, ainda vestida com as roupas do trabalho — uma saia lápis, saltos e a blusa levemente caída sob o ombro — corri para a pequena lanchonete duas quadras depois do condomínio. Eu havia me lembrado de uma das últimas conversas e do amor confesso dele por, nada mais, nada menos que: açaí. — Boa tarde! Posso lhe ajudar? — uma mulher morena se aproximou e eu sorri, acenando rapidamente. Não conseguia não ficar empolgada. Adorava surpreender as pessoas. — Qual é a maior quantidade de açaí que vendem? — É o barco... — ela parou, me encarando e até olhando para trás de mim. Será que estava pensando que eu comeria tudo sozinha? — É presente viu, moça... — murmurei, vendo-a sorrir fechado e pegar um recipiente em forma de barco. Era grande pra caramba. Enruguei a testa. — E quanto é? — eu poderia ter dinheiro agora, mas isso não significa que vou desperdiçá-lo a toa... — Trinta reais. Completo? — parou na frente dos vários acompanhamentos. Tinha até Mm's. Uau. Engoli a seco, deixando os ombros caírem. — É, pode pôr tudo — resolvi deixar pra lá. Não era um gasto. Era um investimento. Depois de quase quinze minutos, a mulher finalmente acabou, embalando cuidadosamente toda a extensão daquela coisa enorme com plástico transparente e o pousando dentro de uma sacola — que até era bonitinha. Soltando um bocejo cansado, estendi as notas à ela e rumei em direção a padaria. Não dei muita importância em pegar o pão quentinho, apenas puxei uma das pequenas sacolinhas e, de cara fechada, caminhei até a área do meu querido (e lindo pra caramba) marinheiro. Ele conversava animadamente com duas senhoras, ao me ver, franziu o cenho. Eu tinha a cara de "depois conversamos", uma sobrancelha erguida e os lábios em linha reta. Porém, não era verdadeira. Se eu não fizesse isso, alguém desconfiaria e... Enfim. Ainda com a expressão brava, coloquei a sacola com o barco de açaí no balcão. — Tá aí. E sai, mas não antes de sorri largo ao me virar e continuar rebolando até o caixa. Assim que abri a minha porta, além de um Nick animado, meu celular vibrou. Sorri. O visor mostrava que ele tinha acabado de mandar uma mensagem de voz. Sem arrodeios, o abri. "Eu... — ele riu — Eu pensei que você estava com raiva de mim. Entrou com uma cara feia que até pensei "meu Deus, fiz algo". Estava prestes a perguntar o porquê da expressão fechada quando colocou o açaí no balcão e saiu sorrindo... Aí eu fiquei me perguntando... 'Porque ela me daria um açaí?'... Você acabou de confundir a minha cabeça. Parabéns, Joyce. E obrigado" Me joguei no sofá, irrompendo em uma gargalhada gostosa e um pequeno calorzinho bom no peito. Marcel era interessante. Um homem de vinte e sete anos que cora e me acha maluca. Pensando apenas com a sensação boa que era tê-lo por perto, gravei uma nota de voz: "Se acostume, Marcel... E quando podemos nos ver, sabe... Fora da padaria?" Queria eu, ter sabido antes, que essa pergunta mudaria várias coisas. E bote ênfase no "várias", viu...
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